ACORDE ESPIRITUAL

Vitray-Meyerovitch, MPI

O Mathnawi, que o canto da flauta abre como uma sinfonia de contraponto erudito, é comparado por Rumi a um oratório espiritual, e é por imagens musicais que se expressa a união mística das almas.

O que se trata de criar no discípulo é um estado de receptividade que favoreça a comunhão e a sintonia com o mestre, para que lhe seja devolvido o eco de sua própria disposição espiritual (hal).

Em direção a essa alegria, que é fundamentalmente a reconstituição da unidade profunda de um ser e de sua totalidade essencial, a alma que busca deve tender com todo o seu desejo.

Essa afinidade profunda que atrai os espíritos uns para os outros, reveladora de seu verdadeiro natural, e que faz cada pássaro voar para seu próprio congênere, impele o buscador, buscado por Deus, em direção a um mestre.

Mawlana fala da suavidade que nasce, em sua presença, no coração do ouvinte, e retoma várias vezes a inclinação da alma para o que lhe traz o sabor espiritual (dhawq) que a leva a uma adesão que a compromete inteiramente.

Rumi exemplifica essa certeza inata com várias situações de reconhecimento imediato.

Rumi considera a influência do mestre sobre os discípulos ora como uma comunicação silenciosa, ora como conselhos de direção que se juntam à comunicação do estado espiritual (hal).

Entre o murshid e o murid se estabelece, no seio de seu acordo (ham-dami), uma espécie de osmose espiritual, onde as qualidades boas e más passam de um coração a outro de maneira misteriosa.

A participação no mesmo estado (hal) dá lugar a um mimetismo interior, ilustrado pela anedota de Fihi-ma-fihi sobre o medo de uma criança diante de uma sombra negra.

O Mathnawi se encerra com a evocação desse conhecimento que só pode ser obtido pela troca muda de uma alma a outra, como na resposta de um discípulo sobre como reconhecer alguém na noite.

Esse modo de ensino pela comunicação do estado (hal) do mestre é o tema do relato sobre Otman, que se tornou califa e subiu um dia à tribuna.

Aflaki relata a anedota em que o sheikh Shihab-ud-Din Sohrawardi visitou o Sayyed Burhan-ud-Din Tirmidhi e não foi pronunciada uma só palavra.