VIDA DIVINIZADA

CJAE

A sabedoria — hikma — tal como Sadra a concebe no prólogo de A origem e o retorno, é simultaneamente saber integral dos existentes a partir de seu princípio e obtenção de uma vida divinizada, constituindo uma revelação tríplice que desvela as realidades das coisas, manifesta Deus na sabedoria humana e abre aos homens o caminho do autoconhecimento e da liberdade.

O ponto de partida da metafísica é o existente enquanto existente, mas sua finalidade é a sabedoria integral que revela Deus em cada coisa, de modo que a sabedoria envolve e transborda a metafísica como um círculo que exprime seu próprio foco gerador.

A sabedoria integral, teórica e prática, compreende tanto a tradição religiosa fundada no livro sagrado e nas exegeses dos Imãs quanto a sabedoria filosófica culminante na intuição espiritual e na transformação de si, de modo que os cânones da sabedoria e os princípios religiosos mostram-se conformes entre si.

O fim da sabedoria é a obtenção da felicidade — ideal grego claramente atribuído por Aristóteles à existência humana —, e Sadra sustenta que o homem não é um animal político nem, em sua natureza profunda, um animal qualquer, mas um ser feito para a contemplação.

A felicidade perfeita identificada ao conhecimento perfeito não é um simples lugar-comum da sabedoria antiga, mas a decisão fundadora do espírito ocidental, que tornou possível tanto o desenvolvimento das ciências quanto a busca da vida santa na renúncia ao mundo.

A potência contemplativa — inteligência teórica — deve passar do estágio de intelecto material ao de intelecto em ato, graças às iluminações do intelecto agente, e assim as ciências da natureza, as disciplinas matemáticas e, no mais alto grau, a metafísica nascem e progridem até seu acabamento em um saber total.

A metafísica é uma conversão da alma e uma purificação ética cujo polo é o templo espiritual — não o templo material —, onde o segredo da revelação profética revela-se ser o segredo da ciência, e onde tornar-se semelhante aos “anjos aproximados” equivale a converter-se ao ser.

A alma humana é incapaz de atualizar todos os ramos do saber a causa de seu enraizamento no corpo, razão pela qual a busca metafísica constitui uma tarefa infinita e uma peregrinação sempre recomeçada, indissociável do conhecimento da alma.

Segundo Sadra, o autoconhecimento é uma exegese de si que conduz à proximidade de Deus e à descoberta da própria natureza espiritual da alma, descrita como “verbo luminoso,” “essência espiritual” e “chama do Malakut,” de modo que o fim da metafísica é iluminar o devir da alma e prepará-la para assemelhar-se às substâncias angélicas.