VISÃO FILOSÓFICA

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IV. VISÃO FILOSÓFICA

1. Sobre o vocabulário do ser

Não era possível oferecer neste livro todo o comentário que o denso opúsculo de Mollâ Sadrâ teria exigido, de modo que as notas se restringem a alguns pontos essenciais, sendo necessário destacar aspectos gerais para coordenar as observações.

A metafísica do ser de Mollâ Sadrâ opera uma revolução ao conferir primazia ao ato de existir, destronando a venerável metafísica da essência que reinava desde Fârâbî, Avicena e Sohravardî.

Está-se diante de um vocabulário do ser, em árabe e em persa, que remonta originalmente a Avicena e a Fârâbî, sem esquecer os metafísicos ismaelitas, mas que deles diverge profundamente pelos enriquecimentos e variações dos problemas ao longo de vários séculos.

Todo o combate que Mollâ Sadrâ trava nos dois primeiros terços do livro é dirigido contra a quimera de um ser, do ser de uma essência, que não existiria — sendo que Kant afirmava que qualquer que seja o conteúdo de nosso conceito de um objeto, somos sempre obrigados a sair dele para lhe atribuir a existência.

Que traduzir a metafísica de Mollâ Sadrâ para o francês não seja tarefa simples fica claro ao se recorrer à magistral síntese de Etienne Gilson em seu livro intitulado L'Etre et l'Essence (Paris, 1948).

A dificuldade de traduzir a obra de Mollâ Sadrâ para o francês tem como razão primeira a desvalorização do verbo ser em francês, pois ao empregar somente esse termo arrisca-se a dar-lhe a ressonância de uma metafísica da essência.

O metafísico que fixa sua atenção em palavras tão simples e correntes quanto ser, essência, existir, presença — das quais hoje se faz uso abusivo — e que é criticado por fazer a metafísica versar sobre palavras, está, como diz Gilson, “atrasado em relação a uma ideia” (ibid. p. 11).

A primeira dificuldade já posta é a confusão sempre ameaçadora, em francês, entre o ser como verbo significando que uma coisa é, e o ser como substantivo significando uma das coisas das quais se diz que são — os entes.

Responder de forma satisfatória à questão dupla é expor a filiação das doutrinas, como o fez o grande medievalista Gilson — podendo-se pensar que ser um ente seja ser (falando-se em árabe da wojûdîyat al-mawjûd), ou que ser seja ser um ente (falando-se em árabe da mawjûdîyat al-wojûd).

Compreende-se por isso que espontaneamente a língua tenha dobrado o verbo ser de outro verbo “cujo papel é precisamente assumir a função existencial que era primitivamente a sua e que progressivamente cessou de exercer” (ibid. p. 13) — sendo que o verbo existir assumiu, em francês, esse papel, permitindo distinguir o fato de dizer que um ente é um ente do fato de dizer que ele existe.

O termo existir tem, por sua vez, toda uma história que poderia expor uma segunda confusão — pois o vocábulo latino existere, mais exatamente exsistere, é composto de ex e sistere, podendo este último apresentar vários sentidos: ser colocado, manter-se, subsistir.

O vocabulário do ser revela conexões totalmente distintas na tradição árabe e persa, sendo que os filósofos iranianos dispõem do árabe e do persa.

Jamais se usa em árabe o verbo wjd (nem ays) assumindo a “função existencial” como verbo copulativo que une o predicado ao sujeito no julgamento lógico — sendo que a proposição nominal em semítico não precisa exprimir o verbo ser copulativo para ligar o predicado ao sujeito.

Nada mais simples nem mais evidente do que dizer: o ser é, a existência existe — em persa dir-se-á hastî hast (equivalente linguístico exato de esse est); mas em árabe pode-se ter uma proposição nominal como al-wojûd mawjûd, o que pode ser compreendido como o ser é, mas também como o ser é um ente, o ser é ente.

Por outro lado, no grande debate que preenche os dois terços do livro, Mollâ Sadrâ jamais usa um termo que seria etimologicamente o homólogo do vocábulo essência, empregando sempre o vocábulo mâhîyat, a quiddidade (a quidditas dos escolásticos latinos) — isto é, o que se responde quando, a propósito de uma coisa, se pergunta quid est? (mâ howa?), o que é ela?

Esta rapidíssima esboço não permite aprofundar a tarefa que se imporia em certa medida: seguir de um lado a passagem dos termos gregos ao siríaco e ao árabe — chegando que o ente, to on, seja traduzido por haqq, do qual deriva haqîqat, termo corânico que designa por excelência o Verdadeiro e o Ser divino — e de outro lado a passagem do árabe ao latim.

2. Sobre a existência como Presença

Foi feita acima alusão ao florescimento espontâneo do verbo existir, dobra necessária do desafortunado verbo ser desvalorizado — sendo que por sua própria etimologia, o verbo latino ex-sistere connota uma referência à origem do ser do qual se diz que ele existe: ex alio sistere, subsiste a partir de um Outro.

