TB-IDEI
O estudo do sufismo é abordado com o critério de contribuir para a compreensão das verdades permanentes e universais expressas pelas doutrinas sagradas, e não com o de mera erudição científica.
O interesse científico dos resumos doutrinais presentes no estudo é reconhecido, mas ocupa posição secundária diante do objetivo de alcançar verdades permanentes e universais.
Cada doutrina sagrada é apresentada como um modo de expressão dessas verdades universais.
O trabalho se dirige àqueles que, no mundo moderno, buscam compreender tais verdades.
A ciência acadêmica representa apenas um auxílio secundário e indireto para assimilar o conteúdo intelectual das doutrinas orientais, pois seu método aborda as coisas pelo exterior, em seu aspecto histórico e contingente.
Há doutrinas que só se compreendem “por dentro”, mediante um trabalho de assimilação ou penetração de natureza essencialmente intelectual que vai além do pensamento discursivo.
O pensamento discursivo torna-se obstáculo na medida em que está impregnado de convenções mentais, além dos preconceitos agnósticos e evolucionistas que condicionam o espírito da maioria dos ocidentais.
Quase todos os eruditos europeus que estudaram o sufismo se equivocam quanto à sua verdadeira posição, pois o homem de cultura moderna não está mais habituado a pensar de forma simbólica.
As pesquisas modernas não conseguem distinguir, em duas expressões tradicionais análogas, o que corresponde à forma exterior e o que constitui seu elemento essencial.
Os eruditos tendem a ver imitações de uma forma tradicional por outra, quando há apenas uma coincidência de perspectivas espirituais, e enxergam divergências fundamentais onde existe apenas diferença de perspectivas ou modalidades de expressão.
Tais confusões são inevitáveis, pois a formação universitária e o saber livresco autorizam, no Ocidente, a tratar de questões que no Oriente permanecem reservadas aos dotados de intuição espiritual, que as estudam por afinidade real e sob a orientação dos herdeiros de uma tradição viva.
O estudo expõe a perspectiva intelectual do sufismo adotando seu modo próprio de expressão, com as precisões necessárias ao leitor europeu, e indica analogias entre noções sufis e as de outras doutrinas tradicionais.
Tal procedimento comparativo não contradiz o ponto de vista inerente ao sufismo, que sempre reconheceu que a Revelação divina, transmitida pelos grandes mediadores, reveste formas diversas segundo as aptidões das coletividades humanas destinadas a recebê-la.
As comparações entre diferentes simbolismos tradicionais correm o risco de ser mal compreendidas; por isso, os mestres sufis limitaram-se, na maioria das vezes, a indicar apenas o princípio da universalidade tradicional, sem explicitar todas as suas consequências em relação a outras religiões.
A prudência diante da fé religiosa de uma coletividade — que é virtualmente um conhecimento, embora sua luz esteja dissimulada na esfera emotiva — impõe-se sobretudo quando a civilização sagrada que protege essa coletividade constitui um mundo quase impenetrável.
Tal situação pode mudar no momento de um encontro inevitável entre duas civilizações sagradas diferentes, como o do Islã com o Hinduísmo sob os imperadores Mongóis, e muda a fortiori quando os limites das grandes civilizações tradicionais se desmoronam.
No caos do mundo contemporâneo, certas comparações tornam-se imperiosas, ao menos para os sensíveis às formas espirituais, e os problemas daí decorrentes não podem mais ser silenciados.
O reconhecimento, por parte dos esoteristas, da unidade essencial de todas as formas tradicionais não os leva a confundir seus limites nem a desconhecer a necessidade, em seu âmbito próprio, de uma ou outra lei sagrada — pelo contrário.
A diversidade das formas tradicionais reflete a insuficiência de qualquer expressão formal diante da Verdade total e indica, indiretamente, a originalidade espiritual de cada forma — o que cada uma contém de inimitável.
Nessa originalidade confirma-se a unicidade do princípio comum a todas as formas: o cubo de uma roda, que une seus raios, é ao mesmo tempo o que fixa as direções divergentes.
A introdução à doutrina do sufismo apresentada no estudo é necessariamente incompleta, ocupando-se principalmente da metafísica — base de tudo —, tratando em linhas gerais do método e mencionando de passagem a cosmologia.
Em relação a alguns aspectos da doutrina resumida, recorre-se em particular à obra do “Maior Mestre” Muhyi-l-Din
Ibn Arabi, cujo papel no sufismo é comparável ao de Shri Shankaracharya no Vedantismo.
Em comparação com a primeira versão do estudo, publicada em 1953, o texto foi completado em muitos aspectos, com acréscimo de considerações sobre a realização espiritual.
O sufismo, enquanto tradição — transmissão de uma Sabedoria de origem divina —, é simultaneamente perpetuação no tempo e renovação incessante no contato com sua fonte intemporal.
Cada doutrina tradicional é, por definição, imutável em sua essência, mas sua formulação pode renovar-se dentro do quadro do “estilo conceitual” dado em função dos diversos modos possíveis da intuição e segundo as circunstâncias humanas.
Essa renovação se dá sobre a base das constantes da tradição, e não por ruptura com elas.
Prefácio
I. Da Natureza do Sufismo
At-taçawwuf
Sufismo e Misticismo
Sufismo e Panteísmo
Conhecimento e Amor
Os ramos da doutrina
Exegese sufi do Corão
Basmalah
II. Fundamentos doutrinais
III. Da Realização espiritual