IBN ARABI

Charles-André Gilis - Por uma abordagem tradicional de Ibn Arabi – posfácio de A Oração da Sexta-feira

Ibn Arabi é o maior dos mestres do esoterismo islâmico, sua via iniciática própria é a do Conhecimento metafísico, sua obra engloba todas as vias de realização possíveis no islã e sua ortodoxia não pode ser posta em dúvida — pois são seus escritos que determinam os critérios dessa ortodoxia — sendo que os ataques e reservas de que é objeto refletem inevitavelmente uma incompreensão da tradição islâmica.

A apresentação da doutrina akbariana deve ser essencialmente “tradicional”, ou seja, em um espírito conforme aos princípios enunciados pelo Cheikh Abd al-Wahid Yahya — cuja obra foi publicada sob o nome de René Guénon —, obra escrita inteiramente para modificar o estado de espírito dos ocidentais a fim de que reconheçam a existência e a autoridade da tradição universal representada hoje pelo islã.

O ensinamento tradicional transmite-se em condições estritamente determinadas por sua natureza: deve adaptar-se às possibilidades intelectuais de cada um, graduar-se em proporção dos resultados já obtidos e exige um esforço constante de assimilação pessoal — o que indica a necessidade do ensinamento oral e direto, ao qual nada pode suprir.

Não é apenas a Universidade que convém questionar, mas também todas as derivas originárias da degenerescência das organizações iniciáticas ocidentais — principalmente a Maçonaria moderna —, pois onde prevalece o respeito à Tradição as hierarquias intelectuais se estabelecem por si mesmas, enquanto onde domina o igualitarismo é preciso exercer uma “ação de polícia tradicional” para reduzir a erudição ao grau inferior que normalmente lhe convém.

O fetichismo da referência acadêmica acompanha-se de estranhas ilusões: se o valor de uma tradução depende sem dúvida da exatidão do texto, engana-se quem imagina que os critérios da crítica universitária possam ser suficientes para estabelecer a versão correta de ensinamentos iniciáticos, pois a mentalidade de que procedem esses métodos é incapaz de atingir o que ultrapassa a ordem individual.

A necessidade do ensinamento oral e direto aplica-se ao ensinamento tradicional em seu conjunto; a bênção divina (baraka) concerne mais especialmente os ritos vinculados ao Profeta por meio de um rito iniciático, e cada via de realização é única por coincidir com a Face divina do ser.

O islã, por sua posição cíclica final e recapitulativa, pode “herdar” de ensinamentos reservados de tradições anteriores — Alcorão 19:40, 15:23, 21:105 — e esses aportes encontram necessariamente sua correspondência na revelação islâmica total, vivificando a inteligência do islã e frutificando em seu seio com uma profusão que frequentemente já não é mais possível em sua tradição de origem.

A situação atual difere da época de Guénon: hoje já não se trata de abrir caminho às ideias tradicionais, mas de combater uma abordagem especulativa que consiste em reduzir as doutrinas reveladas do islã a essas mesmas ideias, desligando-as da inspiração divina de que procedem.

Os escritos de Ibn Arabi encerram uma orientação espiritual e iniciática equivalente ao ensinamento “oral e direto” de um mestre espiritual — modalidade da baraka muhammadiana que só pode ser preservada por meio de uma apresentação adequada.

A apresentação tradicional de Ibn Arabi deve igualmente levar em conta como ela é percebida nos países islâmicos, onde tem constantemente sido objeto de ataques e suspeitas gerados pela incompreensão, inclusive no interior de organizações iniciáticas (turuq).