MORA, Fernando. Ibn ’Arabi: vida y enseñanzas del gran místico andalusí. 1. ed ed. Barcelona: Ed. Kairós, 2011.
Adoração: Servidão Essencial e Estabelecida
A noção de adoração (ʿibada) possui implicações ontológicas que transcendem o sentido ritual que normalmente se atribui a essa expressão; Ibn Arabi distingue dois tipos fundamentais: a adoração essencial ou intrínseca, que constitui a própria trama da existência e ninguém tem poder de rejeitar, e a adoração convencional ou estabelecida, derivada dos mandamentos religiosos transmitidos pelos diferentes mensageiros.
O Alcorão declara sem hesitação: “Não criei djins e seres humanos senão para que Me adorem” (51:56);
Ibn Arabi acrescenta: “Toda existência se divide entre adorador e adorado”
Apenas os seres humanos — criaturas dotadas de livre-arbítrio — estão em posição de combinar ambos os tipos de adoração; nem mesmo os anjos são capazes disso, pois nunca desobedecem ao comando de Deus: “Os que estão com teu Senhor O glorificam noite e dia sem cessar” (41:38)
Adorar requer um sujeito adorador e um objeto de adoração; por isso ninguém adora Deus sem imaginá-Lo de alguma forma; nem mesmo Deus pode ver-Se na ausência de um suporte — e esse suporte por excelência é o ser humano perfeito: “O perfeito conhecedor é aquele que contempla, em cada objeto de adoração, uma manifestação de Deus em que Ele é adorado”
Glorificação Essencial
A glorificação essencial — irrevogável, inerente ao próprio fato de existir — é emitida por todos os seres do cosmos, visíveis e invisíveis, animados e aparentemente inanimados, em linguagens incompreensíveis para a maioria dos humanos.
O Alcorão proclama: “Não há nada que não celebre Seus louvores, mas vós não compreendeis a glorificação deles” (17:44); e também: “Tudo o que está nos céus e na terra glorifica Deus” (61:1; 62:1)
William C.
Chittick explica: “As flores glorificam-No como o Senhor do sol, da terra e da chuva, enquanto as abelhas O glorificam como o Senhor das flores. Pessoas O glorificam como o Senhor de suas aspirações e desejos, quaisquer que sejam. Apenas os seres humanos perfeitos glorificam Deus como Deus — ou seja, mencionando todos os nomes divinos. Essa glorificação perfeita abarca e inclui as glorificações de todas as coisas”
Até as essências dos possíveis — “que em seu estado de não-existência são vistas e não-vistas, ouvidas e não-ouvidas, através de uma visão imutável e uma audição imutável, desprovidas de existência” — exaltam Deus com louvores sem começo
Ibn Arabi equipara glorificação e incomparabilidade, pois a fórmula “Glória a Deus” no Alcorão é sempre seguida da negação de qualquer semelhança com as coisas criadas: “Glória a Deus, Que está acima do que Lhe atribuem” (23:91; 37:159)
Natureza Primordial (Fitra)
A fitra — natureza primordial — é uma luz que cliva a unidade indiferenciada da existência, distinguindo as entidades umas das outras; é a natureza virginal, desprovida de conceitos e julgamentos, capaz de testemunhar diretamente as coisas como são.
Um dito profético sustenta: “Todas as crianças nascem dotadas da natureza primordial; depois seus pais as tornam judias, zoroastristas ou cristãs”
Ibn Arabi remonta essa natureza primordial ao tempo da Aliança original entre Deus e as criaturas (7:172): “A fé original é a natureza primordial segundo a qual Deus criou a humanidade. Ela significa o testemunho de Sua unicidade no momento da Aliança. Assim, ao nascer, toda criança respeita essa Aliança. Porém, quando cai pelo corpo aos confins da natureza — o lugar do esquecimento —, torna-se ignorante e esquece o estado que desfrutava quando estava com seu Senhor”
Sem a adoração essencial, a adoração adquirida seria desprovida de sentido; Dhu'l-Nun o Egípcio adverte: “Se não fostes confirmados no sincero reconhecimento da Unicidade de Allah, antes de serdes criados, a chamada a Allah não vos será de nenhum benefício”
Religião Essencial
A religião essencial é a submissão (Islam), enquanto a religião criada é a sustentada por aqueles que adoram o Deus criado na crença; entre as duas não há contradição, mas elas operam em planos distintos.
