IBN-AL-ʿARABĪ. Le Coran et la fonction d’Hermès. Les trente-six attestations coraniques de l’unité. Tradução: Charles-André Gilis. Paris: Editions de l’Oeuvre, 1984.
O Quarto Tawhid
O quarto Tawhid provém do Sopro do Todo-Misericordioso e tem por fundamento o versículo 6 da Sura Al 'Imran: “É Ele que vos forma nas matrizes, da maneira que Ele quer / Não há Deus senão Ele / O Inacessível, o Sábio”.
Comentário Akbariano
O quarto Tawhid é o da Mashi'a — a Vontade principial supraontológica —, qualificação do Tawhid da Ipseidade pela Onipotência soberana, e também a Palavra divina: “Ele não é engendrado” (Cor. 112, 3).
Deus nos forma nas matrizes sem nenhum contato físico: se houvesse tal contato, a matriz O encerraria, assim como encerra o receptáculo da forma; inversamente, se não fosse Ele o Formador, esse atributo não poderia ser-Lhe aplicado segundo a verdade — ora, Ele é o Verídico e não atribuiu o ato formador a ninguém além de Si
Disse ainda: “da maneira que Ele quer (yasha')” — ou seja, com vistas a obter tal coisa determinada; disso resulta que Sua Mashi'a é compatível com uma ideia de “maneira”, apesar de ser qualificada pela Onipotência insondável
O Sábio (al-Hakim) é aquele que ordena as coisas uma vez que elas receberam seu lugar; o ato formador implica esse Nome divino — é “o Sábio” com efeito que é o Formador, não “o Rei”, com a onipotência e a inacessibilidade inerentes à sua majestade
As inteligências sãs, as que conhecem a Majestade divina, estão mergulhadas na perplexidade; os “gentes da interpretação (ta'wil)”, quanto a eles, não estão perplexos — estão à margem da questão, ou seja, no próprio fato de se mergulharem na interpretação; mesmo quando estão de acordo com a Ciência verdadeira, fazem uma coisa que lhes foi proibida e pela qual terão de responder no Dia da Ressurreição
Os que dissertam sobre a Essência divina — que Ele seja exaltado! — e declararam Deus transcendente em relação ao que Ele mesmo Se atribuiu, preferindo sua inteligência à sua fé e dando às suas especulações autoridade sobre a Ciência de seu Senhor, cometem o erro que o Altíssimo qualificou com as palavras: “O Filho de Adão M'a declarado mentiroso — é da sua parte uma inconveniência”; e Deus não mencionou senão o caso em que isso se produziu, não todos os casos.
Deus deixou também certa esperança na medida em que disse, em outra versão do mesmo hadith: “Meu servo” — e não “o Filho de Adão” —, tomando assim essa atitude por Sua conta; na versão em que Ele diz “Filho de Adão”, que é aliás a mais segura, Ele afastou a coisa de Si mesmo e a relacionou ao aspecto exterior de Adão — sobre ele a Paz!
A desobediência deste último foi em realidade puramente exterior — tratava-se do fato de se aproximar da árvore e comer; o Corão diz: “Ele esqueceu e não encontramos nele nenhuma resolução própria” (Cor. 20, 115) — ou seja, nenhum ato interior correspondente; Deus o “inocentou” interiormente de toda desobediência: “ele era eminente junto de Allah”, “eleito”, como o disse o Altíssimo
Notas Complementares
O conjunto das indicações dadas nesse comentário faz referência, de modo mais ou menos explícito, ao princípio metafísico designado pelo termo Mashi'a, que é uma transposição, além do Ser, da noção de vontade.
Trata-se mais precisamente do que René Guénon chama “a Vontade produtora do Princípio Supremo”, à qual corresponde, na doutrina islâmica, a expressão 'Arsh adh-Dhat — “o Trono da Essência”; a transcendência da Mashi'a é indicada pelo Nome divino al-'Aziz, que sublinha a “irreciprocidade” da relação entre o princípio e sua manifestação, sendo por isso traduzido por “o Inacessível” e o substantivo correspondente, 'izza, por “Onipotência insondável”
A Mashi'a escapa à apreensão do intelecto criado pelo fato de que a transcendência de Allah não deve ser envisagada como contraditória com Sua ação ordenadora e formadora — é esse paradoxo que é expresso no Cristianismo pelo milagre da Virgem-Mãe; não surpreenderá portanto que, em seu comentário do vigésimo-terceiro Tawhid, o Cheikh al-Akbar estabeleça uma aproximação notável e significativa entre a Virgem Maria e a doutrina da Mashi'a
Se a Vontade principial não é verdadeiramente distinta da Essência divina, suas produções também não se distinguem dela no sentido de que a Realidade essencial é onipresente, quaisquer que sejam as aparências e a diversidade de seus modos de manifestação; é aliás por isso que o Cheikh cita não a passagem corânica onde se diz de Allah que “Ele não engendra”, mas aquela onde se diz que “Ele não é engendrado”
Ibn Arabi se ergue com força contra toda tentativa de explicação racionalista desse mistério, enquanto a ciência verdadeira é caracterizada pela perplexidade (hayra) — a propósito da qual Michel
Valsan escrevia: “O caráter necessário e também beatífico da hayra em matéria de conhecimento divino é ilustrado pelo pedido que o Profeta dirige a Allah: 'Meu Senhor, acrescentai-me um novo deslumbramento' (Rabbi zidni tahayyuran) — fórmula correlativa e no fundo equivalente a 'Meu Senhor, acrescentai-me uma nova ciência' (Rabbi zidni 'ilman) (Cor. XX, 113)”
A doutrina da Mashi'a permite dar conta igualmente da última parte do comentário — a Vontade Suprema de Allah constitui a justificação metafísica de tudo o que se manifesta e se produz no mundo.
Correlativamente, a realização da servitude aparece, como o indica o Cheikh, como a fonte da esperança e a chave da libertação; a interpretação dada das duas versões do hadith citado merece atenção
A desobediência do servo não pode verdadeiramente se produzir senão na medida em que a Ordem divina é envisagada ela mesma ao grau individual — e ainda assim, como precisa o Cheikh, ela só tem existência no plano exterior, pois Allah permanece o único Agente verdadeiro e Ele justifica e “cobre” o servo, mesmo se este não tem atualmente consciência disso
Na perspectiva metafísica da Mashi'a, nenhuma desobediência é concebível, pois em realidade nada se produz no mundo que não esteja em perfeita conformidade com a Vontade divina universal, tal como ela se exprime e se realiza na atualização das coisas