ONTOLOGIA E TEOLOGIA

CJAE

Sadra raramente define com clareza, em texto específico, a finalidade da metafísica, e as páginas anteriores deixam na sombra questões fundamentais: a relação entre sabedoria e metafísica, a identidade do objeto privilegiado da metafísica, e o modo como ontologia e teologia se articulam em seu sistema.

Sadra retoma as definições de Sohravardi para esclarecer a relação entre sabedoria e filosofia, distinguindo a sabedoria teórica — de mais vasta extensão — da filosofia primeira, que se paracheva em “sabedoria oriental,” união da metafísica e da gnose iluminativa.

A distinção entre sujeito e objeto da pesquisa metafísica — ensinada por Avicena em texto célebre — é o ponto de partida para esclarecer a questão do objeto da metafísica, sendo o sujeito o existente enquanto existente e o objeto Deus e as Inteligências.

Para esclarecer o estatuto da questão, é necessário retomá-la em sua origem no gesto fundador de Avicena, que elucida o discurso de Aristóteles ao iniciar sua Metafísica — chamada de modo eloquente Divinalia — tendo em vista as condições específicas de sua leitura muçulmana.

Avicena interroga-se sobre a definição recebida da metafísica e desloca seus termos: ela vale sem dúvida para o objeto, mas não para o sujeito da metafísica, pois o ser de Deus não pode ser incontestablemente aceito como ponto de partida — ele é um fim, um objeto de pesquisa.

A via lógica de Avicena para exibir o existente como sujeito da metafísica parte da proposição “as causas são existentes” e culmina em “o existente é a significação comum aos sujeitos das ciências particulares,” movimento que Sadra aceitará no quadro do avicenismo, contestando-lhe porém as teses fundamentais.

O termo “onto-teologia” é considerado muito obscuro e impróprio para designar o vínculo entre ontologia e teologia em Avicena e Sadra, pois ontologia e teologia são arcos distintos e complementares de um mesmo círculo — e sua unidade é a da proposição fundamental “não há ser senão em Deus.”

A atividade emanadora da soberania divina será o próprio ser — concebido não mais como ser comum, mas como intensidade do real procedendo de sua fonte na hierarquia dos mundos —, e o conceito de movimento substancial fundará a possibilidade de pensar juntos a fonte e os derivados, Deus e o existente.