ELIADE, Mircea. Images et symboles. Essais sur le symbolisme magico-religieux, 1952
O «Deus Ligador» e o Simbolismo dos nós
O soberano terrível
1. A verificação da polaridade ligadora e desligadora prossegue nos domínios concretos dos ritos e dos usos, e Rómulo, tirano tão terrível como prestigioso, ligador de laços potentíssimos, fundador dos Lupércios selvagens e das Celeres frenéticas, é no plano historicizado da mitologia romana o equivalente a Varuna, Urano e Júpiter, explicando-se toda a sua história e as instituições socio-religiosas cuja fundação lhe é atribuída a partir do arquétipo que ele encarna de certo modo, o Soberano Mágico indo-europeu, mestre dos laços.
2. Plutarco recorda que adiante de Rómulo marchavam sempre homens armados de chibatas, que afastavam a multidão, e cintados com correias a fim de ligarem imediatamente aqueles que ele mandasse ligar, e os Lupércios, confraria mágico-religiosa instituída por Rómulo, pertencem à ordem dos equites e nesta qualidade usam um anel no dedo, enquanto pelo contrário os flâmines Dialis, representando a religião grave, jurídica e estática, não podem montar a cavalo nem usar anel a menos que este fosse furado e oco.
3. Se um homem manietado entra em casa dos flâmines diális é necessário libertá-lo e que as correias sejam levadas para o telhado pelo impluvium e de lá atiradas à rua, e o flâmine não usa nó nem no que lhe cobre a cabeça nem na cintura nem em nenhuma outra parte, e se se leva um homem para ser vergastado e este homem se deita suplicante aos pés do flâmine é um sacrilégio bater-lhe nesse dia.
4. Não se trata de retomar o processo constituído e admiravelmente avalizado por Dumézil, mas de seguir num plano comparativo ainda mais amplo os motivos do deus ligador e da magia da ligação, tentando tirar daí as respectivas significações e precisar essas funções noutros conjuntos religiosos além do da soberania mágica indo-europeia.
5. Não se pretende esgotar esta extensa matéria, que já deu lugar a várias monografias, mas a intenção é antes de ordem metodológica, tirando proveito por um lado dos ricos repertórios de fatos acumulados pelos etnógrafos e pelos historiadores das religiões e por outro lado dos resultados das investigações realizadas por Dumézil no domínio particular da soberania mágica indo-europeia, perguntando-se em que sentido a noção de soberano ligador é específica e característica do sistema religioso indo-europeu e qual é o conteúdo mágico-religioso de todos os mitos, ritos e superstições centrados no motivo da ligação.
6. Não se ignoram os perigos que tal programa comporta, em primeiro lugar o confusionismo brilhantemente denunciado por Dumézil, mas trata-se menos de explicar aqui os fatos indo-europeus por paralelos heteróclitos do que levantar o mapa dos complexos mágico-religiosos do mesmo tipo e de precisar na medida do possível as relações do simbolismo indo-europeu da ligação com sistemas morfologicamente vizinhos, ficando-se assim em estado de avaliar se tal confrontação pode apresentar interesse para a história geral das religiões e nomeadamente para a história das religiões indo-europeias.
O simbolismo de Varuna
1. Depois de Bergaigne e Güntert, Dumézil recordou a força mágica de Varuna, que é um verdadeiro mestre dos laços, e numerosos hinos e cerimônias não têm outro objetivo senão o de proteger ou libertar o homem dos laços de Varuna, explicando Sâyana o nome de Varuna pelo fato de ele envolver, isto é, aprisionar os agentes do mal nos seus laços, e pedindo o Atharva Veda que se liberte dos seus laços aqueles que estão amarrados.
2. Os laços de Varuna são igualmente atribuídos a Mitra e Varuna considerados em conjunto e mesmo ao grupo inteiro dos Adityas, mas é sobretudo Varuna que tem o poder mágico de ligar e desligar os homens à distância, e isto é tão verdadeiro que o seu nome foi até explicado por esta faculdade de ligar, renunciando-se à etimologia tradicional que punha em evidência o seu caráter uraniano e seguindo-se hoje de preferência a interpretação que recorre a uma outra raiz indo-europeia com o sentido de ligar.
3. Varuna é representado com uma corda na mão e nas cerimônias tudo aquilo que liga, a começar pelos nós, recebe a designação de varuniano, e Dumézil justifica este prestígio mágico do mestre ligador pela soberania de Varuna, pois os laços de Varuna são também mágicos como mágica é a própria Soberania, sendo eles o símbolo dessas forças místicas detidas pelo chefe e que se chamam justiça, administração, segurança real e pública, todos os poderes, dividindo o ceptro e os laços entre si na Índia e noutros sítios o privilégio de representar tudo isso.
4. O aspecto soberano e até soberano-mágico não esgota a natureza complexa que Varuna apresenta desde os mais antigos textos védicos, pois se não se pode classificá-lo exclusivamente entre os deuses do Céu não é menos verdade que ele possui traços característicos das divindades uranianas, sendo visível em toda a parte, tendo separado os dois mundos, sendo o vento o seu sopro, e sendo Mitra e ele venerados como os dois poderosos e sublimes mestres do Céu que com as nuvens diversamente coloridas se mostram no primeiro estrondo do trovão e fazem chover o Céu por um milagre divino.