O ideal do puro unitarista (hanif) está arquetipicamente ligado à figura de Abraão, visto como o destruidor de ídolos — especialmente o ídolo do próprio ego sobre o qual todos os outros repousam
“Há dois tipos de religião: a religião de Deus, daqueles a quem Deus ensinou Sua religião; e a religião das criaturas, que Deus reconhece. A religião de Deus é a que Ele escolheu e estabeleceu em um nível muito superior à religião da criação”
A submissão genuína é o reconhecimento da falácia de uma existência desligada de sua raiz primeira; é uma profunda paradoxo que a autêntica liberdade do servo incondicional de Deus consiste em não servir nada nem ninguém exceto a verdade, não temendo nenhuma pessoa ou coisa senão Deus
O Mundo da Ordem e o Mundo da Criação
O mundo da ordem (ʿalam al-amr) designa o domínio não-manifesto da realidade, enquanto o mundo da criação (ʿalam al-khalq) representa a transformação do único comando divino nas diversas entidades espirituais, imaginais e sensoriais que compõem o cosmos.
O Alcorão estabelece a divisão: “Não são Seus a criação e a ordem?” (7:54); o mundo da ordem abarca os primeiros quatro princípios de manifestação — substância universal, natureza, alma universal e primeiro intelecto — sendo a localização dos espíritos puros e dos significados desligados de qualquer substrato; é o mundo da luz pura
“Nosso comando é apenas uma única palavra, tão instantânea como um piscar de olhos” (54:50); se o comando divino é único, instantâneo e luminoso, a criação é diversa, sucessiva e inscrita no tempo
Do mundo da ordem deriva o bem; qualquer mal deve ser atribuído à esfera do devir; no domínio da criação prevalece a misericórdia específica (rahim) ou misericórdia de obrigação, que recompensa o positivo em detrimento do negativo
Ibn Arabi vincula o mundo da ordem ao entendimento alcançado pelo sábio que conhece Deus por meio de Deus, em contraste com a auto-realização do mundo da criação, onde habita o gnóstico que conhece seu Senhor por meio de si mesmo
A Oração Islâmica (Salat)
A oração não é apenas a prática básica que resume as obrigações religiosas no Islam, mas um microcosmo, uma síntese dos reinos naturais que compõem a criação — é o universo inteiro que ora por meio do corpo e da mente do adorador.
A ablução (ghusl) precede a oração e constitui uma profunda purificação conceitual que visa restaurar o ser humano ao seu estado original; ao mesmo tempo que cada área do corpo é umedecida com água terrena, a faculdade racional deve ser purificada com água celestial para que desate os “nós” conceituais com que tenta refrear o fluxo imparável da realidade
Os movimentos da oração — posição ereta (qiyam), inclinação (rukuʿ), prostração (sujud) e sentado (julus) — carregam simbolismo profundo: a posição ereta corresponde à condição humana; a inclinação em ângulo reto simboliza o estado animal; a prostração completa refere-se às plantas e à busca pela raiz; a postura sentada simboliza a máxima imobilidade e o estado de mineralidade
A oração começa com o takbir — “Allah é o maior” (Allahu akbar!) —, proclamação de incomparabilidade que constitui a recusa absoluta de fazer um ídolo daquilo que está além de toda representação e não-representação;
Ibn Arabi comenta: “Joga por trás de ti o que te foi concedido em cada teofania […] reclama um novo dom e uma luz ainda maior, para que não cesse de brilhar. A efusão divina emana perpetuamente da fonte de Sua generosidade”
A prostração é o clímax da adoração; Shaykh Ahmad al-Alawi observa: “Antes da prostração o Gnóstico tinha a estatura ereta da existência, mas após sua prostração tornou-se extinto, apagado em si mesmo, e eterno em seu Senhor”
O Alcorão vincula prostração e proximidade: “Prostra-te e aproxima-te” (96:19); a postura sentada representa o máximo ponto de equilíbrio entre Céu e Terra, entre espírito e corpo — e é de onde o adorador, após pacificar-se, confere paz a todos os seres
Ibn Arabi explica a prostração do coração — alcançada por Sahl al-Tustari quando tinha apenas seis anos —: “Quando o coração se prostra, nunca mais se levanta, pois sua prostração é aos nomes divinos — não à essência —, pois são os nomes divinos que o fazem um coração”
A Lembrança de Deus (Dhikr)
O dhikr — lembrança dos nomes divinos — é considerado a principal obra supererrogatória; na forma mais comum, a repetição de um dos noventa e nove nomes divinos constitui a prática mais amplamente utilizada.
