APERFEIÇOAMENTO DE SI

CJAE

A ciência natural da alma converte-se em ciência sobrenatural que prepara a contemplação metafísica, e o devir póstumo da alma — objeto de uma filosofia da ressurreição corporal e espiritual — é iluminado pela doutrina clássica do intelecto em ato, que Sadra amplia até descortinar o panorama inteiro do existente.

O conhecimento da alma permite transpor essa barreira e aceder à existência pura, razão pela qual ela é a “mãe da sabedoria” e o fundamento da felicidade, revelando o fim da metafísica: apreender a separação do homem em relação à matéria e sua sobreexistência, que é uma só coisa com a certeza.

No prólogo dos Quatro Viagens Espirituais, Sadra propõe uma definição sintética da filosofia que a torna sinônimo de sabedoria, concebendo-a como aperfeiçoamento da alma humana pelo conhecimento das realidades efetivas dos existentes.

O objeto da filosofia primeira é o existente enquanto existente, fiel a Aristóteles e a Avicena, e conhecer a essência efetiva do existente é conhecer o ato de existir que torna necessária uma certa quididade, pois sem a existência a quididade nada seria.

Esse conhecimento repudia a opinião e o assentimento cego — dois aspectos de uma mesma ignorância —, e as provas do metafísico são de duas ordens: a via do intelecto e a via da iluminação recebida das luzes do trono divino.

A atividade silogística submete-se à iluminação e nela encontra sua mais alta confirmação, e a doutrina da iluminação em Sadra — herança direta da sabedoria “oriental” de Sohravardi — não é irracional, mas síntese da aptidão mística e do conhecimento inteligível.

Sem o conhecimento “presencial” a metafísica seria simplesmente impossível, e Sadra distingue três modos de conhecimento: a coisa que se revela por si mesma em sua ipseidade concreta, a coisa conhecida pela ciência da essência separada em sua ipseidade real, e a coisa conhecida apenas por sua forma abstrata reproduzida na inteligência.

Liberdade, existência e conhecimento de si por si — temas de sabor estoico — definem o campo de uma iluminação onde o sujeito se conhece em sua presença a si, e é esse conhecimento que torna possível a metafísica como apreensão do ato de ser na unidade do ato de conhecer.