5. Esta estrutura cósmica permitiu-lhe adquirir muito cedo os caracteres chuvosos a ponto de se ter tornado com o tempo uma divindade do Oceano, e esta mesma estrutura cósmico-uraniana explica as outras funções e prestígios de Varuna, a sua omnisciência por exemplo e a sua infalibilidade, fórmula mítica que faz referência às estrelas e que não pode designar pelo menos na origem senão uma divindade uraniana.
6. Os prestígios da soberania aumentaram e multiplicaram os prestígios celestes, pois Varuna vê e sabe tudo porque domina o Universo da sua morada sideral e ao mesmo tempo pode tudo porque é cosmocrata e castiga ligando, isto é pela doença e pela impotência, os que infringem a lei, pois é guardião da ordem universal, existindo assim uma notável simetria entre aquilo a que poderíamos chamar a camada celeste e a camada real de Varuna, camadas que se correspondem e se completam uma à outra.
7. O Céu é transcendente e único exatamente como o é o Soberano Universal, e a tendência para a passividade manifesta em todos os deuses supremos do Céu responde bem aos prestígios mágicos dos deuses soberanos que atuam sem agir e que operam diretamente pela força do espírito.
8. A estrutura de Varuna é complexa mas existe sempre uma estrutura, isto é, existe uma coerência íntima entre as suas diferentes modalidades, pois cosmocrata ou uraniano ele é sempre omnividente, todo-poderoso e se necessário ligador pela sua força espiritual, pela magia, mas o seu aspecto cósmico é mais ornado ainda, pois ele não é apenas um deus celeste mas também um deus lunar e aquático.
9. Houve em Varuna, e talvez desde muito cedo, uma certa dominante noturna que Bergaigne e recentemente Ananda Coomaraswamy não deixaram de sublinhar, chamando Bergaigne a atenção para o comentador de Taittirîya Samhîtâ segundo o qual Varuna é designado como aquele que envolve como a obscuridade.
10. Esta faceta noturna de Varuna não se deixa interpretar exclusivamente no sentido uraniano de Céu noturno mas também num sentido mais amplo, verdadeiramente cosmológico e mesmo metafísico, pois a própria Noite também é virtualidade, germes, não-manifestação, e foi justamente esta modalidade noturna de Varuna que lhe permitiu transformar-se num deus das Águas e que abriu a via à sua assimilação com o demónio Vrtra.
11. Não é esta a altura própria para abordar o problema Vrtra-Varuna, limitando-se a recordar que existe entre as duas entidades mais de um traço comum, pois mesmo que não se leve em conta o parentesco etimológico provável dos seus dois nomes é importante salientar que ambos se encontram relacionados com as Águas, e em primeiro lugar com as Águas retidas, e que Vrtra como Varuna é por vezes chamado móyin, mágico.
12. De uma certa perspectiva estas diferentes assimilações de Vrtra e de Varuna, como aliás todas as outras modalidades e funções de Varuna, correspondem-se e justificam-se umas às outras, pois a Noite, o não-manifestado, as Águas, o virtual e os germes, a transcendência e o não-agir têm uma solidariedade simultaneamente mítica e metafísica com por um lado laços de toda a espécie e por outro lado Vrtra que reteve, parou ou encadeou as Águas.
13. No plano cósmico Vrtra é também um ligador, e como todos os grandes mitos o mito de Vrtra é multivalente e a sua interpretação não se esgota num único sentido, podendo mesmo dizer-se que uma das principais funções do mito consiste em unificar os níveis do real que se revelam tanto para a consciência imediata como para a reflexão múltiplos e heterogêneos.
14. Assim no mito de Vrtra, ao lado de outras valências, nota-se a de um retorno ao não-manifestado, de uma paragem, de um laço que impedem o desenvolvimento das formas, quer dizer da Vida cósmica, e não se tem evidentemente o direito de levar demasiado longe a aproximação entre Vrtra e Varuna, mas o parentesco estrutural não se pode negar entre o noturno, o não-atuante, o mágico Varuna que liga à distância os culpados e o Vrtra que prende com cadeias as Águas, tendo tanto a ação de um como de outro como finalidade parar a vida e trazer a morte, no plano individual num caso e no plano cósmico noutro.
«Deuses ligadores» na Índia Antiga
1. Na Índia védica Varuna não é o único deus ligador, salientando-se dentre os que utilizam esta arma mágica Indra, Yama e Nirrti, e de Indra por exemplo diz-se que trouxe um laço para Vrtra e que o amarrou sem se servir de cordas, mas Bergaigne observa que não se trata evidentemente senão de um desenvolvimento secundário do mito, cujo sentido é que Indra volta contra o demónio as suas próprias manhas.
