Os dois conceitos de Decreto (qada) e Destino (qadar) estão muito próximos dos conceitos de Vontade divina (mas hi'ah) e Desejo (iradah), sendo todos esses conceitos dependentes do conceito subjacente da predisposição eterna das essências latentes.
O termo “Decreto” (qada) deriva da raiz árabe qada, que significa “executar”, isto é, a execução do Comando Criativo divino (amr), que é ele mesmo o resultado da decisão divina de criar (hukm), a qual é provocada pelo impulso inerente das essências latentes preexistentes para a atualização cósmica.
O Decreto é outra maneira de expressar o próprio processo criativo, a liberação do Sopro do Misericordioso, a projeção da imagem refletida, mas com a dimensão extra da inevitabilidade e do fato consumado.
Esse conceito não está tão preocupado com a vontade ou o impulso para criar decorrente do desejo interior divino por Autoconsciência, mas sim com o próprio fato da existência e a consequência inescapável do devir.
O Decreto é aquilo que é querido, a execução da Vontade juntamente com todas as consequências que fluem dessa execução, consequências estas que não são outras senão a elaboração e manifestação infinitas na existência daquilo que a criação é em sua latência.
O Destino (qadar) é, por assim dizer, uma modificação do Decreto, na medida em que determina o modo e a medida de seu devir, novamente conforme ditado pelas realidades essenciais.
Estando preocupado com medida e proporção, o Destino determina o quando, onde e como da criação, o instante particular de sua manifestação, o contexto e a natureza de sua existência.
O Destino não está preocupado tanto com a efusão universal do ato criativo, mas sim com a alocação aos seres criados individuais dos limites de sua existência, assim refreando e definindo individualmente o ato criativo.
Em certo sentido, portanto, o Destino reverte a corrente do Decreto e devolve o Cosmo a Deus, Que tem a medida de todas as coisas e assim conhece e tem poder sobre todas as coisas.
De acordo com Ibn al-‘Arabi, o mistério do Destino é algo que somente Deus conhece propriamente, embora os homens mortais possam receber alguma visão de seu próprio destino, conhecimento esse que é dependente de uma predisposição para conhecê-lo.
Tal conhecimento produz uma perplexidade de sentimentos conflitantes: de calma e resignação total por um lado, e de ansiedade dolorosa por outro; resignação calma diante daquilo que é, em última análise, o próprio destino autodeterminado de cada um, e ansiedade diante da aparente alteridade da existência cósmica.
O nome “o amigo” (al-wali) é o único que Deus compartilha com o homem.