MAIÊUTICA SOCRÁTICA

Vitray-Meyerovitch, MPI

Dadas as diferenças de capacidades espirituais existentes entre os discípulos, o papel do mestre consistirá em se adaptar às suas aptidões.

Um trecho do Mathnawi descreve com precisão o método de ensino, com Moisés perguntando a Deus por que Ele cria a forma e depois a destrói.

Pouco a pouco, o murshid alimenta seu murid com o leite do conhecimento até que este possa prescindir de sua ajuda.

Quando o mestre dá indícios justos, algo no espírito do discípulo lhe faz reconhecer a verdade, vindo então a certeza que não deixa lugar à dúvida.

O mestre exterior e o mestre interior não fazem mais do que um: é o próprio eu que fala, escuta e habita a casa.

A possibilidade da anamnese está ligada à pré-existência das almas, no dia do pacto preeterno (Alast).

As capacidades espirituais dos homens diferem, portanto, segundo a medida de sua lembrança, ilustrada pela parábola dos escravos negros trazidos das terras dos infiéis.

Aqui se encontra, junto à noção corânica do pacto preeterno (mîthâq), a doutrina platônica segundo a qual a reminiscência é considerada prova da pré-existência das almas.

É por terem pré-existido juntas que certas almas estão ligadas por uma misteriosa afinidade espiritual, reconhecendo-se pelo odor, como os cavalos se reconhecem entre si.

Um provérbio diz que o elefante se lembrou do Hindustão, mas para que se lembre é preciso que seja um elefante, pois o asno não se lembra porque nunca veio de lá.

A alma que glorifica a Deus neste mundo é porque O glorificou em sua pré-existência, e, ao fazê-lo, leva a se lembrar aqueles que esqueceram o dia de Alast.

Rumi, como Platão, fala dessas reminiscências que nascem no espírito como um sonho, comparando também essa redescoberta à de traços de passos.

Indícios, pegadas, signos de reconhecimento ou palavras confusas descrevem a démarche progressiva da alma que termina por reencontrar o que ela ignorava possuir, tratando-se sempre da recriação de uma unidade perdida.