CJAE
A sabedoria — hikma — tal como Sadra a concebe no prólogo de A origem e o retorno, é simultaneamente saber integral dos existentes a partir de seu princípio e obtenção de uma vida divinizada, constituindo uma revelação tríplice que desvela as realidades das coisas, manifesta Deus na sabedoria humana e abre aos homens o caminho do autoconhecimento e da liberdade.
A sabedoria abrange as realidades desde as Inteligências imateriais até as substâncias sujeitas à geração e à corrupção.
Deus, em seu ser que se identifica à sua ciência, manifesta-se na sabedoria humana, onde são experimentadas as epifanias de seus nomes mais belos.
A gnose é transfiguração do sujeito pela atualização de suas mais altas potencialidades, que não se encerram nas promessas deste mundo, mas portam perfeições sobrenaturais — a constituição do corpo de ressurreição no além e a ascensão em direção às realidades inteligíveis angélicas.
A sabedoria é um devir angélico do homem.
O ponto de partida da metafísica é o existente enquanto existente, mas sua finalidade é a sabedoria integral que revela Deus em cada coisa, de modo que a sabedoria envolve e transborda a metafísica como um círculo que exprime seu próprio foco gerador.
Deus é a origem de dois conhecimentos congruentes: as demonstrações intelectuais e as opiniões transmitidas pela tradição religiosa.
A fonte comum da prática filosófica e do conhecimento religioso é a inteligência agente, identificada ao arcanjo Gabriel.
O “tabernáculo das luzes” da profecia é a providência do contemplativo.
A unidade entre verdade da fé e verdade da inteligência é a da revelação divina, que se realiza igualmente por essas duas vias.
A sabedoria integral, teórica e prática, compreende tanto a tradição religiosa fundada no livro sagrado e nas exegeses dos Imãs quanto a sabedoria filosófica culminante na intuição espiritual e na transformação de si, de modo que os cânones da sabedoria e os princípios religiosos mostram-se conformes entre si.
A sabedoria é exegese da fé, enquanto o conteúdo oculto dos ditos dos Imãs e das revelações proféticas se explicita no discurso da metafísica.
A inteligência é saber, presença e intuição do ser, excedendo largamente as representações formais do entendimento e do pensamento discursivo.
A tradição religiosa oferece ao fiel iniciado as manifestações do ser absoluto nos versículos corânicos e em sua hermenêutica inspirada do trono divino.
O fim da sabedoria é a obtenção da felicidade — ideal grego claramente atribuído por Aristóteles à existência humana —, e Sadra sustenta que o homem não é um animal político nem, em sua natureza profunda, um animal qualquer, mas um ser feito para a contemplação.
A busca da felicidade está na natureza mesma do homem, iluminando sua forma e seu fim, sendo a recompensa da atividade contemplativa.
A alma humana começa seu desenvolvimento nos graus mais humildes da matéria e percorre todos os graus dos mundos, desde a existência elementar até a imaterialidade pura.
A vida prática do homem ilumina-se de sua vida contemplativa, e esta última completa a primeira.
A felicidade perfeita identificada ao conhecimento perfeito não é um simples lugar-comum da sabedoria antiga, mas a decisão fundadora do espírito ocidental, que tornou possível tanto o desenvolvimento das ciências quanto a busca da vida santa na renúncia ao mundo.
A potência contemplativa — inteligência teórica — deve passar do estágio de intelecto material ao de intelecto em ato, graças às iluminações do intelecto agente, e assim as ciências da natureza, as disciplinas matemáticas e, no mais alto grau, a metafísica nascem e progridem até seu acabamento em um saber total.
As ciências desvelam as formas dos existentes e conduzem a uma certeza experimentada — a um conhecimento da presença mesma do existir.
Os conhecimentos são plenamente gnoses, pois são a prova da unidade profunda entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido.
A certeza em Deus e por Deus é peregrinação que engendra a existência concreta do homem, conferindo-lhe um sentido sublime além das contingências da vida sensível.
A metafísica é uma conversão da alma e uma purificação ética cujo polo é o templo espiritual — não o templo material —, onde o segredo da revelação profética revela-se ser o segredo da ciência, e onde tornar-se semelhante aos “anjos aproximados” equivale a converter-se ao ser.
A alma humana é incapaz de atualizar todos os ramos do saber a causa de seu enraizamento no corpo, razão pela qual a busca metafísica constitui uma tarefa infinita e uma peregrinação sempre recomeçada, indissociável do conhecimento da alma.
Nesta vida, o homem não está desligado da matéria corporal — o princípio mesmo de toda obscuridade e de todo erro.
A ciência da alma é a mais elevada das ciências naturais, mas não parte da metafísica.
O ditado “quem se conhece a si mesmo conhece seu Senhor” justifica que o autoconhecimento reflita o conhecimento do ser.
Avicena havia feito do desvelamento de si a própria experiência da existência.
Segundo Sadra, o autoconhecimento é uma exegese de si que conduz à proximidade de Deus e à descoberta da própria natureza espiritual da alma, descrita como “verbo luminoso,” “essência espiritual” e “chama do Malakut,” de modo que o fim da metafísica é iluminar o devir da alma e prepará-la para assemelhar-se às substâncias angélicas.
A alma, sendo um “verbo,” pertence de direito ao reino dos existentes inteligíveis, onde se exprime o Verbo divino.
Essência espiritual, a alma é de natureza angélica; chama do Malakut, é uma centelha do mundo inteligível.
Nela refletem-se os dois mundos superiores ao da natureza sensível — o mundo psíquico e o mundo angélico —, formando seus nascimentos superiores.
A alma humana não é material, ao menos em suas faculdades superiores: a imaginação é homologada ao Malakut e a inteligência ao Jabarut.
O fim da metafísica é tirar todas as consequências do fato de que “a alma não morre com a morte do corpo” e preparar o aperfeiçoamento pelo qual a alma se reconcilia com sua verdadeira natureza.