DA SABEDORIA DO AMOR LOUCO NO VERBO DE ABRAÃO

IASP

Abraão é chamado (no Alcorão) de “Amigo íntimo” (de Deus: khalil Allah) porque ele “penetrou” e assimilou as Qualidades da Essência divina, assim como a cor penetra em um objeto colorido, de modo que o acidente se funde com sua substância, e não como algo estendido que preenche um determinado espaço; ou ainda, seu nome significa que Deus (al-haqq) penetrou essencialmente na forma de Abraão. Cada uma dessas duas afirmações está correta, porque cada uma delas se refere a um determinado aspecto (do estado em questão), sem que esses dois aspectos sejam cumulativos.


VERBO DE ABRAÃO

Abraão é chamado no Corão de “Amigo íntimo” de Deus (khalil Allah) porque penetrou e assimilou as Qualidades da Essência divina, à semelhança da cor que penetra um objeto colorido, de modo que o acidente se confunde com sua substância — ou, inversamente, Deus penetrou essencialmente a forma de Abraão.

Quando uma coisa penetra outra, a primeira é contida pela segunda — o penetrante se oculta no penetrado, de modo que este último é o aparente e o primeiro o interior, o latente.

Se a Essência estivesse isenta dessas relações universais — que são os Nomes e as Qualidades divinas —, não seria divindade, não seria Criador; essas relações se atualizam em virtude das próprias determinações das criaturas, de modo que estas tornam a Divindade tal por sua dependência em relação a ela.

De uma como de outra dessas duas intuições decorre que Deus não nos julga senão por nós mesmos — ou mais exatamente, somos nós mesmos que nos julgamos, mas n'Ele.

O querer divino é uno em suas relações com seus objetos — como relação essencial, depende do conhecimento; e o conhecimento depende de seu objeto; e esse objeto é o ser criado e seus estados.

Tendo Abraão atingido esse grau de conhecimento em razão do qual foi chamado “Amigo íntimo” de Deus, fez da hospitalidade um costume sagrado — Ibn Masarra, sufi andaluz que ensinou a cosmologia, o associa em sua função cosmológica ao arcanjo Miguel, anjo que provê ao alimento físico e espiritual dos seres.