RETORNO

Valsan

Fûtuhât, Capítulo 45: Sobre aquele que “retorna” às criaturas após ter “chegado” à Verdade Suprema, e sobre Aquele que o faz retornar

A realização descendante designa o retorno do ser que alcançou a União suprema ao mundo manifestado, e esse retorno se opera sem que o ser desça do grau espiritual conquistado.

A terminologia empregada pelo Cheikh el-Akbar difere da de Guénon, mas não há divergência de fundo entre os dois exposés, pois ambos excluem a ideia de regressão espiritual.

Guénon considerou como casos de realização descendante, nos termos da tradição islâmica, apenas o nebî e o rasûl, deixando expressamente de lado o caso do walî, mas o Cheikh el-Akbar trata precisamente desse caso por ser o único restante após o Selo da Profecia.

O texto do Cheikh el-Akbar apresenta interesse adicional como enumeração das diferentes categorias de Wâçilûn — “Chegantes a Allah” — e dos atributos espirituais que os qualificam.

Fûtuhât, Capítulo 45 — Texto traduzido do árabe por M. Valsan

A existência do ser procede do exercício de um Comando certo e de um desdobramento de Signos, e o Senhor vê as coisas subirem e descerem, sendo o temor ao Senhor a atitude mais necessária e mais bela da parte do servidor.

O Senhor torna permanente e enobrece junto a Si aquele que quer, e “reenvia” à criação aquele que quer, sendo esse reenviado profeta, enviado ou herdeiro santo — e não há outro caso além desses três.

O Herdeiro perfeitamente universal entre os Santos é aquele que se consagra a Allah segundo a Lei do Enviado até que Allah lhe “abra” no coração a compreensão do que foi revelado ao Profeta Muhammad, sendo então enviado às criaturas para guiá-las.

O Cheikh Abû Madyan exprimia em três enunciados progressivos o sinal da sinceridade do aspirante: primeiro a fuga das criaturas, depois o estar unicamente para Deus, e enfim o retorno às criaturas.

A palavra de Abû Sulaymân ad-Dârânî — “Se tivessem chegado, não teriam retornado” — refere-se apenas àqueles que retornam a seus desejos naturais, e não àqueles que retornam de junto de Allah com a orientação.

O Cheikh Abû Ya'qûb Yûsuf ibn Yakhluf al-Kûmî ensinava que entre o ser e Deus há uma Encosta difícil de galgar, e que aquele que chega ao Cume e contempla o além não retorna mais.

Os Chegantes a Allah (al-Wâçilûn) podem ocupar diferentes graus, conforme o Nome divino ou o modo pelo qual realizaram a Chegada.

Quando a Chegada resulta do Nome que ligou metodicamente o iniciado a Allah, o ser O vê por um “Olho de Certeza” (aïnu yaqînin), e a verdade própria desse Nome divino determina sua “bebida” (machrab), seu “gosto” (dhawq), sua “superabundância” (raï) e sua realização (wujûd).

Quando a Chegada resulta de um Nome diferente daquele que ligou metodicamente o iniciado a Allah, o ser profere uma “ciência estranha” (ilm gharîb) que não corresponde a seu estado espiritual efetivo, e esse caso é considerado mais elevado.

Entre os Chegantes, uns “retornam” (man ya'ûdu) e outros “não retornam” (man lâ ya'ûdu), e os que retornam se dividem em duas categorias.

Os mais elevados entre os Homens Espirituais, quando encarregados de uma missão, empenham-se em esconder seu grau espiritual aos homens, reunindo o atributo da exortação com o da ocultação de seu próprio grau.

Há entre os Homens espirituais que realizaram a Chegada aqueles a quem nada é revelado quanto aos Nomes divinos que os regem, mas que têm uma “vista” (nazhar) em matéria de obras prescritas pela Lei.

Em consequência dessas “aberturas”, Allah concede a esses seres “luzes” (anwâr) que convêm a seus casos, e essas luzes são em número de oito, fazendo parte do Domínio da Luz (Hadratu-n-Nûr).

Há ainda Chegantes cuja Chegada se dá às verdades essenciais dos Profetas (haqâiqu-l-Anbiyâ) e às suas substâncias íntimas (latâifu-hum), sem conhecimento no domínio dos Nomes divinos nem das Luzes.

Há Chegantes a quem Allah concede todas as graças enumeradas, e a outros dois graus dessas graças ou mais, segundo a parte que Allah reservou a cada um, sendo que todo ser reenviado às criaturas para guiá-las não pode ultrapassar o domínio de seu próprio conhecimento (dhawq).