LIVRO DA EXTINÇÃO NA CONTEMPLAÇÃO

Michel ValsanIbn Arabi — Livro da Extinção na Contemplação

O Kitabu-l-Fana'i fi-l-Mushahada — O Livro da Extinção na Contemplação — é um dos numerosos pequenos tratados do Cheikh al-Akbar Ibn Arabi, situando-se à margem de suas grandes obras e apresentando referência explícita aos Futuhat, sua obra mestra, cuja composição se estendeu por quase toda a parte de sua vida passada no Próximo Oriente.

Introdução

O tratado, apesar de seu título específico, pode ser considerado uma introdução ao estudo da via esotérica e ao domínio do conhecimento metafísico no Islã, sendo sobretudo uma obra de defesa dessa via e de seus meios próprios — como o desvelamento ou apreensão intuitiva (al-kashf) — contra os ataques provenientes tanto do exoterismo quanto do racionalismo filosófico.

A tese central do tratado enuncia que a Realidade Divina Essencial (al-Haqiqatu-l-Ilahiyya), que é o objetivo da via de conhecimento metafísico, só pode ser contemplada por uma realização que consiste, de um lado, na extinção (fana') do que é relativo e contingente no ser, e de outro, na permanência (baqa') do que é absoluto e necessário no olho contemplante.

A visão essencial é explicada pelo simbolismo da procissão dos Números: o Olho vê então que todos os Números não são senão um único (wahid), que se propaga nos graus numerais e por esse processo manifesta as entidades dos números particulares — e é a propósito dessa visão que se produz o equívoco de quem professa a doutrina da ittihad, da unificação ou união.

O ittihad, que os exoteristas condenam como sacrilégio por afirmar a confusão das essências, a divinização da criatura ou a encarnação do Transcendente, é igualmente afastado pelos esoteristas — logicamente pelas mesmas razões —, mas estes o substituem por outra doutrina que é certamente a do Tawhid, não simplesmente a dos exoteristas, pois essa doutrina, sendo perfeitamente ortodoxa, vai num certo sentido muito além do ittihad.

A via do alto conhecimento é esotérica, reservada aos que têm as aptidões correspondentes, e seu ensinamento deve ser mantido afastado dos profanos — sendo os mais importunos dentre esses evidentemente os literalistas, os juristas, os especuladores racionais e os filósofos, cujas mentalidades especiais são outros tantos modos de desqualificações espirituais.

O Cheikh al-Akbar assinala a existência de duas vias que, em certas circunstâncias, podem ser propostas concorrentemente ao aspirante: a Religião Direita e Pura instituída por um órgão profético de eleição providencial (ad-Dinu-l-mustaqimu-l-hukmiyyu-n-nabawiyyu-l-ikhtisasiyyu-l-khalis), e a Religião Não-direita, sapiencial, mesclada, de modo especulativo e intelectualista (ad-Dinu ghayru-l-mustaqimi-l-hikmiyyu-l-mamzujiyyu-l-fikriyyu-l-'aqli).

O Cheikh al-Akbar envisagea de forma direta o papel da Fé apoiada nas obras instituídas: é esse o meio para atingir toda a riqueza dos conhecimentos muhammadianospara que têm seu cumprimento supremo na Dignidade do Homem por excelência (Hadratu-l-Insan), com indicação sumária de uma hierarquia de quatro Hadarat (domínios ou planos de realidade).

A tradução do Kitabu-l-Fana' foi feita sobre o texto impresso sob o número 1 em Rasa'ilu-l-Ibnu-l-'Arabi, Hayderabad 1948-1949, cotejado com cinco manuscritos: Upsala II 16215, Berlin 2945, Manchester 1065, Paris 6640 e Nuru Osmaniye 2406 — este último copiado do original mas incompleto.