Michel Valsan — Ibn Arabi — Livro da Extinção na Contemplação
O Kitabu-l-Fana'i fi-l-Mushahada — O Livro da Extinção na Contemplação — é um dos numerosos pequenos tratados do Cheikh al-Akbar Ibn Arabi, situando-se à margem de suas grandes obras e apresentando referência explícita aos Futuhat, sua obra mestra, cuja composição se estendeu por quase toda a parte de sua vida passada no Próximo Oriente.
O Cheikh al-Akbar nasceu em 17 de Ramadan 560, correspondente a 28 de julho de 1165, em Múrcia, Espanha, e viveu no Próximo Oriente desde 598 até sua morte em 26 de Rabi'a-l-Akhir 638, ou seja, 16 de novembro de 1240, em Damasco
Os últimos parágrafos do Kitabu-l-Fana' remetem por antecipação à parte dos
Futuhat que tratará das Manazil (as Moradas Iniciáticas), tema evocado e tratado de maneira especial no capítulo 286 dos
Futuhat — que contam ao todo 560 capítulos — onde o Kitabu-l-Fana' é mencionado como já escrito
A introdução ao tratado limita-se a sublinhar suas teses ou ideias características mais relevantes, sem proceder à análise detalhada e ao comentário que normalmente exigiria um texto tão conciso e cheio de alusões; as notas da tradução acrescentarão precisões técnicas e tornarão inteligível o encadeamento do texto
Introdução
O tratado, apesar de seu título específico, pode ser considerado uma introdução ao estudo da via esotérica e ao domínio do conhecimento metafísico no Islã, sendo sobretudo uma obra de defesa dessa via e de seus meios próprios — como o desvelamento ou apreensão intuitiva (al-kashf) — contra os ataques provenientes tanto do exoterismo quanto do racionalismo filosófico.
O prólogo, após doxologias cadenciadas e rimadas, enuncia ideias fundamentais sobre a importância do assunto: trata-se de uma espécie de apoteose da elite espiritual e de seu papel providencial na economia tradicional e cósmica total
A via esotérica é autenticamente muhammadiana e está incluída, desde a origem, na definição e na realidade do Din islâmico total
A tese central do tratado enuncia que a Realidade Divina Essencial (al-Haqiqatu-l-Ilahiyya), que é o objetivo da via de conhecimento metafísico, só pode ser contemplada por uma realização que consiste, de um lado, na extinção (fana') do que é relativo e contingente no ser, e de outro, na permanência (baqa') do que é absoluto e necessário no olho contemplante.
Essa realização não implica nenhuma mudança de natureza, nenhuma alteração ou supressão de essência, e não conduz a nenhum resultado que não preexistisse
O que se extingue é por definição caduco e sempre em estado de extinção; o que permanece tem sido imutavelmente o mesmo por toda a eternidade
A Visão aparece como nova nesse olho — e o termo 'ayn, que designa ordinariamente olho, fonte, pessoa, essência, identidade de uma coisa, presta-se naturalmente a aplicações correlativas que só se explicam de forma exaustiva por essa identidade final que serve para afirmar sob diferentes aspectos: designará sucessivamente o contemplante quanto a seu olho e a seu ser, a Visão contemplativa, e enfim a Estação metafísica realizada
Essa Visão é chamada Aynu-l-Jam'i wa-l-Wujud, traduzível como o Olho da União e do Ser Puro ou o Olho da Síntese e da Realização — atributo próprio da realização metafísica nomeada Estação da Quietude e da Suficiência Imutável (Maqamu-s-Sukuni wa-l-Jumud)
A visão essencial é explicada pelo simbolismo da procissão dos Números: o Olho vê então que todos os Números não são senão um único (wahid), que se propaga nos graus numerais e por esse processo manifesta as entidades dos números particulares — e é a propósito dessa visão que se produz o equívoco de quem professa a doutrina da ittihad, da unificação ou união.
