A encarnação se deve, contudo, a uma decisão espontânea das almas, que, situadas no limite do mundo suprassensível, ao manifestar seu cuidado com o que está abaixo delas, se engajam fatalmente no sensível.
Essa mudança pode não ser deletéria para as almas, pois elas permanecem capazes de contemplação intelectual e mantêm mesmo aqui embaixo o contato com as ideias.
Movidas pelo louvável desejo de comunicar seus dons a todos os graus inferiores da realidade, as almas encontram assim a ocasião de exercer certas faculdades que permaneciam latentes no inteligível.
A experiência do mal pode até fazê-las apreciar melhor o valor do bem superior.
Todavia a queda da alma é para ela plena de perigos.
Se durante sua passagem na terra a alma não busca as belezas corporais — que não são senão reflexos e sombras — mas continua voltada para a beleza verdadeira, não é repreensível nem contaminada.
Enganada pela semelhança que os simulacros do mundo dos sentidos oferecem com as realidades do mundo das ideias, a alma pode ser seduzida pelo seu atrativo enganoso.
Ela se mergulhará então na matéria, assim como Narciso, inclinando-se sobre sua própria imagem refletida no espelho das águas, foi engolido em suas profundezas.
Assim fracionadas, as almas podem cessar de dirigir seus olhares para o inteligível, enfraquecerem-se ao se isolarem e se afastarem do conjunto do qual são oriundas ao se ligar mais estreitamente ao corpo particular que habitam.
Embriagadas de sua independência, usam de sua espontaneidade para correr em sentido oposto a Deus; chegadas ao ponto mais distante, ignoram de onde vieram, como crianças arrancadas de seu pai e criadas por longo tempo longe dele o desconhecem, e a si mesmas com ele.
As que assim se comprazem em sua nova condição vivem em meio às sombras como se tivessem descido ao Hades.
Elas se tornam passíveis de pena e merecem ser atormentadas pelos demônios vingadores.