4. LIBERDADE E INTENSIDADE

CJAE

Atividade e movimento significativo

O ato de ser não é um acidente, mas o princípio constitutivo das coisas — o foco real de sua realidade —, determinando o devir concreto da coisa sem se confundir com o conceito abstrato universal do ser, que não passa de uma existência simplesmente pensada, incapaz de alcançar qualquer espontaneidade concreta e viva.

A essência luminosa

Ao se pluralizar, a luz do ser recebe qualificações — expressando a intensidade da luminescência, que é a potência da efetividade —, e a conversão do múltiplo ao uno é intensificação da realidade, libertação dos limites, retorno à fonte livre da instauração.

O contemplativo privilegia o ponto de vista do real: ele conhece os graus monádicos como manifestações pluralizadas segundo suas aptidões e receptividades particulares, percebendo “jorramentos da luz efetivamente real e necessária”.

O espelho das aparições

Há dois pontos de vista sobre as quididades que permitem generalizar o modelo do espelho: as quididades são os espelhos do ato de ser do real divino, de seus nomes e atributos; e o ato de ser do real é o espelho das quididades, pois elas aparecem nele, sendo os concomitantes de seus nomes e atributos.

O ato de ser é sujeito

O ato de ser é sujeito — princípio de toda subjetivação —, na medida em que é esse “si” que se reflete imediatamente em si, essa existência que é primeiramente existência de si e não precisa de nada mais para ser si, sem fundamento exterior, sem outra origem que a própria efusão.

O ceticismo do ser

O termo tashkik — “analogia” ou “modulação” — deriva de uma raiz cujo sentido principal é duvidar, suspeitar, e significa literalmente “ceticismo”, uma suspensão da crença, mas possui também o sentido de “dispor em série”, designando a gradação pela qual o ato de ser se modula ao longo de seus graus.

A história do ser

Há uma história do ser: a temporalidade do existente é uma propriedade do que ele possui de mais intimamente constitutivo — uma temporalidade interior puramente intensiva que testemunha o movimento interior e atesta a prioridade de certos estados substanciais, arrastando por sua vez certos acidentes.

Liberdade e conexão

O ato de ser possível é necessitado a ser pelo ato de ser eternamente necessário do qual procede — e como ambos, o necessário e o possível, são a fonte e a efusão de uma só e mesma série processiva, eles são um só e mesmo ato de ser, dito de forma unívoca; mas o Necessário, sendo fonte infinita, sem causa, instaurado por si, se distingue do possível, que é “em conexão” ou “ligado”.

Conclusão: os esquemas do real

Sadra identificou o real ao ser, sendo fiel à intuição da unidade fundamental do ato de existir — wahdat al-wujud —, e expõe três graus de existencialidade que não formam três tipos de existentes separados, mas três momentos da constituição de toda realidade.