LÓGICA DA TRANSCENDÊNCIA

JMMS

Capítulo V — A “Origem”: Uma Lógica da Transcendência

A dificuldade principal para o leitor de A Sabedoria do Trono reside em estabelecer a conexão entre o vocabulário técnico de Sadra e os problemas universais que o sustentam, sendo os dois últimos capítulos destinados a apontar os contornos gerais da obra e o contexto filosófico de cada seção.

A. O Ponto de Partida

A Sabedoria do Trono parte do contraste problemático entre a condição de “transcendência” — o estado iluminado do conhecimento interior verdadeiro e da certeza — e os modos mais habituais de experimentar e descrever o mundo, sendo cada seção do livro dedicada a esclarecer algum aspecto da relação entre essas duas condições fundamentalmente distintas do ser.

O tema central é o “Trono” divino — a realidade interior do Ser revelada na condição de transcendência — e as duas Partes do livro correspondem aos dois sentidos intimamente ligados que a expressão árabe al-arsh carregava para os leitores de Sadra.

A obra não se ocupa com a experiência de transcendência em si mesma — que pressupõe desde o início — mas com a integração essencial dessa perspectiva com os modos mais familiares de encontrar o mundo, visando esclarecer os fundamentos das confusões éticas e intelectuais que conduzem a interpretações perigosas da transcendência como algo essencialmente irracional.

O termo hikma do título significa tanto “Sabedoria” divina — o Todo noético do Ser — quanto “filosofia” — o drama contínuo da realização encenado nesse palco —, sendo a obra sobre descobrir quem é, de fato, o autor desse drama e quem são os atores.

B. Ontologia e Teologia

A Sabedoria do Trono parte da distinção fundamental entre a condição da maarifa — o conhecimento interior iluminado da transcendência — e as formas mais habituais de conhecimento e crença, sendo a Parte I um relato da estrutura da realidade dentro da qual esses dois tipos muito diferentes de consciência são possíveis e reais.

B.1 — O quadro teológico

Exteriormente, os títulos e a sucessão de tópicos na Parte I seguem uma ordem clássica de exposição herdada da teologia kalam anterior, começando pela questão da existência e Unidade de Deus (tawhid), passando pela relação interior de Sua Essência e Atributos e chegando à expressão desses Atributos em Sua criação do mundo.

B.2 — A realidade do Ser

A distinção fundamental de Sadra entre “ser” (al-wujud) e “quiddidade” no capítulo inicial da Parte I corresponde às duas dimensões básicas de consciência que constituem seu ponto de partida — a maarifa, ou condição do “desvelamento” interior da transcendência, e o ponto de vista interior de toda a experiência ordinária.

B.3 — A Unidade do Ser e da Consciência

A chave para o uso filosófico do vocabulário teológico por Sadra na Parte I é a conexão interior entre suas considerações sobre a Unidade e Simplicidade do Ser nos capítulos iniciais e a tese da “União noética do conhecedor e do conhecido” no parágrafo 10.

B.4 — A transubstanciação do Ser

Os Princípios 12 a 16 tratam formalmente dos modos da Atividade criadora de Deus em relação ao mundo, sendo as diversas concepções filosóficas e teológicas dessa realidade delineadas no parágrafo 12.