DESVELAMENTO DOS EFEITOS DA VIAGEM (3)

Ibn Arabi, tr. Denis Gril

§ 61 — A viagem do devotamento pelos seus

O devotamento pelos seus constitui um dos caminhos de proximidade divina, pois foi por meio do cuidado com os seus que Moisés encontrou o fogo — e com ele a guia —, sem afirmar com certeza que o que via era necessariamente um fogo, o que revela a força da profecia.

§ 62

Uma mesma coisa pode comportar aspectos diferentes — a coisa vista não é idêntica à coisa sabida, e a coisa sabida não é idêntica à coisa ouvida, ainda que o meio da percepção seja uma realidade única em si mesma e distinta em suas relações.

§ 63

Todo o bem reside no devotamento pelo outro, e a nobreza de uma família depende daquele a quem ela se liga; os “Gente do Alcorão” são os Gente de Deus e Sua elite — e o mínimo para pertencer a essa família é carregar as letras do Alcorão conservadas no peito.

§ 64 — A viagem do temor

O temor faz parte da estação da fé — “Não tenhais medo deles, mas tende medo de Mim, se sois crentes” (Alcorão 3:175) —, e a todo plano de existência corresponde um temor específico; todo temor só se liga ao que vem de Deus e pertence à existência contingente.

§ 65

O temor dos anjos é o de descer de um grau a um grau inferior — e o exemplo de Iblis, que contava entre os mais fervorosos adoradores de Deus e obteve apenas banimento e afastamento da felicidade, mostra que os homens de Deus têm medo da substituição de seu estado por outro.

§ 66

Quando Deus estabeleceu Ibn Arabi na estação do temor, ele tinha medo de olhar sua própria sombra, com receio de que ela fosse um véu entre ele e Deus; nesse estado, o mundo não pode ser uma morada segura, mesmo que o homem receba nele o anúncio de sua felicidade futura.

§ 67

A palavra árabe khafa' pode expressar tanto a ocultação quanto a manifestação — como no verso do pré-islâmico Imru l-Qays: “fez com que se mostrassem e saíssem de seus buracos” —, e a duplicidade do hipócrita (munafiq) se explica pela imagem da gerboise que tem dois acessos à sua toca: a nâfiqa'.

§ 68 — A viagem da desconfiança

A desconfiança é o resultado de um temor, e Deus mesmo ordena: “Mostrai vossa desconfiança!” (Alcorão 4:71), pois quem se desconfia de uma coisa não é surpreendido por ela — e o homem é surpreendido com mais frequência do lado onde pensava estar seguro.

§ 69

A desconfiança mais extrema é desconfiar de tomar a própria desconfiança como apoio; por misericórdia, Deus engajou os servos a se desconfiarem d'Ele — o que é o mais alto grau da desconfiança — dizendo: “E Deus vos engaja a vos desconfiares d'Ele e Deus é compassivo para os servos” (Alcorão 3:30).

§ 70

A viagem da desconfiança conduz do sensível ao inteligível, dos prazeres ao suplício, do véu protetor à teofania e da morte à vida; ela produz a proximidade divina acrescida da felicidade eterna, e quem a realiza recebe o dom miraculoso de caminhar sobre as águas, escapar dos inimigos e ver seu aniquilamento.