2. Não são só Varuna e Vrtra que possuem o seu mâyâ mas outros seres divinos também, como os Maruts, Tvashtr, Agni, Soma e até os Açvins, mas por um lado estamos muitas vezes aqui perante seres religiosos ambivalentes no sentido de que um elemento demoníaco coexiste neles com elementos divinos, e por outro lado o atributo de mágico não é específico e só é dado às personalidades divinas como um acréscimo de homenagem, pois o prestígio do mâyin é tal que se sente a necessidade de o atribuir a toda a divindade que se quer honrar.
3. É um fenômeno bem conhecido na história das religiões e especialmente das religiões indianas o fato da tendência imperialista que leva uma forma religiosa vitoriosa a assimilar toda a espécie de outros atributos divinos e a estender o seu domínio às diversas zonas do sagrado, e no caso de que nos ocupamos esta tendência para a anexação de prestígios e de poderes estrangeiros à esfera própria do deus é tanto mais interessante quanto se trata de uma estrutura religiosa arcaica, a saber o prestígio do mágico, e aquele que maior proveito tirou disso foi Indra.
4. Ele triunfou dos máyin por meio dos máyâ, tal é o leitmotiv de numerosos textos, e entre as magias de Indra coloca-se em primeiro lugar o seu poder de transformação, mas talvez seja oportuno distinguir entre as suas múltiplas epifanias particulares, homologadas, e o poder mágico indefinido que permite a um ser qualquer revestir uma forma animal.
5. Entre a esfera da epifania mítico-religiosa e a da metamorfose há interferências, empréstimos e confusões, e num domínio tão instável como a mitologia védica nem sempre é fácil distinguir o que pertence a uma e a outra, mas é justamente esta imprecisão e esta instabilidade que são instrutivas do ponto de vista fenomenológico, pois revelam bem a tendência das formas religiosas para se interpenetrar e se absorverem umas às outras, e esta perspectiva dialética não pode deixar de ajudar a compreender os fenômenos religiosos arcaicos.
6. Indra não é somente em alguns casos um mágico, ele liga também tal como Varuna e como Vrtra, sendo a atmosfera o seu laço e é com este laço que ele envolve os seus adversários, e o seu correspondente iraniano Verethragna liga as mãos do adversário, mas esses são traços secundários e que se explicam talvez pela autêntica utilização pré-histórica do laço à maneira de arma.
7. É verdade que na perspectiva do pensamento arcaico uma arma é sempre um meio mágico, mas isto não impede que um deus propriamente guerreiro como Indra utilize este meio mágico em verdadeiros combates, enquanto Varuna se serve dos seus laços sem combater, sem agir, magicamente.
8. Mais instrutivo é o exemplo dos outros deuses ligadores, Nirrti e Yama, ambos divindades da morte, pois os laços de Yama são geralmente chamados laços da morte e Nirrti por sua vez prende com correntes aqueles que quer perder, pedindo-se aos deuses que afastem os laços de Nirrti do mesmo modo que o homem implora a Varuna que o salve dos seus laços.
9. Tal como em certos casos Agni, Soma ou Rudra são invocados para libertar dos laços de Varuna, supõe-se que Indra pode livrar não só dos laços de Varuna mas também da amarração dos demónios da morte, e as doenças são laços e a morte o laço supremo, o que explica que em Yama e em Nirrti estes atributos sejam não só importantes mas verdadeiramente constitutivos.
10. Doença e morte, estes dois elementos do complexo mágico-religioso da ligação, tiveram em quase todo o mundo a maior popularidade e seria oportuno investigar se a sua difusão não é de molde a esclarecer certos aspectos do problema que nos ocupa, mas antes de deixar o domínio indiano tentemos esquematizar os conjuntos mais importantes que aí observamos.
11. Varuna, o Grande Asura, liga magicamente os culpados e é-lhe pedido quer que não ligue quer que não desligue; Vrtra prende com correntes as Águas e certos aspectos do seu mito estão de acordo com o lado noturno, lunar e aquático de Varuna, na medida em que estas modalidades do grande Deus exprimem o não-manifestado e o bloqueado; Indra, tal como Agni e Soma, liberta os homens dos laços de Varuna e das correntes das divindades funerárias, cortando ou quebrando estes laços exatamente como no mito ele corta e retalha o corpo de Vrtra, empregando a par dos processos guerreiros que lhe são próprios e mesmo exclusivos também processos mágicos, mas os laços em todo o caso não constituem nele um traço fundamental mesmo que o laço deva ser considerado como uma das suas armas.
12. Pelo contrário os laços, as cordas e os nós caracterizam as divindades da morte, Yama e Nirrti, e os demónios das diversas doenças, e enfim nas versões populares dos livros védicos os encantos dirigidos contra os laços destes demónios não são menos numerosos do que os sortilégios ligadores voltados contra os inimigos humanos.
13. Vê-se que mesmo assim resumidas as coisas não são simples, no entanto desenham-se certas linhas de força: no plano mítico das façanhas divinas, por um lado o não-agir mágico de Varuna e de Vrtra e por outro a ação de Indra; no plano humano das doenças e da morte, a importância dos laços e dos nós nas divindades funerárias ou nos demónios e a utilização mágica da ligação tanto na medicina popular como nos sortilégios.
