“Se rendre immortel suivi du “Traité de la résurrection” par Mollâ Sadrâ Shîrâzî”, Fata Morgana, 2000
A metafísica da intensificação e o movimento intrasubstancial
A teoria da intensividade e a destinação angélica
A metafísica do Tratado da Ressurreição estrutura-se integralmente como uma teoria da intensidade baseada na exaltação contínua dos atos de ser.
O objetivo primordial consiste em oferecer ao homem, e aos reinos que nele se encerram, uma destinação angélica denominada paraíso dos aproximados.
Nessa finalidade, a ascensão infinita em direção ao Um corresponde à processão de todo existente a partir da mesma fonte unitária.
O sujeito inscreve-se em um fluxo universal de metamorfoses que representam a intensificação do finito pelo infinito.
A filosofia de Mollâ Sadrâ integra o finito no infinito, situando-se na tradição de pensadores como Spinoza, Leibniz, Schelling, Bergson, Ibn Arabi e os filósofos da iluminação.
Cada realidade aparentemente finita supera seu limite para revelar, gradualmente, uma mônada de infinito.
O Real como intensidade pura e superação da finitude
Promove-se no Um não a figura de uma totalidade de finitudes, mas o Real que ultrapassa qualquer determinação ou unificação finita.
O Um representa a intensidade máxima e o ser tornado intensidade pura, liberto de todas as nomeações e atribuições limitadoras.
Tal concepção aproxima-se da intuição de Sohravardi sobre a Luz das Luzes e da ahadîya de Ibn Arabi, a unicidade superior ao seu próprio desdobramento.
O movimento intrasubstancial e a metamorfose da substância
A intensificação exige que cada coisa cresça qualitativamente e altere seu fundamento na unidade.
A própria substância sofre a metamorfose, sendo ontologicamente distinta do sujeito material de sua transformação.
Esse fenômeno é definido por Mollâ Sadrâ como movimento intrasubstancial (haraka jawhariya), que permite o retorno à raiz do Real.
O movimento autoriza a conversão dos diversos modos de substancialidade que afetam o ser em sua busca pelo infinito immanente.
Unidade do conhecimento e autorreflexão do espírito
O conhecimento identifica-se com a própria subjetividade em movimento, seguindo o princípio da unidade entre o sujeito que conhece, o objeto conhecido e o ato de conhecer.
Quem conhece a si mesmo conhece o seu senhor, pois o Real conhece a si próprio como senhor no ato em que cada existente traduz seu grau de ser.
O sujeito atua como o senhor pessoal do existente e como espelho da realidade efetiva.
O movimento intrasubstancial constitui um processo de autorreflexão do espírito em sua conversão à contemplação.
A percepção é entendida como a energética do Real em seu crescimento intensivo, do estágio elementar ao angélico.
Ética da intensificação e superação da matéria
Cada coisa deve intensificar-se não pelo cumprimento de uma lei externa, mas pelo motivo real de sua própria existência.
O acesso ao máximo de si mesmo responde ao imperativo do ser, que é mais originário do que as essências manifestas.
A injunção ética fundamental ordena que toda coisa se intensifique para ultrapassar as finitudes aparentes e os limites provisórios fixados pela matéria.