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O Livro do Raio de Luz (Partaw-Nameh) — Apresentação da Obra
O título deste tratado redigido em persa revela de imediato sua afinidade com o “Livro dos Templos da Luz” e com o grande “Livro da Teosofia Oriental”, com o acento posto sobre a noção de luz, fundamental no pensamento e na obra de Sohravardi.
O Shaykh al-Ishraq reconduz a noção de luz à sua fonte e origem: a Luz de Glória, o Xvarnah (persa Khorrah), conceito maior do Avesta que domina toda a religião zoroastriana do antigo Irã.
A noção de Xvarnah reaparece ao final do tratado, sugerindo não só que ela justifica o título, mas que é o cume ao qual conduz a doutrina filosófica e espiritual.
O nome de Platão figura também na obra, conferindo-lhe os traços característicos da teosofia da Ishraq.
Os discípulos de Sohravardi, os ishraqiyun, jamais esqueceram essa obra; Davani a ela se refere várias vezes em seu comentário dos Sexto e Sétimo Templos do “Livro dos Templos da Luz”.
Estrutura da Obra e os Oito Primeiros Capítulos
O livro comporta dez capítulos; os dois últimos são de longe os mais importantes e são preparados pelos capítulos precedentes, cuja sucessão de temas corresponde à já identificada nos tratados anteriores.
O capítulo I explica alguns termos técnicos.
O capítulo II trata da Esfera das Esferas como Esfera-limite que define as orientações do espaço sensível.
O capítulo III é uma investigação sobre a alma.
O capítulo IV trata das faculdades da alma.
O capítulo V trata da essência e dos atributos do Ser Necessário.
O capítulo VI amplia a questão tratando da ação do Ser Necessário.
O capítulo VII é um vasto exposé da cosmologia, retomando toda a doutrina da processão das Inteligências hierárquicas.
O capítulo VIII tem por tema as causas dos eventos, o Bem e o Mal, o Destino e a Destinação, expondo o esquema dos mundos — triadicamente redutível — com suas variantes de três, quatro ou cinco mundos.
O Capítulo IX — Platonismo, Imortalidade e Angélomorfose
A tonalidade do capítulo IX é nitidamente platônica, com a afirmação da incorruptibilidade e da imortalidade dos seres imateriais explicitamente atribuída a Platão como mestre de sabedoria.
Os termos compostos em que entra a palavra luz ocupam grande lugar.
A vocação do homem espiritual é atingir, tornando-se um ser de pura luz, o grau das Inteligências — o que implica uma angélomorfose, uma exaltação ao grau dos Anjos aproximados do Princípio.
As relações entre os seres de luz e sua multiplicação recíproca se exprimem em termos de uma teoria dos espelhos, uma catóptrica mística reencontrada no “Livro da Teosofia Oriental”.
O capítulo se encerra com considerações sobre o amor de cunho eminentemente platônico.
O Capítulo X — Profetologia e Fenomenologia da Consciência Visionária
O capítulo X acumula os temas pelos quais se encerra todo exposé de conjunto da doutrina ishraqi: profecia, taumaturgias, carismas, sonhos.
Sohravardi declara: “Um profeta-legislador é necessário a cada época e a cada povo, um profeta que tenha o conhecimento das realidades suprassensíveis e que receba a assistência do mundo da Luz.”
Há profetas que precisam de um iniciador — como Moisés precisou de Khezr (Khadir) —, e há os que têm o conhecimento das realidades espirituais sem intermediário humano, como Idris (Henoc/Hermes), Abraão e o profeta do Islã.
A página reflete os problemas em torno da relação entre a nobowwat (vocação profética) e a walayat — a predileção divina que elege seus Amigos, os Awliya —, tendo esta precedência sobre a missão profética por ser sua pressuposto: todo nabi foi primeiro um wali, sem que um wali se torne necessariamente um nabi.
Ao conceito de walayat substitui-se aqui o dos Mokaqqiqan, os buscadores que “realizaram” em si mesmos (haqq al-yaqin) — um theologoumenon de origem xiita que, dissimulando seu nome, permanece o que é; Sohravardi o atestou com sua morte como mártir: há uma linhagem espiritual que não se fecha mesmo após a vinda do “Selo dos profetas”.
A Fenomenologia do Sensório e a Percepção Visionária
O exposé da função do sensório na experiência visionária atinge aqui um grau de precisão que reforça o dos tratados precedentes.
As formas da Imaginação intelectiva são projetadas no sensório da mesma forma que as formas da percepção sensível — e nisso consiste a percepção visionária.
Essa percepção tem uma “objetividade” sui generis e de pleno direito, superior à objetividade das percepções sensíveis, dada sua fonte — mas o comum dos homens e dos filósofos exotéricos só reconhece objetividade e certeza às últimas.
Dois excessos contrários podem obstruir a projeção das imagens intelectivas no sensório: o excesso de ocupação pelas percepções sensíveis — pelo qual a Imaginação ativa sucumbe ao imaginário — e o excesso de cogitações teóricas, pelo qual a visão permanece visão mental teórica sem se tornar evento da alma.
Um evento interior da alma impõe-se à consciência com força e evidência mais constrangedoras que os eventos exteriores — assim como uma visão em sonho deixa impressão mais profunda que uma percepção sensível do mundo exterior.
Essas páginas constituem prólogos necessários à compreensão do evento relatado nos Relatos místicos.
O Xvarnah como Culminação da Doutrina
A passagem da fenomenologia do sensório ao recall do Xvarnah é tipicamente ishraqi: as formas imateriais suprassensíveis das quais o sensório é o espelho para a consciência visionária são todas Formas de Luz cuja fonte é a Luz de Glória que domina toda a teosofia mística do Avesta.
Foram os soberanos extáticos da antiga Pérsia que tiveram a visão do Xvarnah, e foi o jovem Shaykh que reativou seu sentido ao instaurar sua própria doutrina.
As Luzes aparecem não como formas cognitivas, mas como presença permanente na alma do meditante — estado de presença prolongada designado pelo termo habitus.
Isso permite ao Shaykh al-Ishraq conjugar as noções de Xvarnah e de Sakina — identificando a Luz de Glória persa com a misteriosa Presença divina hebraica do Santo dos Santos.
Essa conjunção tipifica uma espiritualidade que une a tradição do profetismo semítico com a do profetismo iraniano e a dos “profetas gregos” em uma espiritualidade comum à elite das “comunidades do Livro” — aquela que Sohravardi considera como a “comunidade da Sakina”.