14. Assim desde os tempos védicos o complexo da ligação, permanecendo característico e constitutivo da zona de soberania mágica, ultrapassa-a no entanto a um nível superior, o nível cosmológico de Vrtra, e a um nível inferior, o nível funerário de Yama e Nirrti e o nível da feitiçaria, e experimentemos ver que novos contatos uma comparação com os outros domínios indo-europeus pode trazer a este quadro.
Trácios, germânicos, caucasianos
1. É provável, como o mostrou Güntert, que o nome do deus trácio Darzales, confirmado pelas inscrições, se explique por um radical que contém a noção de ligar, mas ignoramos quase tudo deste deus, e a mesma etimologia é também válida para o nome do deus geto-trácio Derzelates, bem conhecido em Odessos, onde se celebravam as darzaleia destinadas a proteger as colheitas, e atestado também em Tomis em anéis que ostentam a inscrição Derzo, e ainda pelos da deusa traco-frígia Bendis, do lituaniano Bantis e do iliriano Bindus.
2. Infelizmente sabe-se muito pouca coisa destes dois últimos, e teria o sacrifício humano praticado pelos ilirianos sido ofertado a Bindus?
3. Mais reveladores são certos rituais que foram conservados tanto no domínio germânico como na região traco-frígia e caucasiana, pois falando da grande festa anual religiosa dos Semnons, Tácito acrescenta que os participantes não podiam participar nela senão depois de terem sido amarrados, e Closs, que comentou abundantemente este rito e citou numerosos paralelos, considera-o como testemunho de submissão para com a divindade nacional, enquanto Pettazzoni o classifica antes entre as ordálias.
4. Seja como for há fundamento para o comparar com o anel de ferro que os Chatti usavam como uma cadeia até que tivessem matado o seu primeiro adversário, com o ritual de amarrar com correntes usado entre os Albanianos, bem como com as correntes usadas pelos georgianos devotos de Georges Blanc, com os rituais de ligação dos reis armênios e com certos costumes albaneses contemporâneos, ressaltando de todos estes ritos uma atitude servil, apresentando-se o crente como um escravo ou um cativo perante o seu senhor.
5. A ligação concretiza-se assim numa espécie de ato de vassalagem, e Closs tem talvez razão em atribuir o ritual dos Semnons à influência iliriana e considerá-lo como pertencente com caráter particular a um nível cultural lunar-tônico tendo o seu centro nas regiões do Sul.
6. Mas para além deste ritual encontram-se nos Germanos outros elementos que se integram ainda no mesmo complexo da ligação, por exemplo a morte ritual por enforcamento que explica o epíteto de Odhinn, deus da corda, do mesmo modo as deusas funerárias germânicas puxam os mortos com uma corda e as deusas guerreiras atam com cordéis aqueles que elas querem que caiam, e estes traços são de fixar pois lembram a técnica de Yama e de Nirrti e esclarecer-se-ão aliás pelos fatos que se vão citar.
Irão
1. Os dados iranianos são de dois tipos: algumas alusões ao demónio Astôvîdhôtush que também amarra o homem destinado a morrer, e os gestos dos deuses guerreiros e dos heróis iranianos, pois Frêdûn por exemplo amarra o demónio Azdahâk e acorrenta-o ao monte Dimâgand, o deus Tishtrya ata os feiticeiros Pairika com duas ou três cordas, e Verethragna como se viu amarra os braços do adversário.
Paralelos etnográficos
1. Seria vão formular qualquer conclusão geral acerca dos fatos indo-europeus antes de ter alargado a perspectiva histórica e cultural e de ter integrado o complexo da ligação num grupo mais vasto de simbolismos análogos ou idênticos, mas desde já se podem assinalar alguns paralelos etnográficos no grupo indo-europeu de deuses e demónios funerários que ligam os mortos.
2. A figura mais próxima do par iraniano Vayu-Astôvîdhôtush não é outro senão o deus chinês do vento e da armadilha, Pauhi, que está em estreita relação com a deusa-serpente Nakura, o que prova que ele pertence a um nível cultural tônico-lunar, e quanto às cordas de Yama, de Nirrti, de Astôvîdhôtush e das deusas germânicas as suas réplicas mais exatas encontram-se no domínio do Pacífico.
3. Nos Aranda da Austrália as demónias tjimbarkna atam durante a noite as almas dos humanos e matam-nos apertando com força a corda, nas ilhas Danger o deus da morte Vearua liga os defuntos com cordas e arrasta-os assim para o país dos mortos, nas ilhas Hervey a alma do defunto descendo ao inferno por uma árvore miraculosa avista a rede do deus Akaanga que o espera e ao qual a alma não pode escapar, em San Cristobal o Fisher of Soul sentado num rochedo pesca as almas, e nas ilhas Salomão são os parentes que pescam a alma do defunto para a colocarem numa caixa com uma relíquia corporal.
