Fusus, RABW
O Dito Profético sobre Três Coisas
O último capítulo, nomeado em homenagem ao Profeta Muhammad, é, no essencial, um comentário extenso sobre o dito relatado do Profeta: “Três coisas me foram tornadas amadas neste vosso mundo: as mulheres, o perfume e a oração”.
Para
Ibn Arabi, esse dito serve para ilustrar o tema subjacente da triplicidade na singularidade, assunto já tocado no Capítulo 11.
A triplicidade na singularidade consiste nos dois polos fundamentais da polaridade Deus-Cosmo e no terceiro fator da relação entre os dois, estando todos os três elementos unidos na Unidade do Ser.
Os três elementos simbólicos do dito são perfeitamente adequados ao tipo de interpretação e comentário pretendido, pois cada elemento está associado a toda uma constelação de significados simbólicos, cada um dos quais ajuda a ilustrar algum aspecto ou modo da triplicidade e polaridade.
O Símbolo das Mulheres
A palavra “mulheres” representa muito bem os vários aspectos e a natureza do polo cósmico, sugerindo multiplicidade, natureza, forma, corpo, receptividade, fecundidade, devir, beleza, fascinação.
O feminino simboliza, microcosmicamente e de maneira muito sucinta, o próprio princípio da imagem cósmica projetada e multifacetada que reflete ao Sujeito divino a beleza panorâmica de Sua própria possibilidade infinita de tornar-Se, que não é outra coisa senão Seu próprio Eu essencial, o qual Ele não pode deixar de amar e desejar e no qual Ele derrama e “assopra” o Sopro de Sua Misericórdia e Espírito.
No contexto humano, o masculino, como representante do Espírito iniciador, é constantemente atraído pelo feminino microcósmico para derramar sua vida e energia em seu mundo de devir cósmico e experiência de vida natural, ameaçando sempre desviá-lo da rememoração do Espírito em cujo Nome ele age e da vicegerência que é sua função particular.
Esse envolvimento total nas demandas complexas e múltiplas da vida cósmica, simbolizado pela absorção na união sexual, só pode ser corrigido e purificado pela purificação da rememoração e reintegração no mundo do Espírito, simbolizado pela ablução maior após tal união.
Assim como o Cosmo não é outro senão Ele, originando-se nEle, também a mulher não é outra senão o homem e derivando dele, simbolizando para ele, portanto, sua própria servidão e receptividade em relação a Deus.
Um homem pode contemplar Deus mais perfeitamente na mulher, pois, nela, ele contempla ao mesmo tempo sua própria servidão e domínio e, em união com ela, pode experimentar, em modo microcósmico, aquela fusão da experiência polar que é a Realidade.
A beleza atraente da mulher, longe de ser uma armadilha para iludir o homem, deveria tornar-se para ele aquela reflexão perfeita, como beleza formal, de sua própria verdade espiritual, sendo ela aquele sinal ou pista quintessencial (ayah) a partir do qual ele poderia melhor aprender a conhecer seu próprio eu verdadeiro, o que é, por sua vez, conhecer seu Senhor.
O Símbolo do Perfume
O segundo elemento do dito é “perfume”, que representa o fator relacional na triplicidade, sendo um símbolo muito sutil e flexível que se presta à associação com qualquer um dos dois elementos polares.
O perfume, aroma ou fragrância é aquilo que ao mesmo tempo acalma e incita, entorpece e estimula, pode lembrar a delícia da mulher ou a serenidade do santuário, e pode aguçar ou embotar a consciência espiritual.
É aquele elemento não inteiramente físico nem ainda inteiramente espiritual que simboliza ao mesmo tempo tanto a corrente da Misericórdia criativa quanto a nostalgia espiritual que atrai o espírito humano de volta à sua fonte em Deus.
A palavra usada em árabe é tib, que também carrega a ideia de bondade, no sentido de que em Deus tudo é bom, seja a bondade do que a Vontade efetua (que pode parecer, do ponto de vista do Desejo, repreensível), seja a bondade espiritual do que o Desejo demanda (que pode parecer, do ponto de vista da experiência existencial, dura e dolorosa).
O Símbolo da Oração
O último elemento, que simboliza o Espírito e seu reflexo no homem, é a “oração”.
A oração busca desviar o homem do mundo das preocupações cósmicas e torná-lo o mais totalmente consciente possível d’Aquele de Quem ele provém e para Quem ele está inexoravelmente retornando.
Assim como com as mulheres, a oração tem seu próprio perfume para lembrar e consolar a alma cansada do mundo.
Interpretações Linguísticas Ousadas
Como parte de seu comentário sobre esse dito do Profeta, Ibn al-‘Arabi busca interpretar as características linguísticas do dito de sua própria maneira especial e fazer sugestões de tipo ousado.
Observa-se que a palavra para “três” está, excepcionalmente, na forma feminina, e também que o substantivo masculino “perfume” está colocado entre dois substantivos femininos, “mulheres” e “oração”, sugerindo, embora não aprofundando, a noção de uma certa predominância feminina e natureza que tudo contém.
Muitas das palavras em árabe que denotam causa, origem e essência são substantivos femininos.
Essa sugestão atípica é provavelmente outra maneira de expressar a ideia de que a Misericórdia criativa sobrepuja e abraça a Misericórdia obrigadora da reintegração, e de que a função positiva e essencial da experiência cósmica sobrepuja sua natureza negativa e efêmera.
A Misericórdia criativa, cuja palavra em árabe é feminina e tem estreita associação com a palavra para “ventre”, em sua completa preocupação com o devir cósmico e a atualização da possibilidade infinita, pode ser pensada como feminina da mesma maneira que a noção hindu de maya, o poder criador do mundo, é pensada como feminina.
O objeto do conhecimento, seja cósmico ou essencial, pode ser pensado como feminino, assim como o sujeito ou conhecedor, seja criativo ou auto-reafirmador, pode ser pensado como masculino.
Os seres são conhecidos como um aspecto “feminino” da Realidade, seja exterior ou interior, e se conhece como um aspecto “masculino” da Realidade, seja exteriormente ou interiormente.