FUNDAMENTOS CORÂNICOS DA EXEGESE SUFI

CECQ

A exegese sufi suscitou nos meios muçulmanos rigoristas muita desconfiança e até hostilidade declarada — os teólogos e fuqaha “literalistas” a rejeitam em bloco, considerando-a na maioria das vezes uma inovação (bid'a) estranha ao espírito do Islã, que visa justificar doutrinas heterodoxas derivando-as arbitrariamente dos versículos corânicos; os sábios muçulmanos mais moderados preferem guardar silêncio sobre essas obras, remetendo à ciência infinita do divino Autor do Alcorão a competência do julgamento.

Três “germes” espirituais fundamentais sugerem a continuidade dessa evolução — e a obra de Ibn Arabi representa menos uma ruptura ou mudança de perspectiva do que um ponto de chegada de várias tendências fundamentais inerentes à própria espiritualidade islâmica.

O segundo germe é a própria concepção que o Islã tem do Alcorão — pois se o Alcorão é a Palavra de Deus, Palavra incriada segundo o dogma admitido pela maioria dos muçulmanos, é legítimo pensar que ele contém uma riqueza infinita de significações espirituais.

A exegese corânica por “desvelamento espiritual” aparece, portanto, não como uma abordagem fantasiosa ou arbitrária e marginal até mesmo no Islã, mas ao contrário como um método de interpretação dotado de seus postulados e de sua lógica interna — praticado por pensadores entre os maiores do Islã, de Avicena a Ibn Arabi, passando por Abu Hamid Ghazzali.