A versão da lenda tal como Carra de Vaux a apresenta a partir de Nasir al-Din al-Tusi é quase idêntica à do poema de
Jami — nela, o rei Hermanos, filho de Hércules, governava as terras do Rum, da Grécia e do
Egito, e consultava o filósofo Iklikulas, que vivia retirado numa gruta há um ciclo inteiro, jejuando a cada quarenta dias com alguns legumes silvestres.
Hermanos lamentou ao sábio não ter descendente — pois não tinha inclinação por mulheres — e o sábio lhe sugeriu conceber um filho sem mulher, por meio de uma mandrágora regada com seu líquido seminal, que ele próprio cuidaria até transformá-la numa criança viva.
A criança assim nascida foi chamada Salaman, e lhe foi dada como ama uma jovem de dezoito anos chamada Absal; ao crescer, a afeição de Salaman por Absal transformou-se em amor apaixonado, levando-o a negligenciar completamente o serviço ao rei.
O rei advertiu o filho: “Aprende, ó meu filho, que há apenas dois caminhos, um que sobe e outro que desce. O homem que segue a via da inteligência, dominando as forças de seu corpo que devem ser suas servas, se eleva em direção ao mundo da luz. Deixa essa miserável Absal que não pode te proporcionar nenhum bem.”
Salaman, arrastado pela paixão, não atendeu ao pai — e Absal o aconselhou a não ceder: “Ele quer te tirar os prazeres verdadeiros por esperanças que em sua maioria são enganosas.”
O rei propôs um compromisso — dividir o tempo entre o convívio dos sábios e o gozo de Absal — mas Salaman sempre tinha o espírito ocupado com a outra metade; diante disso, o rei consultou os sábios sobre a conveniência de fazer perecer Absal, o único meio que lhe restava.
Os amantes fugiram ao litoral do mar do ocidente; o rei, por meio de suas duas flautas de ouro mágicas com sete furos correspondentes aos sete climas do mundo, descobriu onde estavam e enviou espíritos para atormentá-los com desejos que não podiam satisfazer.
Salaman voltou com Absal para implorar o perdão do pai, que lhes exigiu a separação — e ao anoitecer do dia em que os fez amarrar juntos, ambos se atiraram ao mar.
Hermanos salvou Salaman mas deixou Absal se afogar; após quarenta dias de prece na gruta do sábio Iklikulas, Salaman viu surgir a figura de Vênus, por quem se apaixonou e esqueceu Absal; ao fim, seu coração se cansou até dessa imagem, seu espírito se iluminou e sua alma foi purificada da turbulência da paixão.
Salaman ascendeu ao trono tendo apenas a sabedoria como meta, e muitas maravilhas foram realizadas em seu reinado.
Al-Tusi interpreta o mito: o rei Hermanos é o intelecto sábio; Salaman figura a alma racional; Absal é o conjunto das faculdades animais; o amor de Salaman por Absal significa a inclinação da alma pelos prazeres físicos; a fuga ao mar do ocidente representa a submersão da alma nas coisas perecíveis; o retorno de Salaman ao pai marca o gosto pela perfeição e o arrependimento; a elevação de seu amor até Vênus representa o gozo das perfeições inteligíveis; a ascensão ao trono é a chegada da alma à perfeição essencial; as pirâmides que subsistem através dos séculos simbolizam a forma e a matéria corporais.