Deveria encontrar-se uma justificação da generalização do vocábulo no fato de que, se todos os seres que apreendemos pela experiência sensível existem dessa maneira (ex alio sistunt), “é correto dizer que eles existem para significar o fato de que são?” (cf. Gilson, ibid., p. 15).

As vicissitudes do termo existência mostram talvez a que finaliza essa diferenciação — pois o fato de esse termo ter estado ligado, na origem, ao ser atualizado no mundo sensível, explica que a metafísica tenha querido prosseguir seu objeto próprio libertando-se de todo compromisso com o “ser atualmente existente”.

O fato capital da história da filosofia ocidental moderna é a admiração de Kant por Christian Wolff, doutrina que acabou por repudiar — pois toda sua crítica da metafísica pressupõe que de fato a metafísica em si não faz mais que uma com a do “ilustre Wolff, o mais célebre de todos os filósofos dogmáticos”, de sorte que se trata para Kant de “depois de ter estabelecido em que condições filosóficas uma metafísica em geral é possível, constituir por sua vez uma metafísica de tipo wolffiano” (ibid., p. 185), ao mesmo tempo que a constitui contra Wolff.

Se essa evocação foi prosseguida, é porque ao nos reconduzir aos “direitos do existir” reivindicados contra a metafísica da essência — ou seja, a do puro possível — ela nos reconduz ao vocábulo existência e finalmente ao uso que dele faz o existencialismo contemporâneo.

A situação de Mollâ Sadrâ é bem diferente — pois se é verdade que com a Renascença safávida começa o período moderno do Irã, este vocábulo moderno só se entende por uma aproximação exterior dos calendários, não bastando a simples equivalência das datas da hégira com as da era cristã para tornar contemporâneos os filósofos no sentido em que eles mesmos entendem essa palavra.

Um momento decisivo de seu Livro das penetrações metafísicas é formado pelos §§ 76-80, que concluem o capítulo V, discutindo em que sentido e sob que aspecto se pode levar em consideração a tese comum aos metafísicos da essência, a saber que a existência é um predicado da quiddidade, enquanto em virtude da inversão operada pela doutrina sadriana, é a quiddidade que é o predicado da existência, pois é existindo que um ser é o que é, consistindo sua existência precisamente em ser essa quiddidade.

Objetar-se-á talvez que sendo a quiddidade então o sujeito que recebe o predicado existência, é necessário que essa abstração operada pelo pensamento constitua também uma espécie de existência para as quiddidades — sendo que Mollâ Sadrâ observa que essa objeção concorre para o triunfo de sua própria tese.

Essa existência onipresente tem três graus recapitulados em uma “palavra inspirada do Trono” (§ 97): 1) a existência do Princípio, ilimitada e não dependendo de coisa alguma; 2) a existência dependendo de algo de outro, no sentido em que o são as Inteligências angélicas, as Animae caelestes, etc.; 3) a existência desdobrada (monbasit) cuja compreensão e extensão englobam os indivíduos, não à maneira como os englobavam as quiddidades abstratas, mas da maneira em que os gnósticos compreendem o sentido quando a designam como “Sopro da Compaixão divina” (Nafâs al-Rahmân).

Se o objeto da Instauração criadora fossem as quiddidades, seguir-se-ia que todas as substâncias e todos os acidentes do universo não seriam mais que abstrações (§ 96) — sendo que Mollâ Sadrâ, como Ibn 'Arabî, professa wahdat al-wojûd, a unicidade do existir.

Por uma reminiscência pitagórica, despertada sem dúvida através dos Ikhwân al-Safâ, Mollâ Sadrâ (§ 88) tipifica a realidade única do existir, diferenciada em atos de existências múltiplas, no exemplo dos Números — pois a escala dos Números não forma senão uma realidade única, cada grau não sendo mais que um agrupamento de unidades; e no entanto cada um desses graus possui uma essência, qualidades e virtudes próprias, que não se reencontram em nenhum outro.

O segredo dessa unicidade do existir, tal como Mollâ Sadrâ a compreendeu como pensador ishrâqî, se elucida assim que ele mesmo explicita essa noção do existir como sendo a mesma que a de Presença — sendo que por isso sua gnoseologia coloca finalmente a unificação do 'âqil (sujeito que intelige) e do ma'qûl (objeto inteligido), ou antes o ittihâd do sujeito e do objeto da percepção, tanto ao nível da intelecção quanto da percepção imaginativa e da percepção sensível.

É a conclusão com que se encerrará o opúsculo — pois por essa coordenação de existência e presença, encontra-se, por assim dizer, no ponto de encontro que se havia marcado acima, ao recordar por que, em francês, o verbo existir tinha dobrado o verbo ser, por que a referência implícita à origem, contida no verbo ex-sistere, o afetava ao domínio da experiência sensível, como uma ontologia pura havia querido libertar-se de todo compromisso com a existência para se encontrar, finalmente, diante de uma reivindicação dos direitos do existir.

