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Abd ar-Razzâq Kamâl ad-din al-Qashani (falecido em 730/1329) foi um dos principais intérpretes e comentaristas da obra do grande mestre do pensamento sufista, Muhyi ad-din ibn Arabi. Embora pouco se saiba sobre sua vida, ele nos deixou uma obra doutrinária considerável; redigiu, nomeadamente, um comentário muito famoso sobre o Fusus al-hikam de Ibn Arabi, bem como um Léxico técnico sufi, que também teve grande difusão.
O presente estudo diz respeito a uma obra não menos fundamental para o conhecimento do pensamento e da espiritualidade sufi, os Comentários esotéricos do Alcorão (Ta’wilât al-qur’ân). Nela, Qashani dedica-se a uma exegese sistemática do texto corânico, sura por sura, sob uma perspectiva puramente esotérica, esforçando-se por destacar a ou as dimensões metafísicas de cada passagem e sua importância na ordem da realização espiritual.
O Alcorão, é importante sempre ressaltar, é o próprio fundamento de toda crença, prática ritual ou atividade humana para o muçulmano. Sendo a própria palavra de Deus, modo de presença por excelência do divino neste mundo, ele é a referência primeira e absoluta do universo pessoal de cada crente. A face que o Islã assumirá para cada muçulmano corresponderá, portanto, à leitura particular que ele fará do texto sagrado. A exegese de Qashani conduz-nos assim à própria raiz da abordagem sufista: o encontro, não apenas no entendimento, mas no íntimo da alma do meditador, da palavra sagrada e de seu próprio impulso espiritual.
O interesse particular dos Comentários Esotéricos de Qashani reside, portanto, em sua exposição muito clara, até mesmo didática, de considerações e desenvolvimentos exegéticos que aparecem incidentalmente nos tratados doutrinários do sufismo, sem que sejam, na maioria das vezes, destacados. No âmbito do comentário contínuo de Qashani, o leitor pode ver delinear-se a própria abordagem da hermenêutica espiritual no Islã: uma leitura da palavra corânica que fecunda uma meditação que, ampliada, elucida significados ainda mais profundos no texto. Talvez então ele consiga discernir melhor no Alcorão — livro “fechado” para muitos leitores ocidentais, apesar de sua aparente simplicidade — os germes da vida espiritual que, há quatorze séculos, enriquecem e vivificam a vida religiosa da comunidade islâmica.