DOUTRINA DO TRATADO

MGAM

INTRODUÇÃO — APRESENTAÇÃO DOUTRINÁRIA DO TRATADO

A Realidade muhammadiana constitui o tema central do tratado e foi objeto de múltiplos trabalhos desde as origens do Tasawwuf, sendo desenvolvida por Ibn Arabi em suas obras sob aspectos variados, com fundamento na autoridade corânica e na Tradição profética.

A originalidade do tratado sobre a Arvore do Mundo reside no uso do simbolismo da Arvore, que permite ao autor apresentar a Realidade muhammadiana em seus diferentes aspectos de maneira muito concreta.

Esses aspectos estão implicados no Espírito muhammadiano (ruh muhammadiyya), incriado e criado, proveniente do movimento de Amor pelo qual Deus deseja fazer conhecer o conteúdo de Seu Tesouro oculto em Sua Essência incondicionada.

Deus, amando e querendo fazer conhecer o conteúdo desse Tesouro oculto em Sua Essência absoluta, infinita e eterna, determina o Princípio da criação para que ela possa se manifestar, conforme a Tradição relatada por Ibn Arabi no tratado: “Eu era um Tesouro oculto e não era conhecido. Ora, amei ser conhecido. Criei então as criaturas e fiz que Me conhecessem por Mim. Então Me conheceram.”

A Realidade muhammadiana, resultante dessa autodeterminação principial, Espírito de Deus e movimento de Amor que lhe é próprio, contém todas as verdades do Tesouro divino que Ele quer que sejam conhecidas, conforme o hadith: “a primeira coisa (ou realidade) que Deus autodeterminou (khalaqa ou criada no Princípio divino) é o Espírito do teu Profeta, O Jabir.”

ORIGEM E FINALIDADE DO ESPÍRITO MUHAMMADIANO

O Espírito de Deus, proveniente do Amor de ser conhecido, é ao mesmo tempo Ciência ou Ciência divina, Amor divino e Aquele que vai fazer conhecer as possibilidades divinas que veicula.

O Espírito, contendo e propagando todos os possíveis, recebe a soma de todas as Palavras na vida íntima de Deus e na manifestação, possuindo eminentemente dois Nomes divinos cuja função é preponderante no processo de diferenciação dos possíveis: a Luz e o Verbo ou Palavra.

O segundo atributo preponderante do Espírito é o Verbo, Palavra ou Logos: Deus profere, pelo Espírito, a Ordem de fazer existir a Criação, objeto de Seu Amor, e o Imperativo divino “Sê!” (KuN) opera pelo Espírito a “saída” aparente dos possíveis.

Quando o Espírito propaga a existência e está presente sob seu aspecto criado, porta em si o conteúdo essencial da Realidade muhammadiana que faz conhecer, assumindo a forma do Enviado de Deus que revela o conteúdo do Tesouro oculto não somente a si mesmo no Princípio divino, mas também no Universo.

SIMBOLISMO DA ARVORE E DA SEMENTE

A Arvore é um símbolo comum a todas as formas tradicionais passadas ou atuais, encontrado na imageria de todos os povos sob formas variadas e em relação com sua natureza, servindo para exprimir a Realidade divina manifestada, a ordem e a vida cósmica, as relações dos seres entre si ou a realização espiritual.

É por uma visão do Universo (kawn) sob a forma da Arvore engendrada de sua Semente luminosa pela virtude do Imperativo divino “Sê!” (KuN) que o Mestre inaugura o tratado sobre a Realidade muhammadiana ou o Homem universal.

I — ORIGEM E FINALIDADE DA ARVORE MUHAMMADIANA

A produção da Arvore a partir da Semente está em estreita relação com a Criação do Universo por Amor divino de ser conhecido, segundo os termos da Tradição citada por Ibn Arabi a propósito do simbolismo da Arvore.

Uma vez a Semente primordial depositada na Substância metacósmica, Névoa (haba') — ou Trevas primordial — onde estava o Senhor antes que determinasse a Criação, ela desaparece em proveito de seu objeto amado: a Arvore universal que manifesta todas as possibilidades.

