ARCANJO EMPURPURADO

HCAE L'ARCHANGE EMPOURPRÉ: QUINZE TRAITÉS ET RÉCITS MYSTIQUES

Prelúdio

1. — As continuidades

A concepção ocidental da civilização iraniana esteve por muito tempo marcada por um equívoco que a obra de Sohravardi desfaz de modo eloquente.

A dissolução dessa visão artificial exigiu um aprofundamento das realidades espirituais vividas, tarefa que coube primeiramente aos filósofos iranianos.

A filiação espiritual de um filósofo se estabelece pelo ato pelo qual ele elege seus próprios predecessores e assume como missão a revivificação do pensamento deles.

A escola de Sohravardi perpetuou-se no Irã até os dias atuais, marcando a filosofia irano-islâmica com um caráter próprio no mundo do Islã.

A cerimônia de 15 de outubro de 1971 em Persépolis, reunindo ao mesmo tempo todas as eras da história iraniana, configurou uma autêntica festa sohravardiana.

Tal reunião da totalidade iraniana não seria possível em nenhum outro país do Islã que não o Irã, assim como a filosofia de Sohravardi só poderia florescer sob o céu iraniano.

A obra de Sohravardi é a de um filósofo aderindo com todas as potências de sua alma à visão dos mundos que se sente na missão de transmitir.

O mito de Prometeu foi alvo de uma crítica muito original, muito iraniana e muito veemente, expressa por espectadores iranianos durante os espetáculos de Persépolis, com citações de textos de Sohravardi.

Um espetáculo “Som e luz” que encenava o incêndio de Persépolis mergulhou certos espectadores iranianos em grande mal-estar, por ser vivenciado como um espetáculo demoníaco.

A noção de Xvarnah — a Luz de Glória sobrenatural — ocupa lugar central na teosophia zoroastriana e na obra de Sohravardi.

2. — O Shaykh al-Ishraq

A mensagem de Sohravardi foi concebida e formulada ao longo de uma vida tragicamente breve, cujos grandes traços biográficos e doutrinários merecem ser recordados.

Shihâboddîn Yahyâ Sohravardi — designado correntemente no Irã como “Shaykh al-Ishraq” — nasceu no noroeste do Irã em 549/1155, na província de Jébâl, limítrofe ao Azerbaijão.

Por volta dos vinte anos, Sohravardi foi a Isfahan, onde reencontrou os continuadores da escola de Avicena, e depois à Anatólia, onde sua intrepidez já inspirava temores aos amigos.

O contexto dos eventos é trágico, pois Sohravardi representava tudo o que um homem como Saladino poderia odiar.

A obra de Sohravardi subsistiu e é considerável para um homem desaparecido em plena juventude, aos trinta e seis anos.

A teosophia “oriental” (ishraqi) é a dos “Orientais” (ishrâqîyûn, mashriqîyûn) — termo que tampouco é tomado em sentido geográfico ou étnico.

O conhecimento “oriental” que se eleva após a “orientação” da alma se desdobra em vários registros, e Sohravardi quis ser o ressuscitador da teosophia dos sábios da antiga Pérsia.

A teosophia ishraqi foi a via espiritual seguida ao longo dos séculos pelos Ishraqiyun, discípulos de Sohravardi designados nos repertórios como “Platônicos”, por oposição aos Peripatéticos (Mashsha'ûn).

Molla Sadra Shîrâzî (m. 1640), ele próprio um ishraqi e figura de proa da Escola de Isfahan — ainda hoje mestre do pensamento de filósofos tradicionais iranianos como S. J. Ashtiyânî —, caracterizou a via do Ishraq como a via régia, um entre-dois (barzakh) que conjuga os métodos respectivos dos filósofos e dos sufis.

As características essenciais da doutrina ishraqi como doutrina filosófica e como prática espiritual podem ser resumidas em dois pontos fundamentais.

Essa dupla característica determinou a ordem do presente corpus de tratados e relatos místicos do Shaykh al-Ishraq.

3. — O Arcanjo de Púrpura

A passagem da doutrina à experiência vivida se realiza sob a condução de um guia sobrenatural que é o iniciador pessoal do “peregrino” — o buscador.

O “Arcanjo de Púrpura” reúne em Sohravardi múltiplas outras denominações tradicionais que definem sua identidade e função.

O Anjo é o parente celeste, o “pai” da raça humana, o Noûs patrikos da humanidade na terminologia neoplatônica.

Para compreender o espiritual ishraqi, é necessário penetrar-se da visão de um mundo em que as hierarquias mediadoras cumprem uma função necessária, cosmológica e soteriológica.

É nos Tratados VI a VIII do presente corpus que o Anjo se faz conhecer ao buscador e lhe revela quem é — especialmente ao fim do “Relato do exílio ocidental” (Tratado VIII).

O Anjo-Espírito-Santo, Gabriel, Anjo da humanidade que é sua “teurgia”, é a décima do pléroma das Inteligências hierárquicas designadas pelo “Livro de horas” como os “Deuses-arcanjos” da “raça real de Bahman-Luz”.

A profetologia islâmica — nomeadamente a profetologia xiita — tem por base a noção de “Luz mohammadiana” (Nûr Mohammadî = Luz glorificada), que assume a função do Verus Propheta ou Christus aeternus na profetologia judeo-cristã primitiva.

Nos relatos místicos de Sohravardi, bem como no relato visionário de Hayy ibn Yaqzan, o Anjo responde à pergunta de seu interlocutor dizendo “Venho do Templo (Bayt al-Maqdis)” — isto é, da Jerusalém celeste.

4. — O reino de Salomão

O contexto que ilustra a concepção sohravardiana reúne num mesmo Templo ideal o povo de Zaratustra/Zoroastro e as comunidades da Sakîna/Shekhina — as famílias espirituais que compõem juntas a tradição abraâmica.

Pesquisas do iranólogo A. S. Melikian-Chirvani revelam que os iranianos jamais deixaram cair no esquecimento o sítio de Persépolis — contrariando uma opinião bastante difundida no Ocidente.

O filósofo ishraqi Jalâloddîn Davânî (830/1427 — 908/1502), um dos mais célebres comentadores de Sohravardi, deixou um texto notável descoberto e traduzido por M. Mélikian-Chirvani, intitulado “O Livro da parada” (Arz-Nâmeh).

A tradição salomônica integrou a si não apenas a Pérside, mas também o templo de Shîz — santuário do Fogo real, no noroeste do Irã, no Azerbaijão natal de Sohravardi.

A filosofia do Shaykh al-Ishraq, como testemunha dessa Luz sobrenatural, abre o segredo das idades e dos espaços do Irã — mas esse segredo é também o da tradição espiritual ocidental.

Os “ocidentais” do Oriente suspeitam ingenuamente que toda revivificação do que chamam de “passado” tende a frear o impulso tecnológico dos dias atuais.

O caso de Sohravardi revela-se de uma virtude exemplar diante desse panorama.

Nas páginas finais do “Livro dos Templos”, em numerosas páginas de seus tratados e em seu “Livro de horas”, o Shaykh al-Ishraq dá livre curso a sua inspiração profética, lírica e imperiosa, cujas ressonâncias se propagarão pela gnose islâmica.