ORDEM E SEMELHANÇA

CJAE

A metafísica é a descoberta da ordem da criação emanada do mundo do ordem, e seu discurso constitui a via régia da imitação de Deus, integrando a guerra que a inteligência trava contra os inimigos divinos — os desejos animais e satânicos — em direção à paz suprema da obediência esclarecida.

A rebelião contra as trevas do mundo tem como desejo íntimo o restabelecimento da ordem mais perfeita, e o gnóstico ou metafísico — profundamente entristecido pelo desordem das “cidades corrompidas” — não oferece remédio necessariamente político, mas busca uma salvação pessoal que seria o fermento de uma metamorfose coletiva.

A revolução existencial — assim nomeada por Sadra — é a esperança razoável da humanidade e vive no coração de sua metafísica escatológica, mas é difícil, pois os homens são em sua grande maioria esquecidos e negligentes.

A ordem real é recusada por aqueles mesmos que padecem de sua privação, e a cidade ideal não pode ser realizada na história — a Ideia permanece apartada de suas imitações sensíveis —, de modo que a recusa do desordem do mundo se cumpre apenas no segredo dos corações pela assunção da ordem verdadeira.

Não existe outra política que a imamologia e a escatologia, pois a política é substituída pela própria gnose, de sorte que a metafísica — discurso da ordem dos mundos — é a autêntica teologia política.

A filosofia, por desvelar a ordem do mundo, é imitação do Criador — instauração de uma “semelhança” com seu próprio ato de criar, seu Imperativo —, e a fonte dessa destinação encontra-se em Kindi.

Entre os exercícios de purificação da alma e os conhecimentos pelos quais se acede aos graus das realidades imateriais institui-se uma dialética, e a noção que os federe é a da obediência a Deus, comentada por Sadra a partir de um dito do Imã.

A oposição fundamental entre trevas e luz motiva uma série de práticas que constituem a sabedoria: purificação, educação moral, conversão — revolução interior —, e disciplina — aquisição da verdadeira cultura de si.

A revolução de si é purificação de si e, ao mesmo tempo, despojamento que imita o despojamento operado sobre as representações de Deus para atingir sua unidade transcendente, e essa conversão não é senão uma só coisa com o conhecimento — exigindo um mestre que é Deus mesmo ou o “sábio senhorial.”