A disseminação das ideias de Ibn ʿArabī no século treze coincidiu com as transformações políticas decorrentes das invasões mongóis, resultando em um paradoxal florescimento da atividade mística em todo o mundo islâmico.
Enquanto estruturas políticas eram destruídas, figuras como ʿAṭṭār, Najmuddīn Kubrā e Jalāluddīn Rūmī consolidavam o apogeu da poesia e da teosofia mística.
A sistematização de Ibn ʿArabī forneceu um vocabulário fixo e uma teologia estruturada que permitiu ao surto místico encontrar um quadro referencial comum.
Ordens religiosas estabeleceram-se na Índia, na Anatólia e no Egito, fundamentando tradições espirituais que persistiram para além dos desastres políticos frontais.
A obra Gulshan-i rāz, de Shabistarī, constitui o manual mais acessível para a compreensão do sufismo pós-Ibn ʿArabī, abordando o Homem Perfeito e a terminologia mística.
O autor postula que a beleza divina oculta-se sob o véu de cada átomo, sendo o Absoluto tão aparente que se torna invisível aos olhos obscurecidos pela proximidade excessiva.
O percurso do Homem Perfeito é definido como uma via dupla: uma descida ao mundo dos fenômenos e uma ascensão em direção à unidade divina.
A jornada espiritual é frequentemente dividida em quarenta passos, compreendendo o arco de descida da Inteligência Primeira à terra e o arco de ascensão rumo à plenitude humana.
ʿAbduʾl-Karīm Jīlī sistematizou a doutrina do Homem Perfeito, detalhando os níveis de manifestação divina desde a essência até o plano dos sentidos e das cores.
A iluminação progride das ações para os nomes e atributos, culminando na iluminação da essência, acessível apenas ao Homem Perfeito.
O conceito de tauḥīd é reinterpretado como a extinção da ignorância sobre a identidade essencial e imóvel do homem com o único Real.
Apesar da identidade essencial, Jīlī preserva a distinção formal onde o Senhor permanece Senhor e o escravo permanece escravo.
A busca pelo Homem Perfeito precede as formalizações teóricas, manifestando-se na veneração profética e na busca metafórica de Diógenes por um homem real, citada por Rūmī.
A exegese sufi frequentemente classifica as massas como semelhantes a animais por não perceberem os sinais da graça divina, reservando apenas ao verdadeiro homem a visão de Deus através da criação.
Poetas como Maghribī expressaram uma consciência cósmica de unidade absoluta, afirmando-se um com Moisés e Faraó, Jonas e a baleia, Ḥallāj e seu juiz.
Essa tendência ao sentimento de unidade onipresente é frequentemente rotulada como panteísmo imoderado por observadores externos.
A máxima hama ūst — tudo é Ele — permeia a poesia de ʿAṭṭār e Jāmī, sugerindo que a divindade habita tanto o manto do mendigo quanto a seda do rei.
Vizinho e associado e companheiro — tudo é Ele. No rude manto do mendigo e na seda do rei — tudo é Ele.
A percepção de Deus em todas as formas levou alguns místicos a saudar o balir das ovelhas ou o som do vento como endereçamentos divinos.
O sentimento de onipresença divina culmina na renúncia aos nomes próprios: em nome de Quem não tem nome, mas aparece sob qualquer nome que se Lhe atribua.
A relação entre Deus e o homem é frequentemente simbolizada pela imagem do oceano e da gota, onde a diversidade das ondas não altera a substância única da água.
Para alguns, a gota não se perde no mar, mas transforma-se em uma pérola preciosa, ganhando valor ao tornar-se distinta do oceano sem deixar de depender dele.
O oceano simboliza psicologicamente o anseio individual pela união e aniquilação no todo, sendo simultaneamente um mar de amor e um abismo de fogo consumidor.
O conhecimento intelectual é visto apenas como a margem seca desse oceano habitado por feras perigosas que ameaçam a alma amante.
Metáforas de unidade e multiplicidade utilizam objetos como peças de vidro de mesma substância ou figuras de xadrez esculpidas no mesmo bloco de madeira.
O mestre do xadrez move as peças de formas inexplicáveis, permitindo que um peão torne-se rei, ilustrando a soberania divina sobre as formas criadas.
O jogo de nardo e suas seis portas simbolizam o aprisionamento do homem nas seis dimensões do mundo criado.
Jāmī enfatiza a dependência mútua: o homem necessita do Absoluto, enquanto o Absoluto é independente do relativo.
A predominância do amor sobre a lei conduziu à visão de que a infidelidade e a fé caminham pela mesma senda em direção ao Único.
Os preconceitos religiosos diminuem à medida que o conhecimento de Deus aumenta, aceitando-se que os caminhos para o divino são tão numerosos quanto as respirações dos homens.
Aquele que entra no oceano flamejante do amor perde a capacidade de distinguir o Islã da descrença, embora formalmente os místicos mantivessem a adesão aos ritos de sua própria religião.
Imagens que justapõem a Caaba ao templo de ídolos devem ser compreendidas como expressões poéticas da superioridade do espírito sobre a letra, e não necessariamente como sistemas metafísicos de abolição das formas religiosas.