MECA E CAABA

GILIS, Charles-André. La doctrine initiatique du pèlerinage. Paris: Editions de l’Oeuvre, 1994.

A Meca ocupa o centro do mundo terrestre e a Caaba ocupa o centro de Meca, constituindo juntas uma representação do Coração do Mundo e da cavidade secreta que abriga o Princípio divino.

A interpretação do Coração Maometano varia conforme os autores: alguns o representam pela montanha Qâf, outros pela própria Caaba, sob a designação de “Coração do Homem Universal”.

Entre as numerosas significações esotéricas que o Cheikh al-Akbar atribui à Caaba, destaca-se aquela em que ela aparece como representação terrestre do Trono divino, sendo os peregrinos que realizam as voltas rituais comparados aos Anjos que giram em torno dele.

O paralelo com a Merkaba bíblica impõe-se, pois ela também é sustentada pelos quatro animais simbólicos mencionados na visão de Ezequiel, que detêm ainda, segundo o Apocalipse, uma função escatológica muito importante.

Do ponto de vista iniciático, a Casa de Allâh é identificada pelo Cheikh antes de tudo ao “Coração do crente”, ou seja, ao ser que atingiu os graus superiores da realização, sendo o Coração o órgão simbólico por excelência do Conhecimento metafísico e a morada da Divindade.

A Casa de Allâh aparece como um véu que oculta a realidade principial, mas esse véu existe apenas em razão de certa incompreensão por parte de quem a contempla.

O “segredo” da Caaba reside no fato de que ela é, em sua significação mais elevada, uma representação da Essência e constitui por si mesma uma “Epifania Essencial” (tajallî dhâtî).

O fato de a Caaba ser identificada ao Coração do Homem Perfeito explica que ela esteja presente em realidade em todos os estados e em todos os graus da Existência Universal.

Os dados islâmicos relativos à Casa de Allâh veiculam um ensinamento tradicional que ilustra de maneira notável a doutrina universal dos “estados múltiplos do Ser” — para retomar a expressão de Guénon — apresentando uma realidade única cuja função aparece, nas diversas condições e modalidades de manifestação universal, como “central” e “axial”.

O fato de o Templo mekkois ser a representação neste mundo de uma realidade iniciática de caráter axial comporta aspectos e aplicações particulares que se refletem no ensinamento tradicional do qual ele é objeto.

A fórmula Lâ hawla wa lâ quwwata illa bi-Llâh — “Não há força nem potência senão por Allâh” —, à qual se acrescentam tradicionalmente os Nomes divinos al-'Alî, al-'Azîm, é uma das fórmulas rituais fundamentais do Islã.

A relação estreita entre o simbolismo mekkois e a função califal é atestada por outros dados tradicionais, dentre os quais a correspondência, estabelecida por Guénon no artigo sobre os Arkân, entre os quatro animais simbólicos da visão de Ezequiel e os quatro Mahârâjas, “nas tradições hinduísta e tibetana, os regentes dos pontos cardeais e dos 'quarteirões' do espaço”.

Meca é identificada ao “umbigo da terra” (surratu-l-Ard), ou seja, ao ponto de origem do conjunto da manifestação terrestre e corporal.

A designação de Meca como “umbigo da terra” permite estabelecer rapprochements significativos com dados de outras tradições, o mais notável sendo o que pode ser feito com o Omphalos de Delfos.

Qâf é antes de tudo o nome de uma letra do alfabeto árabe, a penúltima das “letras isoladas” que figuram no início de certas suras do Corão, e é considerada uma designação metonímica do Coração, sendo a inicial do vocábulo qalb, que significa “coração” em árabe.

A outra montanha sagrada presente em Meca é a que porta o nome de Sâd, que é também o nome de uma letra do alfabeto árabe e, como o Qâf, faz parte das letras isoladas.

A forma esférica do Sâd é em realidade “ocultada” pela Caaba visível, pois essa forma é a do “Ovo do Mundo” — “o que representa o conjunto 'global', em seu estado primeiro e 'embrionário', de todas as possibilidades que se desenvolvem no curso de um ciclo de manifestação” —, enquanto a forma cúbica simboliza o estado final de seu desenvolvimento.

As doutrinas e tradições islâmicas que relacionam o simbolismo mekkois ao da Montanha sagrada completam de maneira notável as que concernem à Cidade e à Casa santas.