IBN-AL-ʿARABĪ. Le Coran et la fonction d’Hermès. Les trente-six attestations coraniques de l’unité. Tradução: Charles-André Gilis. Paris: Editions de l’Oeuvre, 1984.
O Quinto Tawhid
O quinto Tawhid provém do Sopro do Todo-Misericordioso e tem por fundamento o versículo 18 da Sura Al 'Imran: “Allah testemunha que não há Deus senão Ele / E os Anjos e aqueles que possuem a Ciência / Fazendo reinar a Justiça… / Não há Deus senão Ele, o Onipotente, o Sábio (al-'Aziz al-Hakim).”
Comentário Akbariano
O quinto Tawhid é o da Divindade e do Testemunho prestado ao Nome “o Equitativo” — “o Justo no mundo” —, sendo também a Palavra divina: “Ele dá a toda coisa Sua criação” (Cor. 20, 50).
Deus Se descreveu a Si mesmo como o Realizador do equilíbrio nesse Tawhid — o Tawhid do Testemunho sobre o “reino da Justiça” —, prestado em favor da Ipseidade, sendo Allah o Testemunho, do ponto de vista da totalidade de Seus Nomes
Ao mencionar “Allah” sem determinar um Nome particular, faz-se saber que foram tidos em vista o conjunto dos Nomes divinos dos quais o mundo exige o equilíbrio; com efeito, Ele não Se equilibrou a Si mesmo, e tudo isso concerne apenas ao que é suscetível de equilíbrio — trata-se portanto do Tawhid da Justiça
Um hadith firmemente estabelecido, cuja transmissão remonta, por Bukhari, até Abu Hurayra, relata que o Enviado de Allah — que Allah derrame sobre ele Sua Graça unitiva e Sua Paz! — disse: “Allah — Poderoso e Majestoso! — disse: 'Despende! Despenderai para ti!'” E disse ainda: “A Mão de Allah está plena. Nenhuma despesa, durasse ela noite e dia, diminui o conteúdo.” E disse ainda: “Vistes o que Ele despendeu desde que criou os Céus e a Terra? O que Ele tem em Sua Mão não diminuiu. Seu Trono estava sobre a Água e em Sua Mão a Balança: ela abaixa e eleva.” — este hadith é relatado por Muslim como transmitido igualmente por Abu Hurayra
Desde que o servo faz reinar a Justiça no Tahlil de seu Senhor, seu Senhor o declara verídico e diz a mesma coisa que ele — isso faz parte da purificação do servo, operada por Allah.
Transmissão remontando ao testemunho de Abu Sa'id e Abu Hurayra: o Profeta — que Allah derrame sobre ele Sua Graça unitiva e Sua Paz! — dizia: “Aquele que diz 'Não há Deus senão Allah' e 'Allah é Mais-Grande!', seu Senhor o declara verídico e diz: 'Não há outro Deus que Eu e Eu sou Mais-Grande'; quando (o servo) diz 'Não há outro Deus que Allah, Ele Somente', Allah diz: 'Não há outro Deus que Eu e Eu Somente'; quando (o servo) diz 'não há outro Deus que Allah, a Ele o Reino e a Ele o Louvor', Allah diz: 'Não há outro Deus que Eu, o Reino é a Mim e o Louvor é a Mim'; quando (o servo) diz 'não há outro Deus que Allah; nem potência, nem força senão por Allah', Allah diz: 'Não há outro Deus que Eu; nem potência, nem força senão por Mim.'” — e disse também: “Aquele que disser essas palavras enquanto está doente e morrer em seguida, o Fogo não o devorará”
Aquele que concede por si mesmo o direito que pertence a seu Senhor e aos outros, e a si mesmo de sua própria parte, que realiza nisso o equilíbrio a seu encontro, que não deixa consequentemente nem a si mesmo nem aos outros um direito qualquer contra ele — esse realiza essa Estação (iniciática) da Justiça da qual testemunhou em favor de seu Senhor; se se trata de direitos que se determinaram a seu favor junto de outrem e que lhe pertencem, ele os deixa cair e não os reclama — se tal testemunho é dado em seu favor, seu salário incumbe a Allah!
O que confirma isso é a continuação do versículo, onde, após Sua Palavra “fazendo reinar a Justiça”, há “não há Deus senão Ele, o Onipotente, o Sábio” — Allah testemunha portanto em Seu favor, por Seu próprio Tawhid; Ele testemunha que Seus Anjos e os que possuem a Ciência Lhe prestaram testemunho ao proclamar Sua Unidade, e que fazem também reinar a Justiça — isso faz parte da boa graça d'Aquele que presta o testemunho antes que se Lho demande: Allah testemunha em favor de Seus servos, do testemunho que eles prestaram em proclamar Sua Unidade, e isso antes mesmo que eles Lho demandem
O Testemunho procede unicamente de uma ciência, não de uma opinião dominante ou de uma ideia recebida — salvo se esta se mantém preservada no que proclama; é possível testemunhar contra as comunidades anteriores pelo fato de que seus Profetas lhes transmitiram a Convocação de Deus, baseando-se no que Deus ensinou no Seu Livro sobre Noé, 'Ad, Thamud, o povo de Ló e os Companheiros da Aïka, o povo de Moisés e no testemunho de Khuzayma — e isso só é possível para aquele que, em sua Fé, acede a uma Ciência d'Aquele em quem crê, que não crê por conformismo ou simples boa opinião
Notas Complementares
Este Tawhid é o único a comportar dois Tahlil, ambos segundo a mesma fórmula — La ilaha illa Huwa; o Cheikh al-Akbar explica essa particularidade pela menção concomitante da Justiça, que faz aparecer o segundo Tahlil como uma resposta divina fazendo eco ao primeiro: Allah confirma por esse meio o primeiro testemunho e testemunha Ele mesmo em favor dos que o prestaram.
O equilíbrio perfeito, como claramente mostrou Guénon, só existe na não-manifestação; ao mesmo tempo, a noção mesma de equilíbrio só se compreende no seio do universo manifestado ou em relação a ele; resulta dessa dupla afirmação que é o princípio ontológico — representado pelo ponto na ordem espacial e pela unidade na ordem numérica — que constitui o fundamento verdadeiro do equilíbrio; esse princípio é aquele ao qual faz referência a menção de Allah envisagado “do ponto de vista da totalidade de Seus Nomes”; quanto à expressão “Justo no mundo”, ela designa propriamente o Polo, que representa esse mesmo princípio no coração da manifestação ou de um estado particular de existência
Quando se envisage no interior de tal estado, a realização do equilíbrio aparece essencialmente como uma “reação concordante” — do que testemunha o hadith “Despende! Despenderai para ti!” — e o que ilustram igualmente, de um ponto de vista iniciático, as “respostas” feitas às diferentes fórmulas tradicionais pronunciadas pelo servo; essas respostas lhe asseguram a Bênção divina e a veiculam para ele; a esse grau, a perspectiva existencial das “ações e reações recíprocas” não é portanto ultrapassada — é aliás por isso que o Cheikh al-Akbar fala a esse propósito de uma “purificação do servo operada por Allah”
As outras indicações dadas no comentário referem-se diretamente à Incomparabilidade divina e põem em causa a “irreciprocidade” da relação entre Deus e o mundo — é esse o sentido dos hadiths citados, segundo os quais a Liberalidade de Allah não acarreta para Ele nenhuma diminuição nem nenhuma falta, de tal sorte que não há mais aí equilíbrio a propriamente falar; isso se traduzirá, do ponto de vista iniciático, no fato de que a realização do Direito divino pelo servo — principalmente quando se trata dos outros — não se acompanha de nenhuma ideia de reciprocidade ou de condição e aparece como uma manifestação de pura generosidade
O equilíbrio perfeito só se realiza na não-manifestação, mas não corresponde contudo senão a um aspecto da Justiça divina, pois Allah é também “o Exterior” ou “o Manifesto” — ora, toda manifestação implica uma ruptura de equilíbrio; é aliás por isso que o Cheikh al-Akbar, quando se refere ao Nome al-'Adl — “o Justo” —, o interpreta constantemente com o sentido de “pencher” ou ainda de “afirmar um dos termos de uma alternativa”, sentido que é ele mesmo inerente à sua raiz; é desse “pendor” que procede em realidade a criação, o que explica que o versículo “Ele dá a toda coisa Sua criação” seja colocado, nesse comentário, em relação com al-'Adl; o Cheikh faz ainda remarcar que a realização da equidade, quando se trata de partes em conflito, não consiste em manter o equilíbrio entre elas, mas em escolher e decidir aquela que detém o direito
A parte final do comentário mostra que, apesar da identidade de sua forma, os dois Tahlil figurando no versículo não têm verdadeiramente a mesma significação.
O primeiro testemunho é prestado, quando se trata de homens, por “aqueles que possuem a ciência” — essa pode resultar de uma realização da Presença divina, mas procederá na maioria das vezes de uma apreensão puramente especulativa, de tal sorte que o Tawhid correspondente é proclamado unicamente pelo intelecto criado no sentido do árabe 'aql
O segundo Tawhid — que constitui a confirmação divina do primeiro — escapa em todos os casos à apreensão da criatura e só pode ser admitido e compreendido por meio de uma ciência que ultrapassa o domínio próprio do intelecto; essa ciência é a do coração iluminado pela Fé, no sentido metafísico do termo — o que sublinha a presença dos Nomes divinos al-'Aziz al-Hakim, cujo rapport com a “perplexidade” e portanto com a Ciência principielle foi apontado mais acima; esse segundo Tawhid corresponde portanto a um testemunho prestado segundo a Fé, em conformidade com a Ordem divina e os dados da Tradição islâmica, o que permite dar conta da afirmação final segundo a qual “a Religião junto de Allah é o Islã”
A Revelação muhammadiana é a da Ciência integral; somente a Fé pode dar acesso a ela e procurar assim seu alimento ao intelecto