Dagli, Caner K. Ibn al-ʻArabi and Islamic intellectual culture: from mysticism to philosophy. London New York (N.Y.): Routledge, 2016.
A análise da metafísica islâmica requer a distinção entre tasawwuf, falsafah e kalam em múltiplas dimensões: doutrina, modo de investigação, objetivo, autoridade e terminologia.
Em tasawwuf, a faculdade humana que transcende a razão ordinária (coração, espírito, mistério) requer purificação da alma e graça divina; em falsafah, a razão é o ápice das faculdades cognitivas; em kalam, a razão serve apenas para defender as verdades reveladas.
Os objetivos do tasawwuf são a purificação da alma, o cultivo das virtudes e a transformação da consciência; os da falsafah são estabelecer os primeiros princípios do conhecimento pela razão; os do kalam são fornecer uma articulação e defesa da crença islâmica para a coletividade.
Em tasawwuf, a autoridade última vem do desvelamento (kashf) e da cadeia de transmissão espiritual (silsilah); em falsafah, a autoridade é a própria razão e figuras como al-Farabi e Ibn Sina; em kalam, a autoridade são o Alcorão, a Suna e (no xiismo) os Imames.
Três possibilidades relacionam terminologia e visão metafísica: visões opostas expressas em termos diferentes, visões semelhantes expressas em termos diferentes e visões opostas expressas nos mesmos termos — como ocorreu quando o kalam adotou o vocabulário de
Avicena baseado em wujud, mahiyyah, wujub e imkan.
A tradução de termos como wujud por “ser” ou “existência” é problemática porque as histórias e os campos semânticos desses termos nas tradições ocidental e islâmica são diferentes, exigindo constante explicação das falhas de correspondência.
Misticismo, filosofia e teologia como categorias analíticas
O uso ocidental de termos como “misticismo”, “filosofia” e “teologia” para descrever fenômenos islâmicos introduz confusões que podem ser superadas por meio de especificação e precisão.
“Misticismo” não é sinônimo de tasawwuf, e este último não é o único nome na tradição islâmica para designar essa comunidade, que também se chama ‘urafa’, muhaqqiqun, ahl al-haqq, e em alguns contextos ‘irfan.
A oposição entre místico e filosófico é frequentemente assumida de forma acrítica, como quando Dimitri Gutas afirma que a obra de
Avicena é autoconsistente e unificada e, portanto, livre de qualquer aspecto místico ou esotérico.
Fazlur Rahman lamentou que estudiosos enfatizem o lado sufi e esotérico da literatura pós-Ghazali em detrimento de seu “núcleo duro puramente intelectual e filosófico”, sem definir claramente o que entende por “filosófico”.
A diferença doutrinária fundamental entre místico e não místico é o reconhecimento de um modo de realidade inexplicável pela demonstração racional, juntamente com a crença em uma faculdade humana (além da razão discursiva) capaz de aceder a essa realidade.
Na prática, o que se chama de misticismo islâmico inclui o dhikr (invocação metódica dos Nomes divinos), o sama‘ (audição espiritual), o isolamento em retiro (khalwah) e a intensificação de práticas como a oração noturna (qiyam al-layl), sempre sob a guia de um mestre espiritual.
Sobre a noção de influência e os problemas de tradução
O estudo da história intelectual deve evitar identificações simplistas de “influência” entre pensadores, distinguindo entre empréstimo de frases, adoção de problemas, uso de terminologia comum e persuasão doutrinária completa.
Ideias ou terminologias semelhantes nem sempre implicam filiação, pois dois pensadores podem chegar à mesma intuição independentemente, com base em experiências e preparações diferentes.
As palavras “místico”, “filosófico” e “teológico” são inevitavelmente ambíguas, mas a ambiguidade pode ser superada especificando se se está falando de um conjunto de ideias, uma comunidade de pessoas, um modo de atividade, um objetivo ou um estilo discursivo.
Termos como falsafah, hikmah, kalam, ‘aqidah, ‘ilm al-tawhid e usul al-din não são intercambiáveis com seus supostos equivalentes ocidentais (“filosofia”, “teologia”), e sua tradução exige constante consciência das diferenças históricas e semânticas.