Sob o efeito vibratório e espiroidal do Espírito, o conteúdo virtual da Semente, comprimido nela, é dilatado, e essa distensão de Amor é Misericórdia que difunde Nomes divinos e essência das coisas no Trono do Todo-Misericordioso em um transbordamento de Amor impossível de conter.

No processo interno à Vida divina, a Semente é o análogo do Coração (qalb) e a Arvore em si aquele do Trono ('arsh); a Arvore cósmica e do Devir na Manifestação, exprimindo todas as possibilidades da Semente, é o análogo do Pedestal (kursi) que “engloba os Céus e a Terra”, segundo o versículo corânico (Corão II, 256).

II — ECONOMIA VIVENTE DA ÁRVORE MUHAMMADIANA E SUA REPRESENTAÇÃO FORMAL

Essa Semente original é vivente da Vida divina, dotada de Ciência, Vontade e Poder, sendo Amor puro cuja energia espiritual que lhe é própria é Vida absoluta que se comunica à Arvore.

Nesse mundo intermediário sutil, a Arvore será percebida segundo a aparência de uma árvore sensível porque a faculdade imaginativa dá uma forma sutil aos Princípios divinos e às realidades de ordem espiritual:

Todos os seres do Universo portam neles a marca indelével da Unidade divina e guardam uma certa reminiscência de sua norma essencial em direção à qual são atraídos pelo irresistível atrativo que lhes dá o amor de sua origem em Deus mesmo.

Quando a Semente original se deposita na caixa esférica da Existência universal para conformar a Arvore cósmica, ela se diferencia cada vez mais, e Ibn Arabi distinguirá seus aspectos principais ligados aos números simples dos quais o Profeta Muhammad é dito ser, segundo a Tradição, o primeiro e o último.

1) O aspecto dual da Arvore em relação com a bipolarização ou dicotomia da Semente: da Semente luminosa sem dimensões, duas determinações principiais vão se apresentar, simbolizadas pelos dois cotilédones da semente que se organizam em torno do germe para formar os elementos de um primeiro ternário.

2) O aspecto ternário da Arvore: podem-se considerar vários ternários na Arvore segundo que se parta de sua simetria, de sua hierarquização ou de sua vida íntima.

A seiva ou o mundo da Onipotência corresponde à função vivificante do Espirito onipresente que comunica vida, luz, palavras, sopro, saber etc. a todos os seres do Universo, propagando a superabundância do Amor divino de ser conhecido até à menor folha da Arvore universal.

d) Axialidade da Arvore: Muhammad, eixo da Existência universal: o tronco da Arvore simboliza o eixo imutável em torno e a partir do qual a multiplicidade vai se organizar.

e) Considerações gerais: a forma ascensional da Arvore exalta a imaginação do ser que vê nela um símbolo adequado de sua própria forma integral.

III — VIAGEM E ASCENSÃO NOTURNA DO SER MUHAMMADIANO

No simbolismo da realização espiritual, a árvore pode ser considerada de duas maneiras: o itinerante espiritual parte de sua base corporal e terrestre para remontar os graus da Arvore cósmica tal o Enviado de Deus durante seu Viagem noturna e sua Ascensão; e o conhecedor por Deus redesce no mundo manifestado após sua própria Ascensão à semelhança do Profeta.

1) A Arvore em posição erigida: ela simboliza o percurso ascendente do itinerante espiritual e os graus que ele franqueia sucessivamente para produzir sua árvore que elabora a partir da Semente divina depositada e enterrada nele.

2) A Arvore invertida: ao termo último dessa Ascensão e dessa realização da Essência da Unidade divina (tawhid) por reabsorção integral do corpo, da alma e do espírito na Essência absoluta, o Profeta redesce na Arvore do Universo com a consciência de todos os seus aspectos tal a Semente “originando” e desdobrando sua Arvore com o conhecimento perfeito de todas as suas partes.

Entre outras obras recomendadas que tratam da Árvore: