2. LUZ DO SER

CJAE

Ser é o nome do real

O ato de ser constitui a realidade mais efetiva de todas as coisas, pois tudo o que possui realidade a obtém exclusivamente por meio dele, sendo a quididade — o “o quê” formal da coisa — apenas sua sombra, sem realidade própria.

A principal crítica dirigida a Sohravardi e aos filósofos da primazia da quididade consiste em que estes transformaram o ato de ser em mera abstração, esquecendo que ele é o próprio ato de constituição da realidade.

O vocabulário da instauração, próximo ao de Ibn Arabi, é central: o instaurador é ato de ser puro e infinito, e o ato de ser concreto, segundo em relação a essa infinidade divina, é sempre determinado e posto no passivo — instaurado — sendo o espelho da atualidade que nele se exprime.

A contemplação do real

O ato de ser não pode ser representado por definição, descrição ou forma congruente, pois sua apreensão ocorre exclusivamente pela contemplação pura — visão pelos próprios olhos — e não pela compreensão da abstração intelectual.

A contemplação — al-moshahada — implica a coincidência entre o ser que percebe e o ato de ser percebido, suprimindo a distância característica do conhecimento representativo.

Fluxo, hierarquia e diferença

O ato de ser se desdobra em graus que formam uma estrutura hierárquica — expressão da ascensão ao ser e da via negativa — abrangendo a hierarquia da natureza, das almas, das Inteligências e dos três mundos: sensível, imaginal e inteligível.

O ato de ser não possui gênero e, portanto, não pode ter contrário — dois contrários se opõem apenas se caem sob um gênero único — e a diferenciação entre atos de ser ocorre fora de toda contrariedade ou contradição.

O não-ser é envolto pelo ser: as negações, as qualificações contraditórias, convergem para a unidade do ser, e o não-ser, longe de contradizer o ato de ser, sublinha sua identidade com tudo o que é real.

O ser em expansão

O ato de ser se define positivamente como expansão, extensão e fluxo — expressão herdada do vocabulário de Sadroddin Qunawi — e sua compreensão das coisas não opera como o universal que inclui os particulares, mas como um fluxo que se estende sobre os “templos das quididades”.

O fluxo do ser é o que Sadra nomeia movimento substancial — não um movimento que afeta as substâncias de modificações extrínsecas, mas a moção transformante que afeta sua própria substancialidade.

Deus é a pura intensidade do existir

Deus é o puro ato de ser — a infinidade da intensidade como tal — sem quididade, definido como “o puro ato de ser, tal que não haja mais perfeito do que ele”, sendo a eminente perfeição identificada à confirmação intensa no ser.

O estatuto das quididades

Entre o ato de ser e a quididade existente por ele há uma correlação puramente intelectiva — não um companheirismo acidental — sendo o ato de ser o fundamento da realização efetiva, e a quididade seu seguimento, não como o existente segue o existente, mas como a sombra segue o indivíduo.

O ato de ser não é substância nem acidente — cada um dos dois é modelo para uma quididade universal — e, sendo singular por si mesmo e atualizado por si mesmo, ele não pode ser subsumido sob a categoria da substância sem gerar contradição.

Crítica da ilusão transcendental

A ilusão transcendental que acomete os filósofos modernos — aqueles que pensam nas vias decididas pelo avicenismo — consiste em representar uma quididade existente antes de seu próprio ato de ser, seja negando o princípio de derivação e substituindo-o pelo vínculo de concomitância, seja reservando-o ao que está além do ato de ser, entre os atributos.