O CORAÇÃO COMO ÓRGÃO SUTIL

HCIA

O coração (qalb), no sufismo em geral e em Ibn Arabi em particular, é o órgão que produz o verdadeiro conhecimento — a intuição abrangente, a gnose (ma'rifa) de Deus e dos mistérios divinos, em suma, o órgão de tudo que o termo “ciência esotérica” (ilm al-Batin) connota.

O poder do coração é especificamente designado pela palavra himma — cujo conteúdo é talvez melhor sugerido pelo grego enthymesis, que significa o ato de meditar, conceber, imaginar, projetar, desejar ardentemente.

A explicação de Ibn Arabi para os fenômenos de criatividade do coração invoca as Hadarat — as cinco “Presenças” ou planos hierárquicos do ser (os cinco Descimentos, tanazzulat) — que determinam os relacionamentos entre os planos.

A segunda explicação da criatividade (quwwat al-khalq) atribuída ao coração do sufi — enunciada num dos primeiros tratados de Ibn Arabi — define a himma como a “causa” que leva Deus a criar certas coisas, embora ela própria, em sentido estrito, não crie nada.

Com base num versículo corânico — “Certamente nisso há uma lição para quem tem um coração e empresta ouvido e é uma testemunha ocular” (L:36) — Ibn Arabi divide os homens em três classes.

A progressão espiritual do estado de simples crente ao estado místico se realiza por uma crescente capacidade de tornar-se presente à visão pela Imaginação (istihdar khayali) — avançando da visão mental por tipificação (tamthíl) passando pela visão onírica (ru'ya) até a visão testemunhal imaginativa (shuhud khayali) que se torna visão do coração (shuhud bi'l-qalb).

O extraordinário papel da Imagem na espiritualidade de Ibn Arabi manifesta-se, entre outros exemplos, na capacidade de “visualizar” certas letras do alfabeto árabe — como a Ipseidade Divina (huwiya) na forma da letra árabe ha, resplandecente de luz — e, mais significativamente, na aparição de uma forma e figura no próprio grau de meditação voltado para a Unidade divina absoluta (ahadiya), que exige a negação de todos os atributos.

A himma — a criatividade do coração como enthymesis — é o que faz aparecer as formas que pré-existem mas não foram criadas no sentido de terem aparecido, e é o que constitui a validade da Imaginação Criadora.