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Diálogos Interiores — Os Tratados XI e XII
Os Tratados XI e XII se agrupam sob um novo tema — “Diálogos Interiores” — diferenciando-se dos relatos precedentes (Tratados VI a VIII) por não serem relatos visionários que narram o encontro com o Anjo, mas relatos que reportam um longo diálogo com um shaykh que dispensa a iniciação.
A diferença em relação aos Tratados VI a VIII é na prática muito estreita: o shaykh do diálogo é o substituto do Anjo dos primeiros relatos — o Anjo “que não diz seu nome.”
O shaykh não é um nome a buscar em alguma árvore genealógica de uma tariqat sufi; o Shaykh al-Ishraq e os ishraqiyun não reivindicam nenhum shaykh humano — seu shaykh e guia (morshid) é o próprio Anjo, Espírito Santo e Inteligência agente, inspirador dos profetas e dos filósofos.
Por esse Anjo, os ishraqiyun se vinculam à “confraria iniciática” constituída por todas as Inteligências arcangélicas do pléroma; se reivindicam uma árvore genealógica autêntica, é essa — não a linha horizontal de um encadeamento histórico deste mundo, mas a vertical que liga cada nadir terrestre ao zênite celeste.
Na escola de Najmoddim
Kobra, esse guia interior se chama shaykh al-ghayb, ostad-e ghaybi — o mestre pessoal invisível, a “testemunha no Céu.”
O último período do relato deixa entrever, como num pressentimento de seu destino trágico, o pesado fardo imposto ao peregrino místico pelo fato de ter o Anjo por shaykh e por guia.
O Título e o Quadro do Diálogo
O diálogo não tem outro título que as primeiras palavras do texto — “Um dia, com um grupo de sufis…” — sob essa forma figurando na bibliografia estabelecida pelo fiel discípulo Shahrazori, e sua autenticidade não é duvidosa.
O relato se situa desde a primeira frase “num khangah” — palavra que designa exotericamente uma loja de sufis, mas que para o Shaykh al-Ishraq designa o santuário do homem interior, o microcosmo como cidade pessoal cuja porta abre sobre o outro mundo.
É nesse khangah, nesse templo interior, que se situa não apenas o relato que reporta o diálogo, mas o próprio diálogo do discípulo com seu shaykh interior.
A Arte dos Lapidários e a Genêse das Esferas
O questionador diz ao shaykh seu espanto diante da arte dos lapidários observada no bazar — arte que simboliza a arte do demiurgo dos mundos.
O shaykh expõe a gênese das Esferas celestes, com as particularidades de cada uma, mas em imagens tão obscuras que o ouvinte confessa não entender nada; o shaykh retoma “às claras” sua exposição, revelando as leis segundo as quais desce e se reparte a Luz de Esfera em Esfera.
A comparação com a arte do pintor que se propõe a representar um templo é particularmente significativa: qualquer que seja a cor escolhida para a base — o azul, por exemplo —, quanto mais a dimensão da imagem se eleva, mais a cor cede lugar à brancura correspondente ao estado sutil das alturas.
Novas questões emergem: por que há na Segunda Esfera uma multiplicidade infinita de estrelas enquanto nas outras há apenas uma? E por que a Lua não tem luz por si mesma? E se a Lua não é um substrato da luz, como a luz do Sol pode nela se manifestar?
O shaykh declara com vivacidade: “Todas essas questões são intempestivas… Não cabe a ninguém divulgar o segredo oculto em tudo isso. Conhece-o quem o conhece.”
As Três Maneiras de Observar o Céu
A grande lição do shaykh — aquela em vista da qual foi escrito o opúsculo — enuncia que há três maneiras de observar o céu e, portanto, três categorias de pessoas que observam o céu.
A primeira categoria é a dos que não têm outra percepção que as percepções de seus sentidos externos — o céu que percebem é o mesmo que percebem os animais.
A segunda categoria é a dos homens de ciência que observam o céu “com os olhos do céu” — os astrônomos e astrólogos ocupados em compreender as leis e significações dos movimentos dos astros.
A terceira categoria é a dos buscadores de verdade espiritual (os Mohaqqiqan), os teósofos místicos — esses observam o céu por uma faculdade de percepção interior que lhes permite compreender o invisível, o esotérico dos céus da astronomia.
Motivo semelhante do céu exterior e do céu interior encontra-se em
Paracelso e em Swedenborg.
O sistema de Ptolomeu tem aqui a virtude de uma Imago mundi — não resultado de percepções empíricas, mas que as precede e guia, e que paracheva sua obra, como órgão da percepção imaginativa, reconduzindo a intuição da alma à percepção dos céus do mundus imaginalis; a validade dessa Imago mundi não depende em nada das vicissitudes da história da astronomia como ciência positiva — assim como a zoologia e a botânica modernas não infirmam a validade da simbólica românica.
A Pedagogia Espiritual e a Visão do Visionário
O shaykh ensina a recondução dos céus visíveis aos céus do mundus imaginalis, ilustrando toda a pedagogia espiritual da obra.
Quando se tratava de atravessar o microcosmo, os sentidos internos eram superados tanto quanto os sentidos externos; mas agora a comunicação com o Malakut é a todo momento possível — possibilidade que depende de um intenso treinamento espiritual.
O tratamento a seguir é rude: esmagar tudo aquilo a que se dá valor neste mundo e absorver isso como um medicamento sob cuja forma tudo será evacuado — então a anima imaginativa se substitui à anima sensitiva.
Mão interior, vista interior, ouvido interior, olfato interior são termos que caracterizam a “fisiologia” dos órgãos sutis do homem interior, cujos sentidos se transfiguram em “sentidos espirituais”, em sentidos do suprassensível.
A Imaginação ativa não é mais o demônio que extravasa; ela é a Imaginatio vera, o Anjo cuja mediação permite que os mundos superiores não revelados se manifestem num sensório capaz de imagens intelectivas.
Os Acta Petri enunciaram admiravelmente a norma das percepções teofânicas: “Talem eum vidi qualem capere potui” — “Vi-o tal como estava em minha capacidade de apreendê-lo”; Sohravardi teria certamente reconhecido essa norma como sancionando sua própria doutrina do conhecimento visionário, da hierognose.
“O acesso desse mundo suprassensível só se abre a um pequeno número de pessoas” — e o shaykh conhece as recaídas; sabe até que ponto é tenaz a embriaguez das evidências sensíveis, que empurram a negar a realidade das percepções suprassensíveis.
O parágrafo 12 revela uma profunda experiência espiritual: nessas linhas Sohravardi entrega todo o segredo dos relatos místicos compostos por ele.
A reciprocidade entre discípulo e mestre é a norma exaltante e temível da companhia do Anjo: “As normas do mundo profano não podem acomodar-se à fidelidade ao Anjo. Só resta o dilema: falar — mas ir ao encontro da morte. Calar — mas aceitar capitular.”
Nas últimas linhas do relato, Sohravardi inscreveu seu destino de “shaykh mártir” (shaykh-e shahid).