Ibn Arabi relata: “Aquele Nome (Allah) foi o dhikr que pratiquei e foi o usado pelo mestre diante do qual entrei na Via. O mérito dessa invocação é maior do que todos os méritos de outras formas de invocação. Produz no coração um efeito sublime que nenhuma outra fórmula de invocação produz”
O Alcorão adverte: “Lembrai-Me, e Eu vos lembrarei” (2:152); e: “Não sois como aqueles que se esquecem de Deus e Ele os faz esquecer de si mesmos” (59:19) — quem se lembra de si mesmo também se lembra de Deus, produzindo uma homologia completa entre os dois tipos de evocação
Bayezid al-Bistami (m. 874) proclama: “A separação é a pátria da lembrança”; e
Ibn Arabi acrescenta: “O nome deve dissolver-se no nomeado […] porque os estados não têm fim”
Na elucidação do nome divino Rahim (o Compassivo),
Ibn Arabi explica: “Os que estão velados em sua crença pedem a Deus que tenha misericórdia deles, enquanto os que são verdadeiramente inspirados pedem que a misericórdia divina não lhes seja retirada” — o sábio não tanto pede compaixão quanto aspira a transformar-se em compaixão
O Exame de Consciência
A prática do autoexame (muhasabat al-nafs) possui longas raízes que remontam aos filósofos estoicos, passaram pelos primeiros cristãos e foram sistematizadas no Islam por Hasan de Basra (m. 728), al-Harit al-Muhasibi (m. 857) e Abu Hamid al-Ghazali.
Ibn Arabi recebeu o método em Sevilha de Abu Abd Allah b. Qassum (m. ca. 1209), que por sua vez o recebeu de Ibn Mujahid (m. 1178) — ambos pertencentes ao gênero das pessoas da reprovação (malamiyya)
Ibn Arabi relata a prática de seus mestres: “Tinham o costume de fazer um balanço do que diziam e faziam e de anotá-lo num caderno. Após a oração da tarde iam a suas casas para pedir contas. Tomavam o caderno e examinavam quais tinham sido suas ações e palavras ao longo do dia […]. Fui mais longe do que eles; também anotei meus pensamentos”
O Retiro Espiritual
O retiro espiritual é apenas um meio provisório e nunca um fim em si mesmo para aprofundar a jornada que conduz da mera evocação mental à autêntica presença divina; a solidão absoluta não se enquadra no horizonte espiritual akbari.
Ibn Arabi aborda o tema em diversas obras: Viagem ao Senhor do Poder (também conhecido como “Epístola das luzes”), vários capítulos das Iluminações da Meca (capítulos 78, 79 e 205) e o manuscrito O Livro do Retiro (Kitab al-jalwa)
“Todo buscador de seu Senhor deve estar sozinho com seu Senhor em sua consciência mais íntima […]. Aquele que entra em retiro espiritual com Deus faz isso apenas por essa razão, pois a dimensão interior do homem é a verdadeira cela de seu retiro”
A duração habitual do retiro é de quarenta dias — período que possui profundo significado na tradição monoteísta: Moisés passou quarenta noites preparando-se para o encontro com seu Senhor (7:142); o corpo de Adão esperou o mesmo período antes de receber o Sopro do Clementíssimo; Muhammad não começou sua pregação até os quarenta anos; Maria estava num desses retiros quando recebeu a boa nova do arcanjo Gabriel (19:16-17)
Ibn Arabi adverte contra práticas extremas de auto-negação: “A 'renúncia' às coisas só pode ocorrer por ignorância e falta de conhecimento de quem renuncia. Se soubessem ou testemunhassem que o cosmos inteiro fala para glorificar e louvar seu Criador, como poderiam renunciá-lo quando ele está dotado dessa qualidade?”
Dois compromissos inevitáveis quanto ao objetivo último do retiro: nada no cosmos é comparável ao próprio Deus; e buscar dEle nada além dEle mesmo — não os dons e experiências que possa oferecer, mas apenas Ele: “A verdade se revela apenas àquele que removeu seus rastros e perdeu até seu nome!”