A vida gloriosa consiste, em sua raiz, segundo o místico murciano
Ibn Arabi, na visão beatífica, concebida como uma manifestação, revelação ou epifania da luz divina — Deus é um foco luminoso que emite raios de luz, os quais elevam a capacidade natural dos eleitos, aguçam sua força visiva interior e exterior para que possam suportar a intensidade do foco divino, infinitamente superior à energia de toda criatura.
O estreito paralelismo dessa concepção de
Ibn Arabi com a dantesca é inegável — são idênticas na ideia e em sua encarnação artística
A imagem pitoresca carecia de precedentes na literatura cristã medieval, enquanto a ideia teológica da necessidade de uma luz divina para contemplar a Deus havia sido concebida e fundamentada pelos escolásticos antes de Dante
Santo Tomás de Aquino fala insistentemente de um lumen gloriae e de um lumen divinum que fortalecem e aperfeiçoam a aptidão natural do entendimento humano para a visão beatífica
O próprio Aquinate confessa ter buscado inspiração não nos Santos Padres e teólogos escolásticos, mas nos filósofos muçulmanos — invocando a autoridade de Alfarabi,
Avicena, Avempace e Averróis — acabando por aceitar a teoria averroísta da visão das substâncias separadas pela alma como adaptável à visão de Deus pelos eleitos
Os historiadores dos dogmas reconhecem que a explicação filosófica da visão beatífica falta nos Santos Padres e antigos teólogos — São João Crisóstomo chega a negar a visão da essência divina; São Ambrósio, Santo Agostinho e todos os latinos até o século VIII limitam-se a pôr a vida bem-aventurada na visão de Deus face a face
São Epifânio chegou apenas a concluir que a mente humana necessitará de algum auxílio para ver a Deus, sem determinar sua natureza
O eruditíssimo Petávio conclui que a teoria do lumen gloriae é uma novidade introduzida pelos escolásticos, inspirada na analogia entre visão e intelecção mais do que guiada pela Sagrada Escritura e pela tradição patrística — e busca um precursor remoto em Plotino como o único pensador que vislumbrou vagamente tal necessidade
Petávio adivinhou a filiação plotiniana do lumen gloriae, mas, ignorando a teologia muçulmana, não pôde preencher o abismo de séculos que separa Plotino dos escolásticos
Al-Ghazali consagra um extenso capítulo de seu Ihya ao tema — muito antes de Santo Tomás, define a visão beatífica como uma perfeição do entendimento e estabelece um paralelismo completo, embora metafórico, entre a visão física e a visão gloriosa, dizendo: “Deus se mostrará ao eleito em todo o esplendor de sua manifestação. Essa epifania, comparada ao conhecimento que de Deus possuía o eleito, será como a manifestação de um objeto no espelho, comparada à representação fantástica do mesmo. […] Assim como neste mundo conheces a Deus com conhecimento real e verdadeiro, completamente intelectual, exento de toda representação fantástica, sem forma, figura e dimensões, assim o haverás de ver na vida futura.”
Ibn Hazm, o grande teólogo de Córdoba do século XI, desenvolve doutrina análoga: “Não admitimos a possibilidade de que Deus seja visto com uma espécie de visão idêntica à dos corpos. Unicamente dizemos que Deus será visto na vida futura mediante uma potência distinta da potência que atualmente subsiste nos olhos, a qual potência nos será infundida por Deus. Alguns a denominam sexto sentido.”
Averróis, em um de seus opúsculos teológicos, diz: “Sendo Deus causa da existência dos seres e causa de que nós os percebamos, e sendo essa mesma a condição da luz respeito das cores […] resulta que com toda verdade se chama Deus a si mesmo luz, e que nenhuma dúvida pode oferecer o dogma da visão de Deus, que é uma luz, na vida futura.”