Curiosamente, enquanto que desde o século XVII, pelo motivo recordado acima, a língua francesa tendia a identificar o ser e o existir, eis que nos dias atuais o existencialismo pretende de novo separá-los — sendo que os escolásticos, conscientes da etimologia do vocábulo exsistere (ex alio sistere), tendiam a reservá-lo para as coisas que subsistem por um Outro, e das quais era correto dizer que existem para dizer que são, ao passo que o existencialismo contemporâneo, sob suas diversas formas, entende não apenas distinguir a existência do ser, mas opor a existência ao ser.

Mas, todo filósofo o sabe, o que há no fundo da tese que recusa ao ser enquanto ente o existir, é que o existir é um modo próprio de ser, aquele mesmo que constitui a presença do homem ao seu mundo (seu Dasein, seu ser neste mundo) — sendo que a essência de seu ser neste mundo, de sua Presença, consiste precisamente em sua ex-sistência, mas uma sistência que surge não ex alio, mas de um nada e de um abismo de silêncio.

É que também bem a existência neste mundo não emerge para ele de uma anterioridade de nada — pois ver-se-á Mollâ Sadrâ referir-se explicitamente ao texto onde Ibn Bâbûyeh afirma a crença geral xiita na pré-existência, a dos Espíritos pré-existindo aos corpos — pois a escala do ser e a amplitude das Presenças que a conhecimento presencial ('ilm hodûrî) compreende não têm a mesma medida na metafísica tradicional que na filosofia chamada moderna.

Não se pode considerar que o existencialismo, de Kierkegaard, detenha algum direito de propriedade legítima sobre o vocábulo existência entendido à sua maneira — o que obrigaria ou a renunciar a traduzir os textos de um Mollâ Sadrâ e de seus irmãos de existência, ou a alterá-los por uma “laicização metafísica” que a gnose islâmica nunca teve a ideia de conceber, nem mais do que ela poderia ter concebido que se pretendesse fazer uma metafísica do Espírito combatendo o “espiritualismo”, sob o pretexto de que este recusa as consequências do existencialismo.

3. Sobre a filosofia profética

As observações precedentes, bem como os dois primeiros terços do Livro das penetrações metafísicas, tendem ao objetivo que representa a ideia de uma filosofia profética — sendo que em seu prólogo, Mollâ Sadrâ propunha-se tratá-la neste livro; ele anunciava que trataria da walâyat (o carisma espiritual dos doze Imãs ou Guias do xiismo duodecimano), mas, como se constatou, abreviou consideravelmente o programa que havia primitivamente traçado para si.

Uma filosofia profética é aquela em que o homem profético e a mensagem profética ocupam o centro — sendo que o profeta não designa evidentemente alguém que prediz o futuro, mas o inspirado, o sobre-humano, que transmite uma mensagem divina que o comum dos homens seria impotente de atingir por si mesmo.

O que caracteriza essa filosofia profética é que sua gnoseologia postula a identidade do anjo do Conhecimento para o filósofo e do anjo da Revelação (wahy) para o Profeta ou da inspiração (ilhâm) para os Imãs, isto é, a identidade de 'Aql fa“âl, a Inteligência agente, e de Rûh al-Qods, o Espírito-Santo.

Duas coisas, nessas notas, devem ser sublinhadas para finalizar — sendo que a primeira é que a noção de presença frutifica concorrentemente na metafísica de Mollâ Sadrâ e na imamologia que ele elabora como pensador xiita (cf. tradução, n. 64 e 65).

Quanto aos pontos de divergência entre Mollâ Sadrâ e o Shaykh Ahmad Ahsâ'î, parece muito importante chamar a atenção sobre as algumas notas que lhes foram aqui consagradas, porque as duas posições tipificam algo de essencial na gnose xiita.

Daí se produz um deslocamento na ordem da procissão do ser — sendo que para Mollâ Sadrâ, como neoplatoniciano aviceniano, como ishrâqî também, o Primeiro Emanado do Ser Primeiro é a Primeira Inteligência.

Segue-se então uma diferença estrutural essencial — sendo que para Mollâ Sadrâ, a Inteligência Agente é o Espírito-Santo (não é essa identificação que a crítica de Shaykh Ahmad coloca em causa).

Há certamente algo de grandioso na concepção que se exprime em Shaykh Ahmad Ahsâ'î: a de uma viagem querubínica — poder-se-ia dizer aqui também — que arrasta eternamente a Inteligência-Espírito-Santo ela mesma à reconjunção com a Realidade profética eterna (Haqîqat mohammadîya) ou Luz das Luzes, e que então as arrasta juntas em uma peregrinação eterna em direção ao Inacessível, do qual se aproximam sem cessar e que, sempre mais distante, solicita sem cessar uma nova aproximação.