ORATÓRIO ESPIRITUAL

Vitray-Meyerovitch, MPI

Djalal-ud-Din Rumi dizia que vários caminhos levam a Deus e escolheu o da dança e da música, considerando o Samā como um ofício litúrgico.

Foi a Djunayd que perguntaram por que os Sufis se agitavam em êxtase durante a audição da música, ao que respondeu que, quando Deus interrogou os germes no Pacto primordial, uma doçura se implantou nas almas que se reaviva e as agita ao ouvirem a música.

As objeções formuladas contra o samā como técnica de êxtase respondem às distinções feitas pelos mestres do Sufismo, que põem seus discípulos em guarda contra o risco de idolatria.

Nas sessões de samā, os Mawlawis, ao som da flauta, lançam-se em um turbilhonamento que é o próprio do Cosmos, a roda vertiginosa dos planetas.

A cerimônia atual do samā mawlawi, onde cada gesto da dança litúrgica comporta um sentido simbólico, desenrola-se de uma maneira específica.

A queixa inesquecível da flauta em sua melodia solitária evoca a nostalgia lancinante e pura que Tagore pedia a Deus para tornar-se um junco que Ele pudesse encher com Sua música.

O comentário de um dervixe de Konya explica que o ney e o Homem de Deus são uma só e mesma coisa, ambos se queixam da separação, têm feridas no peito, são cercados de laços, são ressequidos e vazios, preenchidos apenas pelo ar do músico.

O samā foi instituído na Ordem dos Mawlawis após o desaparecimento de Shams-ud-Din de Tabriz, o mestre amado de Djalal-ud-Din, quando Mawlana ordenou que lhe preparassem roupas de luto e mandou fazer o violino de seis cantos.

Essa participação mística, essa sintonia de um universo todo preenchido de palavras confusas que parecem perpetuarmente fazer alusão a algo inefável e essencial, aproxima o poeta persa de uma família de espíritos para quem todo itinerário em direção à Realidade última vai do sensível ao que ele significa.

Para o salik, entretanto, essa etapa mesma deve ser ultrapassada e o samā se concluir em silêncio.

No Livro IV do Mathnawi, Rumi conta a conversão ao Sufismo de Ibrahim ibn Adham, que abandonou seu reino e escutava os músicos durante a noite para se rememorar a alocução divina.

A história do homem sedento que jogava nozes de cima de uma nogueira no riacho para ouvir o barulho das nozes caindo na água serve de parábola para o próprio Mathnawi.