Cada Hadra revela a dupla implicação de um Nome divino: seu aspecto imanente — ou seja, sua referência ao ponto de vista especial do qual Deus é considerado — e seu aspecto transcendente — sua referência à Essência divina; o método filológico, por outro lado, é uma tentativa de alterar a forma dos próprios Nomes; os exemplos seguintes bastam para ilustrar: (1) o Nome divino al Mu'min (o Doador de paz) — que
Ibn Arabi explica como proveniente de aman (paz): a “Presença do Doador de paz” (hadratu-l Mu'min) transforma-se completamente na “Presença da Paz”, em que a alma cessa de ser perturbada pelo pensamento reflexivo sobre a natureza de Deus, identificando-se ao estado da intuição mística; (2) o Nome al Jabbar (o Todo-Compelidor), interpretado como o Um por quem tudo é “compelido” a proceder — compulsão (Jabr) é por ele entendida como equivalente a necessidade (wujub), sendo “o princípio subjacente de toda criação” e “há mesmo compulsão na escolha”, porém a compulsão não é uma força externa: as coisas obedecem às suas próprias leis internas de necessidade que são as leis do Um; (3) o Nome al Mutakabbir (o Orgulhoso) interpretado como significando o Um que é tão grande que transcende todos os atributos contingentes — Orgulhoso equivale a transcendente (em seu sentido); (4) o Nome al Ghaffar (o Perdoador), derivado de ghafara (cobrir ou velar): al Ghaffar significa portanto o Um que Se encobre em “formas” de Nomes — o maior véu (ou forma) sendo o Nome az-Zahir (o Externo); (5) o Nome al 'Adl (o Justo), derivado de 'adala (inclinar-se para uma coisa em vez de outra): Deus é al 'Adl porque Se “inclinou” do Estado da necessidade essencial (hadratu-l wujub al dhati) para o da necessidade fenomenal (hadratu-l wujub bi-l ghayr), ou seja, Se inclinou a ser manifestado no mundo externo;
Ibn Arabi explica a Vontade (iradah) de maneira similar: é a inclinação da Essência divina a se manifestar — a Essência não manifestada está em estado de i'tidal (equilíbrio), mas quando manifestada está em estado de 'adl assim explicado; (6) o Nome al Latif (o Sutil — o Benevolente — o mais Agradável), entendido por
Ibn Arabi como a Substância Sutil, explicado quase em sentido materialista: “Deus é 'sutil' apenas como Substância, enquanto na manifestação Ele é o mais óbvio; nenhum olho cai exceto sobre Ele ou vê exceto por meio d'Ele; de quem Ele está oculto? — e não há nada além d'Ele”;
Ibn Arabi toma todas as passagens corânicas e Tradições Proféticas que admitem interpretação panteísta para apoiar sua visão da imanência da Essência divina em todos os seres; (7) o Nome al
Hafiz (o Todo-Preservador), interpretado como o mantenedor de toda existência no sentido de ser o Um que subsiste em tudo e preserva tudo como sua Essência; (8) o Nome al Muqit (o Provedor), interpretado como o Um que alimenta o todo com Seu ser; (9) o Nome al Raqib (o Vigilante), interpretado como o Um que vigia tudo por ser a Essência de tudo; (10) o Nome al Sami' (o Ouvinte), frequentemente explicado por
Ibn Arabi em relação ao Nome al 'Alim (o Conhecedor) como o Um que Se revelou a Si mesmo em uma forma de autoconsciência; “ouvir”, segundo
Ibn Arabi, significa que Ele “responde” ao apelo interior da “fala essencial” (al kalam al dhati) das realidades das coisas em seu estado de latência; a coisa toda é expressa metaforicamente, e nessa conexão os sufis gostam de citar a passagem corânica que alude ao que chamam o Pacto Divino — quando Deus Se revelou às realidades latentes das coisas, então existindo apenas em Seu conhecimento (mas
Ibn Arabi diria em Sua Essência), Se dirigiu a elas assim: “Não sou eu vosso Senhor? e elas responderam 'sim'”; tanto
Hallaj quanto
Ibn Arabi sustentam que o Falante e o Ouvinte nesse versículo eram o próprio Deus, mas enquanto
Hallaj nega a multiplicidade potencial no Um,
Ibn Arabi a admite, dizendo que foi a isso que Deus Se dirigiu — ou seja, que o Um Se dirigiu a Si mesmo no sentido de “Se revelou a Si mesmo nas formas inteligíveis do Múltiplo”; sobre esse texto ele baseia sua visão da a'yan al thabita; (11) o Nome al Mujib (o Respondente), interpretado como o Um que responde ao “apelo” dos seres contingentes no sentido em que uma substância “responde” ao apelo de suas “formas”, dando às formas exatamente o que elas requerem — o que sua natureza permite;
Ibn Arabi também acrescenta novos Nomes à lista dos Nomes divinos populares: (12) o Nome al Dahr (o Tempo) — por Tempo ele entende aquilo cuja existência é infinita (ma la yatanaha wujuduhu): compreende a eternidade, a sempiternidade e o que está entre elas; é idêntico, em sua visão, à Essência divina; isso parece ter notável semelhança com a visão plotiniana do Tempo como “a imagem da eternidade que reflete o todo infinito e já existente do ser pelo contínuo ir ao infinito de realizações sucessivas”; para Plotino e
Ibn Arabi, o Tempo é um “Agora” eterno —
Ibn Arabi cita a tradição: “Aquele que guia o todo conhece o futuro como Presente.”