MORA, Fernando. Ibn ’Arabi: vida y enseñanzas del gran místico andalusí. 1. ed ed. Barcelona: Ed. Kairós, 2011.
O Conhecimento como Imperativo Espiritual
O conhecimento é o mais abrangente atributo divino, junto com a misericórdia; o desejo de Deus de ser conhecido é a força motriz da criação, e as coisas não são criadas do nada absoluto, mas vêm à existência segundo o conhecimento eterno que Deus tem delas.
Um dito profético proclama: “Buscai o conhecimento do berço ao túmulo, mesmo na China”; o Alcorão pergunta: “Serão iguais os que têm conhecimento e os que não têm?” (39:9); e afirma: “Vós O abarcais por Tua misericórdia e Teu conhecimento” (40:7)
“O conhecimento de Deus acerca de Si mesmo é idêntico ao Seu conhecimento do cosmos, pois o cosmos é eternamente conhecido por Ele, mesmo que seja qualificado pela não-existência. O universo, por outro lado, é ignorante de si mesmo, pois não existe. Ele nunca cessa de existir, e portanto Seu conhecimento nunca cessa de existir”
O conhecimento salva da idolatria; pode-se dizer que é idólatra quem pretende adorar Deus — ou qualquer outra coisa — sem conhecimento
Ibn Arabi usa os termos conhecimento (ʿilm) e gnose (maʿrifa) intercambiavelmente para se referir ao mais elevado entendimento acessível aos seres humanos, embora prefira o primeiro — correspondente ao grego episteme —, pois é a palavra que aparece no Alcorão; ʿilm situa-se acima de maʿrifa: o conhecedor atinge o conhecimento de Deus por meio de Deus e “é testemunha de Sua divindade e de Sua essência”, sem que nenhum estado se manifeste em sua pessoa; o gnóstico, por outro lado, testemunha seu Senhor por meio de sua própria existência
Tipos de Conhecimento
Os canais do conhecimento variam e os dados obtidos através deles são muito diversos; a apreensão intuitiva da realidade — além da consideração racional — constitui o núcleo da epistemologia akbari.
Dois grandes tipos se distinguem: o conhecimento ordinário derivado das seis faculdades fundamentais — os cinco sentidos e a razão — e a percepção direta proveniente da revelação divina, que recebe vários nomes: abertura, iluminação, desvelamento, gosto íntimo, visão interior
Esse conhecimento intuitivo é inato e não vem de fora; reside nas profundezas do coração, emergindo naturalmente quando o ser humano coloca sua consciência num estado de perfeita receptividade e elimina as impurezas acidentais que mancham o espelho do coração
A disciplina ascética é útil apenas na medida em que contribui para remover os véus que impedem o núcleo mais íntimo do ser de revelar o conhecimento atemporal que já possui: “O perfeito conhecimento deriva apenas da autorrevelação divina, quando Deus remove os véus dos corações e dos olhos, para que possam perceber as coisas eternas e efêmeras, existentes e não-existentes, impossíveis, necessárias ou permissíveis, tal como são, em sua realidade e essencialidade eternas”
“A reflexão não tem outro âmbito senão seu próprio campo de investigação, e é apenas um meio de conhecimento entre muitos outros. Cada faculdade do homem tem um campo restrito de investigação que não pode ultrapassar; quando o faz, incorre em erro”
O Conhecimento do Cosmos
O cosmos precede o eu na ordem da criação e ocupa posição preferencial no desdobramento do conhecimento; a palavra árabe para cosmos (ʿalam) deriva da mesma raiz etimológica que os termos “sinal” e “conhecimento”, pois o cosmos contém indicações que permitem inferir a presença divina.
O Alcorão estabelece a ordem natural: “Mostrar-lhes-emos Nossos sinais nos horizontes e em si mesmos, até que vejam claramente que é a Verdade” (41:53) — os sinais externos são mencionados primeiro para evitar o perigo de absorção no próprio eu e porque não se pode conceber o eu na ausência de relações
No escrito Adorno dos Abdal,
Ibn Arabi explica que o isolamento e a solidão fornecem paradoxalmente o conhecimento do cosmos; em Viagem ao Senhor do Poder, descreve que uma das primeiras conquistas da pessoa que empreende o retiro espiritual é a compreensão das propriedades positivas ou negativas que minerais, plantas e animais atesouam, bem como a confirmação imediata de que todos eles louvam a Deus em sua própria língua
“Nessa estação verifica-se que o conhecimento das mensagens está disperso em todo lugar no cosmos. Nada caminha no cosmos sem carregar, como um mensageiro, sua mensagem. Até os vermes são portadores de uma mensagem para os que entendem”
“Quem se Conhece, Conhece seu Senhor”
A tradição sufi nunca separa o conhecimento do cosmos, de si mesmo e de Deus; eles constituem um campo unificado de entendimento — conhecendo-se a si mesmo, Deus conhece o cosmos, e, conhecendo o cosmos e a si mesmo, o homem tem a possibilidade de conhecer seu Senhor.
