UNIDADE CONHECEDOR CONHECIDO

MEISAMI, Sayeh. Mulla Sadra. London: Oneworld, 2013.

CONHECIMENTO E SER Em filosofia transcendental, a epistemologia não é anterior à ontologia, mas sim baseada nos princípios ontológicos previamente explicados.

O conhecimento deve ser discutido como um assunto da filosofia primeira, cujo sujeito é o ser enquanto ser.

Sadra descreve o conhecimento como “a forma da existência de um ser imaterial” (al-Asfar III, 286, 292).

A HIERARQUIA DO CONHECER A substância corporal não é capaz de conhecimento.

A ausência existencial no material enquanto material resulta em sua falta de conhecimento de si mesmo, o que leva à incapacidade de conhecer o mundo externo.

Seguindo Aristóteles, na filosofia peripatética, acredita-se que o mecanismo de abstração tenha vários níveis de acordo com o tipo de conhecimento.

O próximo nível mais elevado de abstração acontece na imaginação, onde não há contato com a matéria.

O mais alto nível de abstração é realizado pela alma racional, para a qual o objeto do conhecimento é um conceito universal.

Sadra concorda com Ibn Sina que o objeto do conhecimento deve ser abstraído da matéria, mas sua compreensão da abstração está de acordo com o fundacionalismo existencial.

CONHECIMENTO POR PRESENÇA Na epistemologia de Mulla Sadra, “presença” é a chave para o conhecimento como um todo.

Sadra sustenta que “quando se adquire conhecimento de uma coisa, pode-se ver dentro de si mesmo que algo é realizado em nós, em vez de perdido” (al-Asfar III, 287).

A unidade do conhecedor e do conhecido durante o ato de conhecer é uma das marcas da filosofia sadriana, embora se diga que foi rejeitada por Ibn Sina.

Longe de ser um acidente, o objeto imediato do conhecimento confere atualidade à alma no mesmo sentido em que as formas externas realizam a matéria corporal, embora no caso da formação do conhecimento não haja matéria corporal envolvida.

Essa relação matéria-forma resulta na evolução da alma.

Apesar do enraizamento de todo o conhecimento na unidade do conhecedor e do conhecido, Sadra seguiu a tradição de dividir o conhecimento em “conhecimento por presença” e “conhecimento por correspondência”.

Na epistemologia peripatética, o conhecimento por correspondência é mediado por formas mentais.

Ao contrário da filosofia peripatética, Sadra acredita que a percepção não é mediada por formas mentais.

CONHECIMENTO E REALIZAÇÃO A chave para entender a epistemologia de Sadra é a visão de que o mental e o extramental existem de fato, como dois mundos paralelos cuja diferença está na intensidade de seu ser.

Sadra acredita que a alma é capaz de criar seres mentais na ausência da matéria.

Mulla Sadra paraleliza os estágios da formação do conhecimento — percepção sensorial, imaginação e intelecção — com “três mundos” (al-Asfar III, 362).

Percepção sensorial e o mundo perceptual Sadra não concorda com Platão sobre a pseudoexistência do mundo físico.

O que torna o “ocasionalismo” de Sadra diferente de outras versões é que o objeto imediato do conhecimento, em todos os tipos de percepção, é um ser superior que está ontologicamente unido ao objeto externo, uma vez que o mundo inteiro, incluindo o mental e o extramental, é uma diversidade de diferentes graus do mesmo ser.

Imaginação e o mundo imaginal Para imaginar o que já foi sentido no passado, não há necessidade de novo contato com o mundo externo.

Seguindo Ibn ‘Arabi, Sadra acredita no “mundo destacado da imaginação” e relaciona a imaginação ao “mundo que está entre o mundo sensível e o intelectual” (al-Asfar III, 362).

O mecanismo da imaginação é muito semelhante ao da percepção sensorial, pois é baseado na unidade do conhecedor e do conhecido.

Intelecção e o mundo intelectual Enquanto a percepção sensorial e a imaginação fornecem formas particulares, a intelecção é a fonte do conhecimento universal.

Mulla Sadra não apenas segue essa tradição, mas vai muito além dos filósofos peripatéticos ao aplicar mais sistematicamente os princípios do misticismo para mostrar a relação entre o especulativo e o espiritual.

Na teoria espiritualizada do conhecimento de Sadra, a mente não é mais um mero receptáculo de formas, mas a criadora delas, e evolui em sua unidade com elas.

Em sua relação com os universais, a alma racional está no início no “intelecto potencial”.

O intelecto potencial torna-se “intelecto em hábito” à medida que as verdades evidentes, como o princípio da contradição, são realizadas nele.

O próximo estágio é o “intelecto atual”, no qual a mente adquire as verdades secundárias por meio das primárias.

O próximo estágio, chamado “intelecto adquirido”, é o mais alto nível de intelecção que os humanos podem alcançar através da conjunção com o Intelecto Agente.

A mente, que no início só pode potencialmente receber as formas inteligíveis, precisa ser atualizada por um agente que não conhece potencialidade a esse respeito.

A unidade da mente com o Intelecto Agente é a chave para a criatividade da primeira, como mencionado anteriormente.

No conhecimento do mundo material, na ocasião do contato com os objetos externos através dos órgãos dos sentidos, o Intelecto Agente atualiza as faculdades potenciais, primeiro conferindo as formas sensíveis e depois as imaginativas.

Assim, em Sadra, a atualização epistemológica da mente humana ocorre ao lado da promoção ontológica da alma em direção a um ponto onde a alma é plenamente realizada como tal.