MORADA PERECÍVEL

Ó gente, deixai esta morada perecível.
Levantai-vos para a viagem em direção ao mundo sublime.
Lançai-vos com passo entusiástico para fora desta armadilha demoníaca
Para voar como o pássaro e fixar vossa morada na lua.
Até quando os cuidados dispensados a este corpo de face tenebrosa
Far-vos-ão sacrificar a alma e dissipar a razão?
Existe uma alma de perfeição sob vosso véu carnal,
E falais deste corpo desprezível.
O Cristo está diante de vós e, contudo, vosso coração
Quer fazer-se escravo de um casco de asno.
Até quando fareis de vosso olfato, de vosso paladar, de vossos lábios, de vossos olhos e de vossos ouvidos,
A cada dia, uma nova via régia aberta às más paixões?
Alcançareis rapidamente o sétimo céu, desde que consintais por um instante
Em fechar essas cinco portas de vossos sentidos.
Os bens que os favorecidos do Senhor repelem com o pé,
Por que a avareza vos leva a fazer deles coroas para vossas cabeças?
Se desejais receber a Pérola da Graça,
Tornai-vos cegos como o ônix e surdos como a escama.
Ó almas puras, até quando, deste amontoado de argila,
Fareis vossa morada, como se pertencêsseis ao inferno?
Descrevei com língua verídica esse Palácio de Glória,
Àqueles que permanecem presos à avareza e à inveja.
Ou ainda, semelhante ao sol da razão no céu,
Transmutai esta gleba em rubi e em ouro.
Há muito já resplandece a aurora do Juízo;
Ó vós que vivestes, levantai a fronte desta terra.

Não faças tua morada nem do corpo nem da alma que o anima; um é demasiado vil e o outro demasiado sublime.
Afasta teus passos de um e de outro, não permaneças nem aqui, nem ali.
Enquanto permaneceres afastado da Via, pouco importa que estas palavras sejam de incredulidade ou de fé.
Enquanto permaneceres longe do Amigo, pouco importa que este quadro seja feio ou belo.
O sinal do Viajante é que o verás sair do inferno sentindo frio.
O sinal do Amante é que o verás sair seco do mar.
As palavras que a religião te inspira, pouco importa que estejam em língua hebraica ou siríaca.
O lugar que procuras por amor da Verdade, pouco importa que seja Djâbolghâ ou Djâbolsâ.
Por que deter-te aqui embaixo junto a cada carniça, como faria um corvo?
Quebra tua gaiola como se fosses um pavão e voa para essas alturas.
Morre, amigo, antes de tua morte, se desejas a Vida.
É morrendo tal morte que Idris nos precedeu no Paraíso.
Sucumbe sob o sabre do Amor para encontrar a vida eterna;
Nunca se mostrou que alguém ressuscitasse sob o de Bou Yahya.
Por que permanecer fiel a um infiel que fez perecer Alexandre?
Por que cortejar uma amante que deixou Dario sem reino?
Vê, pois, sobre este firmamento de cor turquesa, a cada instante,
Que jogos suscita este ancião de belo rosto.
Se apagares desde hoje o fogo da carne, certamente serás salvo;
Caso contrário, amanhã servirás de combustível à fornalha infernal.
Se possuis o saber, cumpre teu ofício como um sábio, pois é espetáculo deplorável
Ver peregrinos vindos da China vestir o ihram, enquanto o habitante de Meca dorme em Batha.
Mas, se apenas por ambição adquiriste a ciência, teme que esse saber, chegada a noite,
Não seja em tua mão senão a lâmpada que ajuda o ladrão a melhor escolher seu furto.
O Amor não é nem jogo nem fábula,
E no caminho do Amor nenhuma queixa é cabível.
A beleza do objeto amado é sem igual,
E sem fim o sofrimento suportado pelos Amantes.
Desdobra a bandeira do Amor,
Pois no Amor não há hipocrisia.
O universo do Amor não é o da ciência religiosa.
Contemplar a verdade é outra coisa que conhecê-la por ouvir dizer.
Quem persiste em distinguir o Amante do Amado,
Seu amor ainda está longe de possuir toda a sua força.
Juntamente com teu coração, é necessário empenhar no jogo tudo o que possuis.
O Amor não se contenta com um coração.
Não basta pretender alcançá-lo para obter a Amizade;
É necessário experimentar profundamente o seu sentido.