Shaykh Ahmad al-Alawi observa: “O que conhece a si mesmo tem uma gnose mais firme do que o que conhece seu Senhor. Quem busca Deus por meio de algo que não seja ele mesmo jamais alcançará Deus”
“A raiz da existência do conhecimento de Deus é o conhecimento do eu. O eu é um oceano sem margens, de modo que seu conhecimento não tem fim. E essa é a propriedade do conhecimento de Deus, que é um ramo dessa raiz”
Meister Eckhart enuncia a mesma verdade: “O olho com que vejo Deus é o mesmo olho com que Ele me vê”
O dito profético não postula a unidade absoluta entre Deus e o eu; não sugere que quem se conhece torna-se Deus, mas que um tipo de entendimento permite inferir o outro; e o “Senhor” que se conhece refere-se a um ou mais dos nomes divinos — o aspecto particular do Deus absoluto que se revela a cada entidade segundo sua capacidade
Uma leitura alternativa do dito profético: “Quem se conhece, conhece seu nome” — isto é, o nome do Senhor que serve, a conexão com a raiz de sua existência ou a qualidade divina que deve trazer ao mundo por meio de suas ações, palavras e intenções
Outra variante hermenêutica: “Quem se conhece, conhece seu nada” — o autoconhecimento acarreta a abolição inevitável da crença de que o suposto eu autônomo mantém uma existência separada de sua fonte original
Abd al-Qadir al-Jilani aponta que o estado final do ser humano deve coincidir com seu estado primeiro — onde era como antes de existir; tal é também a condição própria das aʿyan thabita, as essências dos possíveis, as entidades imutáveis “não-existentes” no conhecimento divino
São João da Cruz exprime o mesmo tema: “Nada, nada, nada, nada e, na montanha, nada”; Miguel de Molinos complementa: “Revesti-vos desse nada, dessa miséria, e tornai essa miséria e esse nada vosso sustento e morada contínuos; garanto-vos que, sendo assim nada, o Senhor pode ser tudo em vossa alma”
A compreensão mística da profissão de fé islâmica: “Não há eu senão Deus”; Abū Bakr al-Jarraz proclama que apenas Deus tem o direito de dizer “Eu”; Reynold A.
Nicholson escreve: “Deus é o único sujeito autêntico”; Meister Eckhart declara: “A palavra 'eu sou' não pode realmente ser dita por ninguém exceto Deus”
“Glória a Ele que Se vela por meio de Sua manifestação e Se manifesta por meio de Seu véu!”; “entra em Meu Paraíso que é Meu véu, e esse véu não é senão tu mesmo, pois és tu que Me ocultas com teu ser. Não posso ser conhecido senão por ti, assim como tu alcanças a existência por meio de Mim”
A Sabedoria Silenciosa
O verdadeiro sábio não esquece que, dada a profundidade e a amplitude ilimitadas da realidade suprema, há tanto o que ele sabe quanto o que não sabe sobre ela; entre os sábios, alguns professam explicitamente a ignorância e outros mantêm um silêncio sagrado que os impede de limitar seu entendimento em qualquer sentido.
Abu Bakr — discípulo predileto do Profeta — e Sócrates professaram abertamente a ignorância como parte de sua sabedoria: “A ausência de uma marca é também uma marca, pois Ele não se distingue de Suas criaturas pela afirmação, mas pela negação de Seus atributos”
“Dentre nós há também os que conhecem verdadeiramente e não pronunciam essas palavras porque seu conhecimento não implica incapacidade de conhecer, mas sim o inexprimível; e são estes que realizam o mais perfeito conhecimento de Deus”
O acesso a essa intuição silenciosa e inefável da realidade é reservado aos chamados selos dos profetas e santos e a seus herdeiros; sua sede é o chamado Nicho das Luzes — expressão referente ao versículo corânico da Luz (24:35): “Deus é a Luz dos céus e da terra […] Luz sobre luz!”
A árvore que “não é do Oriente nem do Ocidente” — nem da manifestação nem do ocultamento, mas que permanece em completo equilíbrio entre o ser e o não-ser — alude ao ser humano perfeito: “A criatura que mais conhece a criação é a que melhor conhece Deus”
O conhecimento de Deus é insondável: “O que não tem conhecimento imagina que conhece Deus, mas isso está incorreto, pois uma coisa só pode ser conhecida pelos atributos positivos de seu próprio ser […]. Glória a Ele que é conhecido apenas pelo fato de que não pode ser conhecido! O conhecedor de Deus não ultrapassa seus próprios limites. Ele sabe que sabe que é um daqueles que não sabem”
A percepção de Deus no espelho humano e do ser humano no espelho divino: “Quando você contempla seu verdadeiro eu, Ele é seu espelho e você é o espelho dEle onde Ele vê Seus nomes e determinações que não são senão Ele mesmo”; “A criatura que vê algo do Real nunca vê nada além de si mesma”