CENTRALIDADE DA EXISTÊNCIA

Dagli, Caner K. Ibn al-ʻArabi and Islamic intellectual culture: from mysticism to philosophy. London New York (N.Y.): Routledge, 2016.

Qaysari e a Centralidade da Existência

Dawud b. Mahmud b. Muhammad al-Rumi al-Qaysari nasceu aproximadamente no ano 1260 d.C. na cidade de Kayseri, na Anatólia central, sendo pouco o que se sabe sobre sua vida precoce.

Em 1336, o sultão Orkhan Ghazi nomeou Qaysari para chefiar o primeiro sistema escolar otomano, cargo que exerceu até sua morte em 1350, ensinando as ciências islâmicas tradicionais ao mesmo tempo em que compunha alguns dos mais profundos e importantes tratados da escola akbariana.

A influência de Qaysari se difundiu pela Anatólia e além, com grande impacto sobre a tradição intelectual do Império Otomano.

As Prolegômenas (al-Muqaddimat) constituem a primeira parte do Matla' khusus al-kalim de Qaysari e, embora se apresentem como meras observações introdutórias a um comentário sobre outra obra, são em si mesmas uma obra-prima da metafísica sufi.

As Prolegômenas iniciam-se com uma longa e detalhada discussão sobre a existência (wujud), analisada metodicamente, utilizando wujud como conceito-eixo de maneira não encontrada nos autores anteriores — wujud ocupa o centro desde o início e assim permanece, não apenas até o fim das Prolegômenas, mas ao longo de todo o comentário de Qaysari sobre os Fusus e em suas demais obras.

Toda a metafísica de Qaysari, embora formulada na linguagem de wujud, está explícita e declaradamente dentro da tradição do tasawwuf que toma como autoridade última a revelação islâmica.

A escolha de wujud como conceito central por Qaysari se apoia na autoevidentidade e imediatidade da existência.

A adoção de wujud por Qaysari como fio condutor de sua metafísica reflete o lugar desse conceito na paisagem intelectual mais ampla e seu status acordado como o termo metafísico árabe central correspondente a “ser/existência”.

A elevação de wujud por Qaysari é evidente também no modo como ele emprega outros termos metafísicos, como a luz.

Qaysari não apenas promove a existência a um lugar de centralidade e ubiquidade em sua exposição, mas adota modos de expor a metafísica em que outros dispositivos conceituais efetivamente deslocam a terminologia akbariana tradicional.

Qaysari incorpora vários Nomes Divinos ao dispositivo conceptual do “condicionamento” e os conecta explicitamente à terminologia da falsafah, explicando-os com a terminologia do tasawwuf.

Substância e Acidente

Qaysari divide as identidades (a'yan) — tratadas como quiddidades — em substância (jawhar) e acidente ('arad), partindo da noção comum de substância e ampliando-a à luz da metafísica akbariana dos Nomes Divinos.

Necessidade, Contingência, Impossibilidade

Os akbarianos empregam as ideias de contingência e necessidade para falar sobre Deus e o mundo, mas sua visão metafísica da existência os obriga a chegar a conclusões diferentes sobre essas categorias.

Qaysari aprofunda a discussão da contingência em relação à natureza das essências/quiddidades.

A impossibilidade — aquilo que necessariamente não existe — também recebe uma reimaginação similar.

Fundamentalidade e Equivocidade

Qaysari discute, na relação entre “essência” e “existência”, o que filósofos posteriores chamariam de asalah, ou fundamentalidade — embora sem usar essa palavra.

A afirmação de que “as distinções se baseiam nela mesma” é importante para o conceito de tashkik (equivocidade), ao qual Qaysari dedica atenção.

No nível da Unidade (ahadiyyah) — o nível de não-entificação — questões de predicação não se colocam, porque se afirma por definição a total não-dualidade; no nível da unicidade (wahidiyyah), ou primeira entificação, distinções aparecem entre Deus e o mundo e também entre as várias qualidades de Deus.