DUPLA ESCADA

Chodkiewicz, MCSS

A HAGIOLOGIA AKBARIANA

A hagiologia akbariana organiza-se em torno de três noções fundamentais: wiratha, niyaba, qurba — a herança de uma ciência espiritual, a substituição do wali num papel que em última análise pertence apenas à Realidade muhammadiana, e a proximidade que define a natureza da santidade.

COMO SE TORNAR UM SANTO?

A santidade inscreve-se necessariamente numa economia espiritual que rege suas formas e distribui suas funções, mas é antes de tudo o fruto de uma busca pessoal e sempre sem precedente: “A cada um de vós Nós assinalamos um caminho e uma via” (Cor. 5:48).

O TEXTO DA EPÍSTOLA

O ser a quem a Epístola das Luzes se dirige não é um noviço: o destinatário desconhecido da Risalat al-anwar já chegou, por meio das disciplinas apropriadas, ao ponto central de onde começará a ascensão.

A TRAVESSIA DAS ESFERAS

O percurso pelos quatro “reinos” do universo sublunário — mineral, vegetal, animal, humano — corresponde à primeira etapa da ascensão propriamente dita, que conduz ao “céu deste baixo mundo”, e à fase inicial de despojamento progressivo: o viajante deixou para trás os quatro elementos.

No primeiro céu — o do mundo sublunário — Ibn Arabi, despojado de sua natureza corporal, encontra Adão e recebe dele a ciência que identifica como pertencente à “herança” adâmica: a Misericórdia universal (al-rahma al-amma) excluindo a eternidade dos castigos infernais.

O segundo céu, o de Mercúrio (Al-katib), é a “morada da eloquência” de onde procede a inspiração dos oradores; é também o céu de Jesus e de João (Yahya), associados porque onde está o espírito está a vida.

O terceiro céu — o de Vênus (Zuhra) — é “o mundo da Formação, da ornamentação e da beleza”, de onde a inspiração vem aos poetas; seu profeta residente é Yusuf (José), representante da perfeição da forma humana.

O quarto céu é o do Sol e de Idris, o Polo universal, que ocupa a posição central (“o coração”) na hierarquia das esferas planetárias.

O quinto céu — o de Marte (Al-ahmar) — é o da terreur, do temor, da aflição e de todas as manifestações do Rigor divino; seu profeta é Aarão (Harun).

O sexto céu é o de Júpiter (Al-birjis ou Al-mushtari), onde reside Moisés, “o mundo do Amor ciumento e da percepção do Verdadeiro sob suas formas mais perfeitas”.

O sétimo céu é o de Saturno (Kaywan, Zuhal), “o mundo da gravidade, da serenidade, da estabilidade e do ardil divino”; seu profeta é Abraão, encontrado adossado ao Bayt al-mamur — a “Casa visitada”, protótipo celeste da Kaaba.

O TERMO DA ASCENSÃO

Após o Lótus do limite (sidrat al-muntaha, Cor. 53:14) — ponto de parada para Jibril, o anjo da Revelação, no miraj do Profeta —, o viajante atravessa a esfera das estrelas fixas, o “céu sem estrelas”, o Tabourete (al-kursi) e o Trono (al-arsh), e sobe pelos graus do “Mundo do Mandamento” (alam al-amr): a “substância universal”, a Natureza, a Tábua guardada ou Alma universal, e finalmente o Cálamo — identificado ao Intelecto primeiro e à Realidade muhammadiana ou ao Homem Perfeito.

O RETORNO

O wali que soube resistir à tentação de parar em cada etapa — “todos os caminhos são circulares” — chegou à “estação da Proximidade” (maqam al-qurba), à santidade plena que Jesus selará no fim dos tempos.

OS HERDEIROS DE MAOMÉ

O que distingue o malami do sufi é sua recusa de dispensar-se das causas segundas, de rasgar o véu sob o qual Deus oculta o mistério de Sua presença: porque ele preserva o incógnito de Deus, Deus preserva o seu.