ORNAMENTO DOS ABDAL

Valsan

Apresentação

Ornamento dos Abdâl (Hilyatu-l-Abdâl) é um dos numerosos pequenos escritos de Muhy ed-Dîn Ibn Arabi, datando da primeira metade de sua vida, mas de uma época em que o Mestre já se havia manifestado como Selo da Santidade muhammadiana (Khatamu-l-Wilâyati-l-muhammadiyya), expondo de forma sucinta o essencial de seu ensinamento sobre os meios fundamentais do trabalho espiritual.

Ornamento dos Abdâl

O tratado tem sua origem numa dupla inspiração — a do companheiro Abdu-l-Majîd ben Selmah e a do próprio Muhy ed-Dîn — e foi redigido na noite de segunda-feira, 22 do mês de Jumâdâ-l-Ulâ, no ano 599 da Hégira, na localidade de El-Mâyah a Tâif, por ocasião de uma visita piedosa ao túmulo de Abdallah Ibn Abbâs, primo do Profeta.

O núcleo doutrinário do tratado estabelece a distinção fundamental entre Autoridade (hukm), fruto da Sabedoria (hikma), e Ciência (al-'ilm), fruto do Conhecimento (al-ma'rifa), ao mesmo tempo que hierarquiza as diferentes categorias de homens espirituais segundo sua relação com Allâh.

A origem narrativa das quatro regras fundamentais remonta ao encontro sobrenatural vivido por Abdu-l-Majîd ben Selmah, imâm khatîb da Marchena nos arredores de Sevilha, com um ser que penetrou em seu quarto fechado e lhe entregou uma esteira, declarando que os Abdâl chegam a ser o que são “pelos quatro que mencionou Abû Tâlib (al-Makkî) na 'Alimentação (dos Corações)': o silêncio, a solidão, a fome e a vigília.”

A — O Silêncio (as-samt)

O silêncio se apresenta sob dois aspectos complementares e hierarquizados: o silêncio da língua, que consiste em abster-se de falar de outro modo que não seja por Allâh ou com outro que Allâh, e o silêncio do coração, que consiste em rejeitar todo pensamento surgido na alma e tratando de coisas criadas.

B — A Solidão (al-'uzla)

A solidão constitui um meio de assegurar o silêncio da língua, pois quem se afasta dos homens e não tem ninguém com quem conversar é naturalmente levado a renunciar às palavras, ao passo que o silêncio do coração não decorre necessariamente do isolamento, o que justifica considerar o silêncio como regra independente da via.

C — A Fome (al-jû')

A fome é a terceira regra fundamental dessa via divina e implica a quarta regra — a vigília —, da mesma forma que a solidão comporta o silêncio; ela pode ser de iniciativa livre (ikhtiyârî), que é a fome dos sâlikûn, ou de força maior (idtirârî), que é a fome dos muhaqqiqûn, cujo consumo alimentar decresce naturalmente quando se encontram na condição de Intimidade divina (maqâm al-Uns).

D — A Vigília (as-sahar)

A vigília é fruto da fome, pois o vazio do ventre afasta o sono; ela se apresenta em dois aspectos — a vigília do coração e a vigília do olho — e sua utilidade reside na manutenção da atividade do coração e, por isso, na progressão em direção aos graus superiores guardados junto a Allâh o Sublime.

Quadro Recapitulativo e Conclusão

As quatro regras fundamentais — silêncio, solidão, fome e vigília — constituem os pilares e suportes dessa nobre via, cujo fruto integral é uma transmutação da natureza humana em natureza angélica, com a conversão da servidão em senhoria, da inteligência ('aql) em faculdade intuitiva (hiss) e a manifestação do invisível (ghayb) enquanto shahâda.