4. Os feiticeiros das ilhas Hervey possuem armadilhas mágicas nas quais capturam as almas dos que querem perder, e encontra-se o mesmo costume em outras zonas culturais, mas é importante notar como na Melanésia a maneira pela qual o deus da morte pesca e amarra as almas é análoga à técnica assassina dos feiticeiros, e esta solidariedade entre as duas magias contribui para esclarecer o problema da ligação.
5. Viu-se que entre os indo-europeus os motivos dos laços, nós e cordas se repartiam por diversos conjuntos distintos, entre certos deuses, heróis ou demónios, certos rituais e certos costumes, e já é completamente diferente o aspecto que o problema apresenta no mundo semítico, pois nele os laços mágicos de toda a espécie são um prestígio divino e demoníaco mais ou menos universal.
6. Há deuses soberanos, como Enlil e sua mulher Ninkhursag, ou então deuses lunares como En-zu, que apanham nas suas redes os que se tornam culpados de perjúrio, mas Shamash, o deus solar, também está armado com laços e cordas e é-lhe suplicado também que liberte quem está ligado, a deusa Nisaba ata os demónios das doenças, e por seu lado os demónios possuem laços, especialmente os demónios das doenças, dizendo-se a Bêl que ele lança os seus laços e cada laço é um laço hostil.
7. Tammuz é chamado Senhor dos laços mas no mito ele próprio está ligado e pede para ser salvo dos laços, e pede-se a Marduk que livre das cadeias e dos laços pois ele é também um senhor ligador, e tal como Indra ele utiliza o laço e as cordas como deus campeão à maneira heróica.
8. No poema da Criação, Enuma Elish, distinguem-se duas espécies de ligação que lembram o díptico védico Varuna-Indra, pois Ea, o deus das Águas e da sabedoria, não luta heroicamente com os monstros primordiais Apsû e Mummu, liga-os por meio de encantos mágicos para em seguida os matar, e Marduk, depois de ter sido investido pela assembleia dos deuses de prerrogativas de soberania absoluta que até então pertenciam ao deus celeste Anu e depois de ter recebido da mesma o ceptro, o trono e o pâlu, empenha-se no combate contra o monstro marinho Tiamat e desta vez assistimos verdadeiramente a uma luta heróica, mas a arma capital de Marduk continua a ser a rede, dom de seu pai Anu.
9. Marduk liga Tiamat, acorrenta-o e tira-lhe a vida, põe em seguida a ferros todos os deuses e demónios que tinham ajudado Tiamat, e diz o poema que eles foram lançados nas redes, permaneceram nas armadilhas e foram metidos em cavernas, e Marduk adquire a soberania pela sua luta heróica mas conserva também as prerrogativas da soberania mágica.
10. Se se tiver em conta também o valor mágico das cordas, dos nós e dos laços na feitiçaria e na medicina popular, a impressão geral que se desprende desta rápida exploração do domínio mesopotâmico é a de uma confusão quase total, pois a ligação parece ser um prestígio mágico-religioso que todas as formas religiosas assimilam igualmente bem, e haveria interesse em que um especialista das religiões mesopotâmicas retomasse o problema para determinar se se pode reconstituir uma história por detrás desta confusão.
Magia dos nós
1. Considerando agora no seu conjunto a morfologia dos laços e dos nós na prática da magia, poder-se-iam classificar os fatos mais importantes sob duas grandes rubricas: os laços mágicos utilizados contra os adversários humanos na guerra e na feitiçaria, com a operação inversa do corte dos laços, e os nós e laços benéficos, meios de defesa contra os animais selvagens, contra as doenças e sortilégios, contra os demónios e a morte.
2. Podem citar-se na primeira categoria os laços mágicos voltados contra os adversários, as cordas lançadas pelo príncipe no caminho dos exércitos inimigos, a corda enterrada junto da casa de um inimigo ou ainda escondida no barco deste a fim de o fazer voltar-se, e os nós que infligem toda a espécie de males tanto na magia antiga como nas superstições modernas.
3. Quanto ao corte dos laços, este é já utilizado pelo Atharva Veda, e na mesma ordem de ideias, como meio preventivo, lê-se frequentemente na literatura etnográfica que os homens não devem usar nenhum nó sobre si próprios em certos períodos críticos, como o parto, o casamento e a morte.
4. Quanto à segunda categoria, o seu desenvolvimento é considerável e a sua orientação pode ser positiva ou negativa, quer se tome esta oposição no sentido de benéfica e maléfica, quer no sentido de defesa e de ataque.
Magia e religião
1. Todas estas crenças e todos estes ritos conduzem sem dúvida ao domínio da mentalidade mágica, mas pelo fato de estas práticas populares se relacionarem com a magia ter-se-á o direito de considerar o simbolismo geral da ligação como uma criação exclusiva da mentalidade mágica, e não se pensa assim.
2. Mesmo quando os ritos e símbolos da ligação nos indo-europeus comportam elementos tônico-lunares e por conseguinte revelam fortes influências mágicas, o que não é certo, ficam por explicar outros documentos que exprimem não somente uma experiência religiosa autêntica mas também uma concepção geral do homem e do mundo que é verdadeiramente religiosa e não mágica, e os dados mesopotâmicos que passamos em revista por exemplo não se deixam reduzir em totalidade a uma interpretação mágica.