A definição completa de ittihad se encontra nos
Futuhat, cap. 73, quest. 153: “o ittihad é o fato de as duas essências se tornarem uma só — seja servo, seja Senhor — e só pode haver ittihad no domínio do número e da natureza física (tabi'a), e não é senão um estado”
O erro do ittihad enquanto concepção da realização suprema consiste em considerar que o ser humano repousa sobre uma essência última distinta da Essência divina e em conceber que a Unidade final é o resultado de uma fusão das duas essências
A concepção justa sob esse aspecto é a do Tawhid — doutrina da Unicidade divina no plano religioso e atestação da Identidade Suprema no plano metafísico e iniciático — segundo a qual o princípio do Todo é uma Realidade essencial única, al-Haqiqatu-l-Ahadiyya, ou al-Haqiqa, e a realização suprema é a tomada de consciência do que é imutavelmente de toda eternidade, não uma unificação ou união concebida como se realizando entre duas realidades ou essências distintas
Quando o Cheikh al-Akbar define a Haqiqa, a Realidade ao sentido absoluto, dá esta resposta indireta: “é a abolição, em ti, dos traços de teus atributos, por Seus Atributos, na medida em que é Ele o Agente que opera por ti, em ti e de ti, e não tu mesmo: 'Não há besta da qual não seja Ele que a conduz pela crina'” (Cor. II, 56) — a realização é uma mudança de atributo, não de essência
Para mostrar que sob o aspecto da essência só pode tratar-se de Tawhid, o autor fará observar que o um se manifesta como número de dois modos: por sua essência (dhat) e por seu nome (ism) — por sua essência está sempre presente em todos os números e em todos os graus numerais; por seu nome próprio, só aparece no grau da unidade primeira, onde há coincidência entre essência e nome
O ittihad, que os exoteristas condenam como sacrilégio por afirmar a confusão das essências, a divinização da criatura ou a encarnação do Transcendente, é igualmente afastado pelos esoteristas — logicamente pelas mesmas razões —, mas estes o substituem por outra doutrina que é certamente a do Tawhid, não simplesmente a dos exoteristas, pois essa doutrina, sendo perfeitamente ortodoxa, vai num certo sentido muito além do ittihad.
O ittihad em tanto que hal (estado passageiro) manifesta-se efetivamente numa condição espiritual excepcional chamada jars — termo que no sentido ordinário significa cochicho, murmúrio, mas que designa tecnicamente uma contração do discurso sob a pressão exercida pela força do evento espiritual que afeta o coração
Tal poderia ser o caso de Abu Yazid al-Bistami proclamando Ana-Llah = “Eu sou Allâh!”, ou Subhani = “Glória a Mim!”, ou ainda de Husayn al-
Hallaj declarando Ana-l-Haqq = “Eu sou o Verdadeiro (Deus)!” — mas somente num estado em que a consciência do eu individual está totalmente desaparecida e substituída pela do Eu Principiel
Outro passo dos
Futuhat, cap. 399, atesta: “Da condição crítica do Ittihad nenhum escapou, até os verdadeiros Sábios por Allâh, que, sabendo qual é a situação real, falaram de união (ittihad): um o proclamou por mandamento divino, outro em razão do momento espiritual (al-waqt) e do estado iniciático (al-hal), outro ainda o pronunciou sem saber que o fez”
O Cheikh al-Akbar imputa aos racionalistas a fixação do sentido do ittihad à união entre duas coisas essencialmente distintas — e o termo Ittihad deveria ter a mesma aplicação que o grego Enosis, o latim Unio, e sobretudo o sânscrito Yoga, que exprime a união íntima e essencial do ser com o Princípio Divino, ou seja, a realização da Identidade Suprema
Rene Guenon diz sobre o yoga: “O sentido próprio desta palavra yoga é união e nada mais (a raiz desta palavra encontra-se quase inalterada no latim jungere e seus derivados). Há que notar que esta realização não deve ser considerada como uma efetivação ou como a produção de um resultado não preexistente — a união da qual se trata, mesmo não realizada atualmente, existe não menos potencialmente, ou antes virtualmente” (L'Homme et son devenir selon le Vedanta, cap. III)
A via do alto conhecimento é esotérica, reservada aos que têm as aptidões correspondentes, e seu ensinamento deve ser mantido afastado dos profanos — sendo os mais importunos dentre esses evidentemente os literalistas, os juristas, os especuladores racionais e os filósofos, cujas mentalidades especiais são outros tantos modos de desqualificações espirituais.
