PREFÁCIO

Chodkiewicz, MCSS

Ibn Arabi e o Orientalismo

A obra de Ibn Arabi ingressou discretamente no campo do orientalismo em 1845, quando Gustav Flügel, discípulo de Silvestre de Sacy, publicou em Leipzig um breve tratado em anexo aos Ta'rifat de Jurjani, redigido em Malatiya em 615/1218.

A recepção de Ibn Arabi entre os islamólogos foi inicialmente das mais reservadas, oscilando entre hostilidade, condescendência e interpretações redutoras.

Biografia e Obra de Ibn Arabi

A conjugação, na pessoa de Ibn Arabi, de santidade e gênio, bem como a fusão em sua obra das ciências e formas literárias mais diversas, tornam difícil apreender sua natureza e estatura.

Muhyi l-din Abu Abdallah Muhammad b. Ali b. Muhammad b. al-Arabi al-Hatimi al-Ta'i nasceu em Múrcia no dia 27 de Ramadan de 560 (7 de agosto de 1165), num período de intensas transformações políticas no mundo islâmico e além.

Ibn Arabi passou sua juventude em Sevilha, onde sua família se estabeleceu em 568/1172, e desde os dezesseis anos aproximadamente iniciou sua trajetória espiritual, frequentando os mestres andaluzes.

A partir de 590/1193, as peregrinações de Ibn Arabi se estenderam ao Magrebe e ao Oriente, numa errância perpétua que durou até os sessenta anos de idade.

O Culto dos Santos e a Questão da Ortodoxia

No capítulo IV das Futuhat Makkiyya, Ibn Arabi evoca, dirigindo-se a seu mestre e amigo tunisino Abd al-Aziz Mahdawi, a quem a obra é dedicada, o caráter mais ou menos favorável à contemplação dos lugares de residência.

O espaço terrestre não é neutro: a passagem de um santo ou sua permanência póstuma nele determina uma espécie de campo de forças benéficas — e Ibn Arabi fornece fundamento e caução a uma das formas mais visíveis do culto dos santos.

O culto dos santos não nasceu no século XIII: dirigiu-se primeiramente, e muito cedo, aos membros da família profética (ahl al-bayt) e aos Companheiros (sahaba).

A época de Ibn Arabi deve ser considerada o início de uma era nova, em que aparecem as formulações teóricas e as instituições que orientarão todos os desenvolvimentos ulteriores da mística islâmica.

A crítica de Ibn Taymiyya não se limita a um inventário das “inovações”: ela busca explicá-las para melhor extirpá-las, vendo nessas devoções pura e simplesmente politeísmo (shirk) de origem exógena.

Não se trata de negar os contrastes entre a piedade razoável e legalista dos fuqaha citadinos e a piedade turbulenta dos montanheses analfabetos, mas é igualmente importante ser sensível às continuidades.

Soufismo e santidade são inseparáveis: sem os santos não há sufismo, que nasce e se nutre da santidade deles e tem por função reproduzi-la.

O que é novo é que o sufismo se torna, de maneira aberta, um polo de integração comunitária — daí o aparecimento progressivo das turuq como organizações de massa, a afirmação mais clara da função mediadora dos santos e a passagem de práticas pessoais e livres a práticas coletivas e formalizadas.

Desde as pesquisas de Goldziher, há cem anos, os materiais se acumularam — mas as monografias existentes deixam subsistir muitas lacunas e são frequentemente prisioneiras de ideias preconcebidas que distorcem a interpretação dos fatos.