3. Entre os Hebreus as coisas são ainda mais claras, pois é verdade que a Bíblia fala das redes da morte e dos laços da Mansão dos Mortos que envolveram e surpreenderam o homem, mas o senhor terrível destes laços é o próprio Yahvé e os Profetas representam-no com redes na mão para punir os culpados, e a experiência religiosa tão profunda e tão autêntica de Job encontra a mesma imagem para exprimir o poder de Deus, dizendo Job que foi Deus que o confundiu e que estendeu seus laços em seu redor.
4. Os judeo-cristãos que sabiam que é o demónio que liga os doentes falavam todavia também do Deus Supremo como do senhor dos laços, e encontramos assim no mesmo povo uma multivalência mágico-religiosa dos laços, laços da morte, da doença e da feitiçaria, e também laços de Deus.
5. Uma rede se encontra estendida sobre todos os seres vivos, escrevia Rabbi Aquipa, e a fórmula é feliz porque não exprime uma visão exclusivamente mágica ou religiosa da vida mas em toda a sua complexidade a própria situação do homem no mundo, exprimindo para usar uma terminologia em voga a condição do próprio ser existente.
6. De fato o fio da vida simboliza em bastantes países o destino humano, e Job exclama que o fio da sua vida se quebrou, Aquiles como todos os mortais sofrerá o que o destino quando do seu nascimento teceu para ele com o linho quando a mãe o deu à luz, e as deusas do destino tecem o fio da vida humana.
7. Mas há mais ainda, pois o próprio Cosmos foi concebido como um tecido, como uma enorme rede, e na especulação indiana por exemplo o ar teceu o Universo ligando como que por um fio este mundo e o outro mundo e todos os seres em conjunto, tal como o sopro teceu a vida humana.
8. Daí resulta que um simbolismo bastante ramalhudo exprima duas coisas essenciais: por um lado que no Cosmos como na vida humana tudo está ligado a tudo por uma textura invisível e, por outro lado, que certas divindades são senhoras destes fios que em última instância constituem uma vasta ligação cósmica.
9. É raro que a etimologia forneça um argumento decisivo em problemas tão delicados como os que dizem respeito à origem da religião e da magia, mas ela é frequentemente instrutiva, e Scheftelowitz e Güntert lembraram que em várias famílias linguísticas as palavras que designam a ação de ligar servem igualmente para exprimir o encantamento.
10. Em turco-tártaro bag, baj, boj significa simultaneamente feitiçaria e laço, corda; em grego uma palavra significa ligar solidamente e também ligar por encanto de magia fazendo um nó; o latim fascinum, encanto e malefício, é aparentado com fascia, faixa e ligadura, e com fascis, feixe; ligâre, ligar, e ligâtura, ação de ligar, são também encantar e encanto; e o sânscrito yukti, propriamente atrelar e ligar, toma o sentido de processos mágicos, e os poderes do yoga são por vezes compreendidos como um encantamento por ligação.
11. Todas estas etimologias confirmam que a ação de ligar é essencialmente mágica, estando-se aqui perante uma especialização extrema de enfeitiçar, ligar por magia e fascinar, e etimologicamente religio nota também uma forma de ligação à divindade, mas seria imprudente compreender religio no sentido de feitiçaria, pois como se disse a experiência religiosa é irredutível à magia.
Simbolismo das «situações-limite»
1. Vários outros complexos simbólicos caracterizam quase com as mesmas fórmulas a estrutura do Cosmos e a situação do homem no mundo, pois a palavra babilônica markasu, ligação e corda, designa na mitologia o princípio cósmico que une todas as coisas e também o suporte, a força e a lei divina que mantêm coeso o Universo, e do mesmo modo Tchuang Tseu fala do tao como da cadeia de toda a criação, o que lembra a terminologia cosmológica indiana.
2. Por outro lado o labirinto é por vezes concebido como um nó que deve ser desatado, e esta noção tem lugar num conjunto metafísico-ritual que contém as ideias de dificuldade, de perigo, de morte e de iniciação, e num outro plano, o do conhecimento e da sabedoria, encontram-se expressões similares, pois fala-se da libertação das ilusões, que na Índia tomam o mesmo nome da magia de Varuna, mâyâ, procura-se rasgar os véus da irrealidade e desfazer os nós da existência.
3. Isto dá a impressão de que a situação do homem no mundo, seja qual for a perspectiva adotada, se exprime sempre por palavras-chave que contêm a ideia de ligação, de acorrentação e de união, pois no plano mágico o homem serve-se de nós-amuletos para se defender dos demónios e dos feiticeiros, no plano religioso sente-se ligado por Deus e preso no seu laço, mas a morte também o liga, concretamente ou metaforicamente, e melhor ainda a própria vida é um tecido ou um fio que prende a vida de cada mortal.