O autor cita palavras do Profeta e de seus Companheiros e ilustra sua tese pelo comportamento de Hasan al-Basri que, para tratar de coisas de ordem iniciática, isolava-se com os Conhecedores, os Gens du Gout (Ahlu-dh-Dhawq) dentre seus auditores
Os Conhecedores têm a possibilidade de estabelecer, de maneira que lhes é própria, a validade dos dados tradicionais existentes, pela via direta do desvelamento intuitivo (tariqu-l-kashf) — o que pode ter como efeito que, para suas práticas pessoais, considerem certos hadith diferentemente dos sábios exotéricos cujos critérios são sempre extrínsecos
A dificuldade que os profanos têm em compreender as ideias iniciáticas manifesta-se primeiramente por sua ignorância diante dos termos técnicos estabelecidos pelos esoteristas para a formulação de seu ensinamento
A verdadeira orientação fundamental da via metafísica é designada no ensinamento sagrado pela noção de Ikhlas = Epuração, Sinceridade — termo e expressões específicas que se aplicam essencialmente ao culto oferecido puramente a Deus, à adoração liberta de toda ideia de retribuição e cuja finalidade é Allâh sozinho
Tal é a Via Direta dos Hunafa', os Unitários Absolutos, segundo a qual não se visa o fruto das obras — que, reservado junto de Allâh, não está perdido para eles — mas a Luz Suprema que é Allâh Ele Mesmo
O Cheikh al-Akbar assinala a existência de duas vias que, em certas circunstâncias, podem ser propostas concorrentemente ao aspirante: a Religião Direita e Pura instituída por um órgão profético de eleição providencial (ad-Dinu-l-mustaqimu-l-hukmiyyu-n-nabawiyyu-l-ikhtisasiyyu-l-khalis), e a Religião Não-direita, sapiencial, mesclada, de modo especulativo e intelectualista (ad-Dinu ghayru-l-mustaqimi-l-hikmiyyu-l-mamzujiyyu-l-fikriyyu-l-'aqli).
A primeira é a mais elevada e a mais proveitosa — o ensinamento profético muhammadiano, cuja autoridade se exerce sobre as outras religiões reveladas, à medida das quais opera certas abrogações ao mesmo tempo que confirmações, prevalecerá a fortiori sobre as vias sapientiais
O Cheikh al-Akbar designa por vias sapientiais provavelmente em primeiro lugar as escolas iniciáticas como as dos Ikhwanu-s-Safa', os Irmãos da Pureza, e dos Ishraqiyyun, os Iluminativos, que se encontravam no meio muçulmano
A excelência da religião revelada, e particularmente da religião muhammadiana, está ligada a uma condição: a da aceitação integral do Livro pela Fé — sendo o mais miserável dos seres aquele que tem um Livro revelado mas só dá fé a uma parte e não crê na outra
O coração tem duas faces: uma interior, que é a Tábua Preservada (al-Lawhu-l-Mahfuz), na qual tudo o que está inscrito é definitivo; outra exterior, que é a Tábua do Apagamento e da Inserção (Lawhu-l-Mahwi wa-l-Ithbat), na qual as inscrições podem ser apagadas e substituídas
O Cheikh al-Akbar cita o caso do personagem anônimo evocado no Corano (7, 174), ao qual os comentários fazem corresponder vários personagens da história religiosa, sendo o mais típico Balaão, filho de Beor, contemporâneo de Moisés, de quem fala o texto dos Números (22-24) — os sinais (ayat) ou poderes operativos proféticos atribuídos ao personagem visado pelo versículo encontravam-se portados no exterior de seu ser, e não fixados intimamente por uma completa realização pessoal, razão pela qual puderam finalmente ser perdidos por ele
O Cheikh al-Akbar envisagea de forma direta o papel da Fé apoiada nas obras instituídas: é esse o meio para atingir toda a riqueza dos conhecimentos muhammadianospara que têm seu cumprimento supremo na Dignidade do Homem por excelência (Hadratu-l-Insan), com indicação sumária de uma hierarquia de quatro Hadarat (domínios ou planos de realidade).
Os quatro Hadarat correspondem às noções fundamentais do Islam (a submissão às prescrições legais), do Iman (a Fé) e do Ihsan (a Perfeição dos dois graus precedentes), este último com duas variedades: similitude e realização efetiva da Visão Suprema
As palavras do hadith sobre o Ihsan são interpretadas segundo a acepção dos Ahlu-l-Isharat, os Gens das Alusões Sutis, o que é uma ocasião de ver os recursos do simbolismo verbal e literal da língua sagrada
O tratado termina demonstrando que as verdades mais elevadas da Via iniciática estão contidas esotericamente nas próprias fórmulas do ensinamento geral, pois o último Ihsan legal é a Visão Suprema, visão consecutiva à Extinção metafísica e coincidindo com o Levantar do Sol Essencial
A tradução do Kitabu-l-Fana' foi feita sobre o texto impresso sob o número 1 em Rasa'ilu-l-Ibnu-l-'Arabi, Hayderabad 1948-1949, cotejado com cinco manuscritos: Upsala II 16215, Berlin 2945, Manchester 1065, Paris 6640 e Nuru Osmaniye 2406 — este último copiado do original mas incompleto.