EPISTEMOLOGIA

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9. CONHECIMENTO E O CONHECEDOR

A busca pelo conhecimento ocupa posição central no Islã, sendo incumbência de todo muçulmano segundo o Profeta, e o próprio Deus ordena ao Profeta que peça aumento de conhecimento.

Conhecimento e Conhecimento

Ibn al-Arabi se aproxima de Deus principalmente pelo caminho do conhecimento, ao contrário de muitos sufis que priorizam o amor, seguindo assim a maioria das autoridades muçulmanas.

O conhecimento é um atributo divino de abrangência total, sendo a mais excelente dádiva de Deus, e sua sede, para Ibn al-Arabi como para outras autoridades muçulmanas, é o coração.

Ibn al-Arabi emprega dois termos para conhecimento — ilm e marifa — e embora os distinga em certas passagens, na maior parte não o faz.

A Utilidade do Conhecimento

O conhecimento inútil é aquele desvinculado de sua fonte e origem, isto é, da Realidade Divina, e qualquer conhecimento fora do tawhid afasta de Deus em vez de aproximar.

O conhecimento útil conduz a pessoa de volta a Deus enquanto o Misericordioso e o Beneficente, não enquanto o Irado e o Vingativo, e leva à bem-aventurança em vez da miséria.

O conhecimento que leva a Deus não é teórico, mas conjugado à prática ou às boas obras, sendo esta relação tão intrínseca que Ibn al-Arabi raramente a reitera para seus leitores.

Limites do Conhecimento

Todo conhecimento é conhecimento de Deus, mas Deus em Si mesmo, em Sua própria Essência, não pode ser conhecido — Ele revela Seus nomes e as entidades que são propriedades de Seus atributos, mas nunca Se revela como Essência.

A infinitude do conhecimento é tema frequente em Ibn al-Arabi, que a ilustra com a hierarquia sufi de “degustação”, “bebida” e “saciedade”, rejeitando firmemente a possibilidade de saciedade.

A potencial infinitude dos objetos do conhecimento humano remonta ao fato de que as criaturas já foram “ensinadas” por Deus, de modo que o que se chama de conhecer é na verdade uma recordação ou reminiscência.

Como o conhecimento da Essência enquanto Essência é impossível, diante da Essência é preciso declarar a incomparabilidade de Deus, mesmo que Sua semelhança seja declarada em relação a Sua autorrevelação.

A Infinitude do Conhecimento

A Essência de Deus nunca pode ser conhecida enquanto tal, mas tudo que pode ser conhecido — a autorrevelação da Essência por meio dos nomes divinos e do cosmos — é potencialmente infinito.

Certos sufis exaltavam os benefícios da renúncia ao mundo, mas Ibn al-Arabi a considera útil apenas nas etapas iniciais do caminho, e não uma marca de perfeição.

10. ADQUIRINDO O CONHECIMENTO

O conhecimento pode ser adquirido pela reflexão, pela revelação ou pela escritura, e a realidade sutil humana conhece em modos variados — quando conhece pela reflexão, o modo de conhecer é chamado “razão”; quando conhece diretamente de Deus, é chamado “coração”.

A Faculdade Racional

A razão é um dos poderes fundamentais da alma humana e, sob certo ponto de vista, define o estado humano, distinguindo o ser humano de todos os outros animais.

Por natureza a razão percebe, seja por conhecimento intrínseco e intuitivo, seja por instrumentos como os cinco sentidos e a “consideração reflexiva”.

A razão possui um segundo significado: opõe-se à “paixão”, isto é, a qualquer desejo cujo objeto não é sancionado pela Lei, e cabe a ela conduzir o ser humano pelo caminho da bem-aventurança.

Reflexão

A reflexão é um dos seis instrumentos pelos quais a faculdade racional adquire conhecimento, sendo os outros cinco os sentidos — se empregada corretamente, auxilia na aquisição do conhecimento de Deus e conduz à felicidade; se mal empregada, pode ser o maior obstáculo.

A função fundamental da reflexão é levar o ser humano à compreensão de que não pode alcançar o conhecimento de Deus por seus próprios recursos.

Consideração

O termo árabe nazar — traduzido como “consideração” — significa olhar, contemplar, inspecionar, investigar, e denota o processo de investigação e raciocínio pelo qual os teólogos e filósofos chegam a conclusões.

Seguindo a Autoridade

Em qualquer conhecimento que adquire, a razão segue a autoridade, de modo que o caminho mais sábio é seguir a autoridade de Deus — o seguimento de autoridade é inevitável, e a questão se resume a o que ou quem se escolhe seguir.

Os sufis seguem a autoridade de Deus e ao mesmo tempo transcendem o mero seguimento de autoridade ao “verificar” o conhecimento recebido pela Lei revelada, de modo que o tahqiq completa e aperfeiçoa o taqlid.

Desvelamento

Em muitas passagens Ibn al-Arabi explica a diferença entre dois tipos básicos de conhecimento: o adquirível pela faculdade racional e a “gnose” que só pode vir pela prática espiritual e pela autorrevelação divina — denominada desvelamento, degustação, abertura, insight e testemunho.

11. A BALANÇA DA LEI

Ibn al-Arabi oferece uma única solução básica para todas as questões e confusões, condensada no Corão: “Obedecei a Deus e obedecei ao Mensageiro” — Deus e o Mensageiro estabeleceram a Balança da Lei, norma que se aplica a toda situação humana e coloca cada coisa em seu lugar adequado.

A Lei Revelada

O benefício da Lei é que ela fornece conhecimento inacessível à razão sem a ajuda de Deus — conhecimento que constitui o único meio de alcançar a felicidade última — de modo que os seres humanos não podem alcançar a misericórdia salvífica de Deus sem a Lei.

A Balança

O termo “Balança” deriva de uma raiz que significa “pesar”, e o Corão o utiliza em dezesseis versículos, descrevendo entre outros a Balança que será erguida no Dia do Juízo para pesar as obras dos servos.

Sabedoria e Cortesia

A justiça, alcançada pela Balança, está intimamente aliada à “sabedoria” — justiça é pôr cada coisa em seu lugar adequado, e sabedoria é agir como convém em cada situação.

A Balança da Razão

Há muito que a razão não consegue conhecer por si só sem a orientação da Lei — Ibn al-Arabi critica constantemente os pensadores racionais pelas fontes erradas que empregam e pelo fato de não fazerem uso pleno da Lei.

Afirmando a Semelhança

As raízes da semelhança de Deus remontam ao Barzakh — o istmo — dentro do qual Deus Se manifesta nos atributos das criaturas, sendo o Cloud o estado em que Deus Se encontrava antes de criar as criaturas.

Ibn al-Arabi divide as pessoas em vários grupos segundo sua reação aos relatos da Lei revelada sobre os atributos de semelhança de Deus — situação que ocorre em todas as religiões.