4. Estas diversas perspectivas têm certos pontos comuns, pois sempre e em toda a parte a finalidade última do homem é libertar-se dos laços, e à iniciação mística do labirinto, durante a qual se aprende a desatar o nó labiríntico para se ser capaz de o desfazer quando a alma o encontrar depois da morte, responde a iniciação filosófica e metafísica cuja intenção é rasgar o véu da ignorância e libertar a alma das cadeias da existência.
5. Sabe-se que o pensamento indiano é dominado por esta sede de libertação e que a sua terminologia mais característica se deixa reduzir a fórmulas polares tais como acorrentado-libertado, ligado-desligado e unido-desunido, e as mesmas fórmulas ocorrem na filosofia grega, pois na caverna de Platão os homens estão presos por correntes que os impedem de se movimentar e de voltar a cabeça, e a alma após a queda foi aprisionada e acorrentada, estando num túmulo e numa caverna, mas ao voltar-se para os pensamentos ela liberta-se dos seus laços.
6. Esta multivalência do complexo de ligação, que acabamos de ver nos planos cosmológico, mágico, religioso, iniciático, metafísico e soteriológico, é provavelmente devida ao fato de o homem reconhecer neste complexo uma espécie de arquétipo da sua própria situação no mundo.
7. Com isso ele contribui antes de mais para pôr um problema de antropologia filosófica no qual a investigação propriamente filosófica ganhará bastante em não negligenciar estes documentos respeitantes a certas situações-limite do homem arcaico, pois se o pensamento contemporâneo se gaba de ter redescoberto o homem concreto não é menos verdade que as suas análises incidem sobretudo na condição do Ocidental moderno e que ele peca assim por uma falta de universalismo, por uma espécie de provincianismo humano decididamente monótono e estéril.
8. O complexo de ligação põe por outro lado, ou melhor constitui, um problema que interessa ao mais alto grau à história das religiões, não somente pelas relações que descobre entre a magia e a religião mas sobretudo porque nos revela aquilo a que poderíamos chamar a proliferação das formas mágico-religiosas e a fisiologia dessas formas, tendo-se a impressão de assistir a uma ligação-arquétipo que tenta realizar-se tanto nos diferentes planos da vida mágico-religiosa como nos diferentes níveis de cada um destes planos.
9. Num certo sentido pode mesmo dizer-se que se o soberano terrível, histórico ou historicizado, se esforça por imitar o seu protótipo divino, o deus ligador, qualquer feiticeiro imita também o soberano terrível e o seu modelo transcendente, e morfologicamente não existe solução de continuidade entre Vrtra que acorrenta as Águas, Varuna que liga os culpados, os demónios que se apoderam dos mortos na sua rede e os feiticeiros que atam magicamente o adversário ou desligam as vítimas de outros feiticeiros, sendo a estrutura de todas estas operações a mesma.
10. No estado atual dos nossos conhecimentos é difícil precisar se esta uniformidade provém da imitação, de empréstimos históricos, ou se ela se explica pelo fato de todas estas operações decorrerem da própria situação do homem no mundo, quer dizer são as variantes de um mesmo arquétipo que se realiza sucessivamente em planos múltiplos e em áreas culturais diferentes.
11. Parece certo que pelo menos no caso de alguns complexos, o da soberania mágica indo-europeia por exemplo, estamos perante conjuntos mítico-rituais que são historicamente solidários, mas a realidade histórica do complexo indo-europeu da ligação não implica necessariamente que todos os outros costumes e crenças mágico-religiosas difundidos pelo mundo fora e relativos a um complexo similar sejam também históricos, e para precisar o nosso pensamento acrescentemos que se o caso particular indo-europeu não implica necessariamente esta conclusão também não a exclui e que por prudência a questão deve permanecer em aberto.
Simbolismo e história
1. Mas a título comparativo poderíamos citar um caso análogo, o complexo da ascensão ritual e do voo mágico, pois se se podem distinguir certas relações históricas entre as diversas crenças e sistemas que incluem a ascensão como um dos seus elementos essenciais, a morfologia da ascensão e do simbolismo do voo ultrapassa muito estas relações históricas.
2. Mesmo que se chegue um dia a identificar a fonte histórica que é responsável por todos os rituais e simbolismos sociais da ascensão, mesmo que se esteja por conseguinte em presença de um complexo historicamente solidário, isso não impediria que a estrutura da ascensão continuasse a revelar-se em planos múltiplos e em áreas culturais diferentes.
3. Verifica-se também que as variantes patológicas dos complexos religiosos apresentam um fácies simiesco, e é preciso ser prudente, mas o que parece mais seguro é a tendência de toda a forma histórica para se aproximar o mais possível do seu arquétipo mesmo quando foi realizada num plano secundário e insignificante, fenômeno que se verifica em todo o lado na história religiosa da humanidade.
4. Qualquer deusa local tende para se transformar na Grande Deusa, qualquer aldeia é o Centro do Mundo, qualquer feiticeiro se pretende no rigor dos seus ritos Soberano Universal, e é esta mesma tendência para o arquétipo, para a restauração da forma perfeita de que um rito, um mito ou uma qualquer divindade não passam de variantes muitas vezes bastante pálidas, que torna possível a história das religiões.
