HERMENÊUTICA

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12. FÉ E INTERPRETAÇÃO RACIONAL

A fé é definida como uma luz divina lançada no coração, não como resultado de provas racionais, e constitui um conhecimento evidente por si mesmo que exige a aceitação incondicional das mensagens proféticas, diferenciando-se do conhecimento adquirido por demonstrações lógicas.

Interpretação

Interpretação (ta’wil) é vista como uma operação mental que submete a revelação ao julgamento da razão, enfraquecendo a fé e resultando em múltiplos deuses fabricados pela razão, em contraste com a submissão dos fiéis que possuem fé e insight.

Os Pensadores Racionais

Os pensadores racionais, incluindo filósofos, mu’tazilitas e asha’ritas, são criticados principalmente por sua dependência da reflexão, que mina tudo o que dizem, pois o julgamento da reflexão nunca é preservado do erro e os erros no conhecimento das coisas divinas são mais frequentes do que os acertos.

Atos de Deus e Atos do Homem

Os atos pertencem tanto a Deus quanto ao servo, dependendo da perspectiva, pois o servo é criado à forma divina e adquire os traços dos nomes de Deus, tornando seus atos seus e de Deus simultaneamente, numa relação que é uma versão do princípio “Ele/não Ele”.

13. CONHECENDO A AUTOMANIFESTAÇÃO DE DEUS

A automanifestação divina (tajalli) é tanto ontológica quanto epistemológica, manifestando-se como existência e como conhecimento, e os verdadeiros conhecedores (muhaqqiqun) são o Povo do Desvelamento e da Experiência Direta (ahl al-kashf wa’l-wujud), pois encontraram Deus tanto no cosmos quanto em si mesmos.

As Luzes da Automanifestação

As automanifestações são luzes que se manifestam em formas sempre novas e nunca se repetem, e a Essência de Deus nunca é manifestada, apenas o que não é a Essência, de modo que o véu está perpetuamente abaixado e o ser humano percebe apenas o véu, não o que está velado.

Nomeando a Percepção da Luz

O desvelamento (kashf) é o termo mais geral para a percepção da automanifestação divina, e quando essa percepção é considerada primariamente em relação à fonte, chama-se automanifestação, e quando é considerada primariamente em relação ao percebedor, chama-se desvelamento, ocorrendo normalmente sob uma forma visionária dentro do mundo imaginal.

Testemunho e Visão

O testemunho (shuhud, mushahada) é sinônimo de desvelamento e refere-se à visão da automanifestação, podendo ser dividido em testemunhar a criação no Real, testemunhar o Real na criação, e testemunhar o Real sem a criação, que é a realidade da certeza (yaqin) sem qualquer dúvida.

Percebendo o Véu

A automanifestação nunca se repete (la yatakarrar al-tajalli) e a água assume a cor do seu recipiente, princípio que explica toda a diversidade e multiplicidade, incluindo as diferenças entre religiões e crenças, e que faz com que o gnóstico nunca veja Deus diretamente, mas apenas o véu, que é a própria forma da automanifestação.

14. COMPREENDENDO O ALCORÃO

O conhecimento adquirido pelo desvelamento é superior ao conhecimento adquirido pelo esforço intelectual e pela investigação racional, pois a razão é limitada em sua capacidade de perceber a automanifestação de Deus em todas as coisas, negando a semelhança e interpretando os relatos revelados que se referem a ela.

Razão versus Desvelamento

A pessoa “iletrada” (ummi) é aquela que não emprega sua consideração reflexiva nem seu julgamento racional para extrair os significados e mistérios que o Alcorão contém, e quando o coração está seguro da consideração reflexiva, torna-se receptivo à abertura divina da maneira mais perfeita e sem demora, sendo provido de conhecimento dado por Deus (ladunni).

O Caráter de Muhammad

O Profeta Muhammad é o maior locus de automanifestação divina e o ser humano mais perfeito, possuindo um caráter que é o próprio Alcorão, pois reúne em si todos os traços de caráter nobre, assim como o Alcorão revelado reúne todo o conhecimento, e sua lei compreende todas as religiões reveladas.

O Contexto do Alcorão

O Alcorão é a Fala de Deus, e o conhecimento de Deus abrange todas as coisas, portanto Deus conhece e intenciona todos os sentidos possíveis que podem ser entendidos do texto, de modo que todo sentido suportado por qualquer versículo na Fala de Deus é intencionado por Deus no caso daquele intérprete (muta’awwil).

Conhecimento do Hadith

A autenticidade dos ditos proféticos (hadith) pode ser testada através do desvelamento (kashf), e os amigos de Deus que são “profetas entre os amigos” testemunham o anjo Gabriel lançando o hadith sobre a realidade de Muhammad, permitindo-lhes distinguir hadiths forjados daqueles que são genuínos, mesmo quando as cadeias de transmissão são consideradas sólidas.