3 Deuses

DETIENNE, Marcel. Les dieux d’Orphée. Paris: Éditions Gallimard, 1989, 2007

Deuses entre os homens

1. As notícias sobre o destino dos deuses antigos oscilam entre versões contraditórias, como os relatos de Heinrich Heine que apresentam essas divindades exiladas da Europa, compondo uma interpretação moderna de seu afastamento do mundo humano.

2. Em contraste com a imagem dos deuses exilados, Winckelmann reconhece nas divindades gregas uma presença duradoura e uma promessa para o futuro, antecipando a ideia, posteriormente expressa por André Breton, de que elas sempre habitaram o universo humano.

3. A multiplicidade dos deuses gregos integra um amplo horizonte de culturas politeístas, presentes na Índia, na África, na Oceania, na China e no Japão, enquanto a exigência monoteísta de fidelidade exclusiva a um único deus, povo e território favorece antagonismos que se prolongam em guerras e massacres legitimados pela oposição entre o bem e o mal.

4. Embora os registros micênicos ampliem a antiguidade de algumas divindades olímpicas, a representação arcaica de sua existência privilegia o contraste entre a felicidade dos imortais, livres de preocupações e doenças, e a condição dos humanos da Idade do Ferro, submetidos ao sofrimento e aos males que os atingem silenciosamente.

5. A interpretação que estabelece uma separação radical entre deuses e humanos contrapõe a juventude, a força e o esplendor permanentes dos olímpicos à existência efêmera dos mortais, incapazes de vencer a morte e dependentes de alimentos perecíveis, encontrando nos poemas de Homero e Hesíodo a sustentação dessa oposição.

6. A ausência de ortodoxia na Grécia antiga permite representações mais complexas da condição divina, como a teogonia hesiódica, na qual Gaia gera Urano e outras potências, sofre com o aprisionamento dos filhos em seu próprio ventre e concebe a primeira astúcia ao fabricar a arma com que Cronos mutila o pai, revelando ódio, engano e violência entre os deuses.

7. Gaia inaugura o crime de sangue e a origem do mal em uma história divina marcada por conflitos e mutilações, enquanto Os trabalhos e os dias apresenta trinta mil imortais que, enviados por Zeus e envolvidos em névoa, circulam entre os humanos para vigiar suas ações, seus crimes e a justiça de suas decisões.

8. A imagem acadêmica dos olímpicos felizes não esgota a diversidade das potências divinas, pois inúmeras delas habitam a terra como benfeitoras dos mortais, e a tradição hesiódica reconhece uma origem comum de deuses e humanos em Gaia, preservando a memória dos homens da raça de ouro e de um tempo em que ambas as espécies partilhavam a mesma mesa.

9. Os humanos da Idade do Ouro conviviam com os deuses e desfrutavam de uma vida extremamente longa, mas a desigualdade de força vital conduziu à separação progressiva entre mortais e imortais, enquanto aqueles primeiros humanos, após adormecerem na morte, se tornaram bons gênios da terra, encarregados de proteger os vivos e vigiar a justiça e os crimes.

10. O politeísmo grego não estabelece um abismo entre humanos e deuses, pois cada sacrifício ou oferenda pode proporcionar o encontro com uma potência divina, cuja presença se manifesta discretamente ou de modo evidente, como nos banquetes dos feácios e nos testemunhos de intervenções divinas que chegam a registrar marcas dos passos de um deus ou de uma deusa.

11. A presença divina pertence à familiaridade da vida cotidiana e alcança até a cozinha e suas proximidades, como indica a observação de Heráclito transmitida por Aristóteles, para quem a natureza viva e as cidades humanas comportam uma multiplicidade de deuses.

12. A distinção entre mortais e imortais não implica transcendência, pois humanos antigos puderam desfrutar de uma longevidade comparável à divina, enquanto sábios e homens divinos podem aproximar-se dos deuses mediante a prática de um modo de vida filosófico.

13. A “imortalidade condicional” caracteriza uma dimensão do politeísmo grego em que os próprios deuses podem sofrer o esgotamento de sua vitalidade, como Ares, quase morto após longo aprisionamento, ou o imortal que comete perjúrio pela água do Estige e permanece prostrado, sem respiração nem acesso à ambrosia e ao néctar.

14. A concessão da imortalidade não assegura juventude permanente, como demonstra o envelhecimento interminável do amante de Aurora, enquanto a derrota dos Gigantes evidencia a dependência da força divina em relação a substâncias capazes de renová-la, pois Zeus impede seus adversários de obter a erva mágica produzida por Gaia para torná-los invencíveis.

15. Mortais e imortais compartilham a possibilidade de esgotamento da força vital, denominada aiôn pelos gregos e localizada por certos médicos na medula espinal, cuja quantidade varia entre os seres e determina durações de existência que vão da vida humana aos milhares de anos atribuídos pelos pitagóricos aos seres demoníacos lunares.

16. A imortalidade sob condição depende das relações entre formas de corporeidade, alimentos e substâncias apropriados às diferentes espécies de seres vivos, oferecendo também uma perspectiva para compreender os vínculos entre humanos e deuses estabelecidos pelos sacrifícios e pelas práticas de culto.

17. Para Aristóteles, os deuses integram naturalmente o horizonte do ser humano como animal político, e as antigas narrativas conservam indícios de uma época heroica em que indivíduos excepcionalmente virtuosos contribuíram para civilizar a humanidade, aproximando-se dos sábios responsáveis pela superação da barbárie na Grécia.

18. As narrativas mitológicas antigas vinculam-se à atuação de sábios que procuraram promover a justiça e o respeito às leis, formando a concepção de deuses benfeitores aos quais os humanos devem retribuir os dons recebidos, de modo que a piedade constitui uma modalidade de justiça dirigida às potências divinas.

19. A presença dos deuses integra o mundo próprio da cidade grega, tornando a condição de um humano “privado de deus”, sentido de atheos que não equivale simplesmente a “ateu”, tão improvável quanto a de alguém inteiramente destituído de cidade, designado como apolis.