ALQUIMIA

HCAAH

L'ALCHIMIE COMME ART HIÉRATIQUE

A obra reúne três estudos de Henry Corbin sobre a alquimia islâmica, apresentados como traduções comentadas de textos breves porém decisivos, que abordam o papel do Grande Obra na pesquisa espiritual muçulmana.

INTRODUCTION

A alquimia islâmica se constituiu a partir de um encontro precoce dos sábios muçulmanos com as tradições herméticas encontradas no Egito, na Síria e na Mesopotâmia durante as conquistas, sendo percebida como portadora de uma Sabedoria que ultrapassa em muito o interesse material das manipulações de laboratório.

O trabalho material do Grande Obra é uma realidade essencial nas especulações alquímicas, mas a orientação mental do operador desempenha papel decisivo, distinguindo a simples espagiria da verdadeira alquimia.

As doutrinas e práticas alquímicas não estabelecem separação de natureza entre “matéria” e “espírito”, uma vez que o Fogo — o Elemento mais volátil e espiritual — está destinado a tomar corpo, e que a Terra deve progressivamente tornar-se espiritual.

O alquimista participa de todo o seu ser na Obra que empreendeu, chegando a compreender e guiar a si mesmo no curso das fases não de forma puramente cerebral e indutiva, mas deixando todo o seu ser entrar em ressonância com as “imagens” do “espelho” que se torna a transformação da matéria na cucurbita.

O Grande Obra opera sobre uma substância única, a “matéria prima”, tratada de forma a atingir progressivamente um estado de pureza e equilíbrio perfeito entre seus Elementos, tornando-se a Pedra Filosofal capaz de transmutar metais comuns em prata e ouro.

As operações alquímicas obedecem a um sistema de proporções chamado “Balança” (mizan), noção que, em Jabir, rege os diferentes domínios do cosmos, desde os universais até a gramática e a música.

Cada substância possui, além de uma intensidade aparente e exterior de suas Qualidades Elementares, uma intensidade oculta e interior que é o inverso da primeira, de modo que todo o trabalho alquímico consiste em instaurar um equilíbrio harmonioso levando em conta simultaneamente as intensidades interiores e exteriores.

Os alquimistas árabes, e Jabir em particular, recorreram à Balança das letras — forma sistematizada da “ciência das letras”, equivalente muçulmano da cabala hebraica — para expressar os dinâmicos e bidimensionais rapports presentes em cada fenômeno.

A questão da datação precisa da literatura alquímica de língua árabe é relevante para a interpretação dos textos estudados, pois os ensinamentos atribuídos ao Imã Ali, as especulações do Livro do Glorioso e a tradução do texto de Apolônio adquirem peso diferente conforme sejam considerados apócrifos tardios ou depósitos de uma tradição antiga e original.

Henry Corbin recusou ou nuançou as conclusões de Kraus em vários pontos, argumentando que a historicidade do personagem de Jabir ibn Hayyan, discípulo do Imã Jafar, pode ser admitida, assim como a originalidade de sua obra.

Pesquisas recentes sobre os manuscritos e a análise lexical da coleção jabiriana dos Setenta isolaram várias “camadas” de redação dos tratados, sugerindo que o corpus não é formado de tratados antigos aos quais foram progressivamente acrescentados outros, mas de textos originais ampliados em fases sucessivas de comentários e glosas.