Dísticos 12-13:
Se me mostrares a Natureza universal em seu estado absolutamente primitivo, saberei que estás entre os que dizem a verdade.
Diz-me ainda quais são sua essência e seus atributos, pois prefiro isso cem vezes mais ao som da flauta de Pã!
A definição nominal de Natureza, conforme os antigos sábios e físicos, é o princípio guardião que mantém cada corpo em sua forma própria, sendo que os filósofos concordam em dar o nome de Natureza universal a esse guardião dos diferentes tipos de corpos gerais, embora divirjam quanto à sua quididade.
Todo homem que observa a terra como agregado sólido, a água com suas movências, o ar, o fogo, as esferas e as estrelas, cada um com sua forma invariável, é forçado a admitir que existe um guardião para esses corpos diversos.
As substâncias minerais, vegetais e animais possuem cada uma uma forma distinta, sendo necessário um pintor para a terra e a água que entram na composição dessas formas.
Tanto na pedra quanto em cada parte do animal ou vegetal (como osso ou madeira), existe um guardião que vela sobre a forma recebida e a manutenção das partes, princípio este que é chamado de Natureza.
Aristóteles, em seu livro A Física, declara: A Natureza é o princípio do movimento e do repouso, significando que, quando as naturesas parciais (calor, frio, secura e umidade) se unem à substância receptora, há movimento.
Rhazès discorda dessa tese, argumentando que se as Naturezas viessem do Criador nos corpos, disso seguiria que a Natureza existiria em Deus, o que não é admissível.
Alguns físicos declaram que a Natureza é uma força divina assignada à guarda do universo; outros professam que o guardião é o vazio; outros ainda que é a umidade ou a umidade acompanhada pelo calor.
Certos filósofos declaram que é o desejo do Criador, nomeado Natureza, o guardião de todas essas coisas.
A resposta dos hermenautas espirituais (Ahl-e ta'wil) define a Natureza universal como o substituto da Alma universal (Anima mundi), assignado à guarda das diversas espécies de corpos em suas formas próprias, sendo uma substância comum a todas as partes do mundo corpóreo, razão pela qual este é chamado de mundo da Natureza.
Os hermenautas refutam a tese de que a Natureza seria uma qualidade elementar como o calor ou a umidade, pois estas são formas determinadas, acidentes que não subsistem por si mesmos e não podem agir sobre outra coisa.
Refutam também a tese de que o guardião do universo seria o vazio, questionando por que a água, o ar, a terra e o fogo não seriam idênticos se o vazio os mantivesse.
Refutam igualmente a tese de que a Natureza seria a própria Alma, usando o argumento dos seres de geração espontânea (como a mosca, o mosquito ou o rato), cujo agente não pode ser a alma e é certamente uma substância cuja atividade se exerce sobre o corpo.
A Natureza universal é como um intendente que vela pelo serviço e manutenção do universo, morada da Alma universal, purificando as disposições naturais a partir das quais o homem é constituído.
É pela obra que emana da Natureza universal que a nocividade de princípios maus (ratos, serpentes, escorpiões) é afastada do homem, sendo a prova evidente de que ela serve à obra da Alma universal.
As moscas e mosquitos surgem das águas fétidas e solo putrefeito pela natureza para que, ao se dispersarem no ar, evacuem miasmas e puídores.
A Natureza universal mantém cada uma das naturezas parciais em sua forma própria para que não se desagreguem, sucombam ou se decomponham.
Por ser ela que põe em movimento as esferas, a Natureza não é nem pesada nem leve; mas é leve por projetar o fogo para a periferia, pesada por levar a terra e a água ao centro, e recebe os nomes de alma crescente, alma sensorial e alma parlante conforme suas diferentes atividades.
O agente de todas as partes do universo é Um, assim como a alma do microcosmo é una, embora seus atos sejam múltiplos conforme os instrumentos que emprega.
As obras particulares da Natureza universal (vitriol, sulfure, cogumelo, trufa, moscas, formigas, rãs) são imitações das obras da Alma universal (ouro, prata, vegetais primeiros, voláteis e quadrúpedes engendrados).
Os teósofos da Religião eterna declaram que a Natureza universal é a aluna da Alma universal, estando situada entre a esfera da Lua e o centro do universo, sendo uma substância imaterial que não ocupa nenhum lugar.
A existência da Natureza universal na substância corpórea (sombra da Alma universal) resulta, em seu estado absolutamente inicial, da contemplação que a Alma universal projeta sobre sua própria sombra.
Como exemplo no mundo sensível, quando o sol projeta sua contemplação sobre uma bola de cristal bem redonda e transparente, um fogo (substância ativa) eclode nessa bola.
Na hierarquia da Instauração criadora (Ibda'), a Natureza universal vem em quarto lugar, após a Inteligência, a Alma e a Matéria.
Como prova de que a esfera é obra da Natureza universal, se em imaginação se brincam os elementos e as esferas e depois se para, o mundo retornará à forma que tem presentemente, assim como em um frasco com água, terra e ar, após ser agitado, a terra se deposita abaixo da água e o ar acima da água.
A Natureza universal primeira não muda de estado, sendo impossível que o ar se torne pesado e a terra leve, ou que o ar se mantenha no centro e a terra se eleve acima do ar.