5. Sem ela a experiência mágico-religiosa criaria continuamente formas fulgurantes ou evanescentes de deuses, de mitos e de dogmas, e o observador encontrar-se-ia perante um pulular de tipos sempre novos que não permitiriam qualquer ordenação, mas uma vez realizada e historicizada a forma religiosa tende a libertar-se dos seus condicionalismos de tempo e de lugar tornando-se universal e buscando o arquétipo.
6. Enfim o imperialismo das formas religiosas vitoriosas explica-se também por esta tendência que leva toda a hierofania ou teofania a transformar-se no Todo, isto é, a esgotar por si só a manifestação do sagrado e a incorporar em si a imensa morfologia do sagrado.
7. Seja o que for que se depreenda destas vistas gerais, é provável que o complexo mágico-religioso da ligação corresponda bem a um arquétipo ou a uma constelação de arquétipos, e chamou-se a atenção para alguns: a tecitura do Cosmos, o fio do destino humano, o labirinto e a cadeia da existência.
8. A ambivalência e heterogeneidade dos motivos da ligação e dos nós, e também da libertação dos laços, confirmam como são múltiplos e diversos os planos sobre os quais os arquétipos se realizaram, e isto não quer dizer que no interior desta massa enorme dos fatos relativos aos complexos mágico-religiosos considerados não se possam distinguir certos conjuntos historicamente solidários e que não se tenha o direito de os considerar como dependentes uns dos outros ou como saídos todos de uma fonte comum.
9. Foi o que Güntert, Dumézil e A. Closs fizeram em perspectivas diferentes no domínio europeu, e hesitar-se-á em seguir Closs quando este cientista, fiel aos princípios da escola histórico-cultural de Viena, pretende explicar tal rito ou tal mito de ligação americano ou melanésio como dependendo historicamente da fonte que deu também origem às formas indo-europeias.
10. Mais verosímil é a sua hipótese da origem caucasiana do complexo de ligação ritual indo-europeu, pois os Finno-Ugrianos e os Turco-Tártaros ignoram tanto os ritos como os mitos da ligação, o que parece indicar nitidamente que a origem deste complexo deve ser procurada nos países do Sul, e de fato os paralelos mais próximos do rito georgiano das cadeias de Georges Blanc encontram-se na Índia, de um lado o anel de ferro que o feiticeiro dos Gonds usa em volta do pescoço durante os nove dias da festa de Káli-Dûrga e de outro lado os anéis de ferro que rodeiam o pescoço de um ídolo feminino e de Proto-Shiva encontrados em Mohenjo-Daro.
11. Seria imprudente encarar uma derivação direta do rito atual dos Gonds a partir da cultura proto-histórica do Indus, mas a aproximação estabelecida por W. Koppers entre estes fatos não é desprovida de interesse.
12. Todavia a frequência dos motivos da ligação e dos nós nas camadas arcaicas das religiões mesopotâmicas está ainda por explicar, e seria ela uma variante lateral que ao contrário do que aconteceu com os indo-europeus não teria conseguido organizar-se num sistema teológico e ritual e impor-se no conjunto da vida religiosa, variante que se teria então multiplicado até ao infinito, transformada tanto em prestígio divino como demoníaco, que teria sido anexada por toda a divindade e utilizada por todo o feiticeiro.
13. O que é certo é que apenas entre os indo-europeus o complexo da ligação se encontra organicamente integrado na própria estrutura da soberania terrível divina ou humana, e que é só entre os indo-europeus, como o demonstraram nomeadamente as investigações de Dumézil, que nos encontramos perante um sistema coerente e de aplicação geral aos planos ritual, mitológico e teológico.
14. Mas que mesmo entre os indo-europeus este sistema, centrado sobre a concepção do Soberano Terrível, não tenha esgotado o poder criador das formas mágico-religiosas e dos simbolismos relativos à ligação, as páginas anteriores tentaram mostrá-lo, e tentou-se até mesmo encontrar uma explicação deste fato no plano da magia, da mitologia e da própria religião, devendo-se ele quer à própria situação do homem no mundo, de origem espontânea, quer a uma imitação mais ou menos servil de formas já existentes, de gênese histórica.
15. Mas seja qual for a explicação que se preferir, a complexidade da concepção indo-europeia do deus Soberano Terrível é doravante certa, começa-se a entrever a pré-história e está-se preparado para aí distinguir eventuais empréstimos a tradições religiosas estrangeiras.
16. Seria talvez impróprio definir esta concepção como sendo exclusivamente uma concepção mágica, se bem que a sua estrutura nos convide muitas vezes a classificá-la assim, pois por um lado sublinharam-se na própria Índia os valores cosmogônicos e metafísicos da ligação de Varuna e Vrtra e por outro lado as experiências religiosas provocadas nos Hebreus pelo mesmo complexo provam que uma vida religiosa muito pura e muito profunda pode encontrar o seu alimento mesmo nos laços de um Deus aparentemente terrível e ligador.